A Entrevista SIC

João Valentim: “Fiz a escolha certa, estou no lugar certo”

Foto: Rui Valido

João Valentim foi um dos repórteres do Você na TV! que optou por acompanhar Cristina Ferreira na sua transferência para a SIC. Em entrevista ao A Televisão, o profissional de O Programa da Cristina comenta o fim da dupla televisiva que mais sucesso registou na nossa televisão e faz revelações sobre o ambiente que se vive nos bastidores da SIC na hora da vitória

A TV – João, estreaste-te em televisão na TVI, onde mais tarde vieste a assumir o papel de repórter do Você na TV!. Como é que defines essa primeira experiência neste mundo do entretenimento?

João Valentim – Acho que aprendi muito por começar na informação, porque a forma de trabalhar na informação é diferente da do entretenimento. Na informação lembro-me de ter feito aquela campanha dos 50% de desconto do Pingo Doce, que foi a minha primeira reportagem. Acho que hoje em dia consigo conjugar o melhor dos dois mundos.

Com quem era mais fácil trabalhar: com a Cristina ou com o Goucha?

É igual com os dois. São pessoas diferentes, mas a exigência é a mesma.

“Eu costumo dizer que o Goucha é o Hitler do Português”

Quais foram os principais ensinamentos que cada um dos apresentadores te transmitiu?

O Goucha, o português. Eu costumo dizer que o Goucha é o Hitler do Português. Não se pode dar um erro em português. Com a Cristina, a ser sempre diferente, a nunca fazer o mesmo e ser sempre original.

Trabalhaste com a dupla televisiva mais bem-sucedida da nossa televisão. Como é que encaraste o seu fim?

Recebi a notícia quando estava na praia, no dia em que toda a gente soube. Uma vez eu estava num pequeno almoço com a Cristina, todos nós temos dias mais felizes que outros, e nesse dia eu disse-lhe, no caminho para a reunião que tínhamos no Você na TV!: “tens de ir para a SIC e levar-me”. No dia em que a bomba foi lançada ela ligou-me e disse-me: “fiz aquilo que tu disseste e tu vens comigo”. Acho que já era previsível. Acho que ela precisava de mudança e de se desvincular do Manuel Luís para mostrar a ela própria e às pessoas que ela consegue sozinha e não precisa de ninguém para ser bem-sucedida. Como se tem visto agora, ela é uma máquina a fazer televisão.

“Perdi a companhia do Manuel Luís Goucha”

Enquanto espectador, achas que o público perdeu alguma coisa com o fim desta dupla?

Eu perdi. Perdi a companhia do Manuel Luís Goucha. Por acaso tenho saudades do Goucha. Em termos televisivos, acho que ganhámos todos porque temos uma nova aposta na televisão, um programa que é diferente de tudo o que há hoje em dia e acho que foi bom para todos. Se calhar, para a TVI não foi, mas para a SIC foi (risos). Acho que temos três boas alternativas nas manhãs e o espectador só ganhou com isso.

Sei que é uma escolha difícil, mas, se tiveres de eleger o melhor apresentador da agora findada dupla, qual é a tua opção?

Eu identifico-me com os dois. Gosto muito de trabalhar com os dois. Mudei porque acho que também me fazia bem mudar, mas, se ficasse na TVI, ficaria feliz também. São os dois diferentes, mas são os dois bons.

Achas que o Manuel ficou bem acompanhado pela Maria Cerqueira Gomes?

Sinceramente, acho que sim. Ela tem piada, tem à vontade. Se calhar, não é aquilo que as pessoas esperavam que ela fosse, mas acho que ela está a fazer um bom trabalho.

Achas que o papel dela foi injusto? O de substituir a Cristina Ferreira?

Sim, é impossível. Dizem que não há pessoas insubstituíveis, mas…

Achas que a Cristina é insubstituível?

Claro que é! E o Goucha também, a Maria também.

“Nunca pensei que o programa tivesse o sucesso que tem hoje”

Trocaste o projeto líder das manhãs por uma proposta que podia culminar num falhanço. Foi difícil optar pela SIC?

Não, nunca pensei nisso dessa perspetiva. Ia com a Cristina, sei como é que ela trabalha. Nunca pensei que o programa tivesse o sucesso que tem hoje e acho que nunca ninguém pensou. Pensei que um dia ganharia a Cristina e no outro dia o Goucha, que iriam andar empatados, mas, pelos vistos fiz a escolha certa, estou no lugar certo, à hora certa.

Foto: Rui Valido

Quando te fizeram a proposta de transferência para a SIC, quais eram as tuas expectativas para o projeto?

Aprender mais. Aprender outra forma de trabalhar, outro método, porque é diferente fazer reportagens para o Você na TV! de as fazer para a SIC. Não falo em termos de linguagem, mas em termos do contacto. Na TVI eu fazia mais aldeias, O Alcoviteiro, que era uma rubrica de coscuvilhice e aqui na SIC faço coisas que, não diria mais sérias, mas mais adultas, mais no lugar.

E olhando para esses dois cenários, qual é o tipo de trabalho que te dá mais prazer? O das aldeias ou o atual?

São dois trabalhos completamente diferentes. Na TVI eu andava mais na rua, mas são os dois bons. Se eu voltasse agora à TVI, iria com muita bagagem, sinto que aprendi muito. Até como pessoa cresci.

Acreditavas que O Programa da Cristina se iria tornar no fenómeno que é hoje?

Não acreditava que fosse tanto. Nem eu nem ninguém. Foi uma surpresa para todos. Quem é que estava à espera de que o António Costa fosse fazer uma cataplana de marisco ao programa das manhãs? Ou que o Luís Filipe Vieira chorasse a jogar às cartas? Ninguém esperava isso.

Foto: Rui Valido

Colocando as suspeitas de parte, se fosses espectador, qual seria a tua opção nas manhãs televisivas?

Acho que veria os dois. Talvez mudasse para a TVI numas partes, para a SIC noutras, passava também pela RTP.

“O que nós fazemos no Programa da Cristina é um trabalho bom, bem estruturado e com bons profissionais”

Atualmente a Cristina lidera indiscutivelmente as audiências das manhãs. Qual é a sensação de derrotar a equipa da qual já fizeste parte?

Eu tenho um carinho muito especial pela TVI, estive lá cinco anos. Não fico feliz por eles perderem, muito pelo contrário, porque foi lá que eu cresci e tenho lá muitos amigos, amigos mesmo. A sensação é boa, é sinal de que o nosso trabalho é reconhecido e que é um trabalho bom, porque o que nós fazemos no Programa da Cristina é um trabalho bom, bem estruturado e com bons profissionais.

Como é que a família SIC te acolheu?

Bem. É uma família que ainda estou a conhecer. Antigamente eu fazia passadeira vermelha e aí tinha mais contacto com as estrelas da TVI, aqui como não faço esse tipo de trabalho, não tenho tanto contacto, mas fui muito bem recebido, até pelo Daniel Oliveira, que sabia o meu nome (risos).

Em algum momento te arrependeste de ter aceite esta troca de camisola?

Não digo arrepender, mas as mudanças são sempre difíceis. Estar habituado a virar ali em Queluz de Baixo e agora ter de vir a Carnaxide, não vou dizer que não foi uma mudança difícil, porque foi.

O que ficou lá atrás, deixa saudades?

Deixa. Deixa carinho. Eu continuo a ver os meus colegas, mas o Goucha, infelizmente, nunca mais o vi desde que saí da TVI, mas pode ser que o encontre um dia.

“Dava-lhe um abraço e dizia que tenho saudades dele”

Se o visses agora, o que é que lhe dirias?

Dava-lhe um abraço e dizia que tenho saudades dele.

Qual é o espírito que se vive, neste momento, nos bastidores da SIC e do programa?

Acho que a Cristina transparece isso nos programas. Somos uma equipa feliz e estamos felizes. Estamos a fazer um programa que ganha, um programa que tem audiências há muito não vistas num programa da manhã e que quer crescer.

Foto: Rui Valido

Mas achas que o Programa da Cristina oferece ao público algo que os restantes não ofereciam já?

Oferece, porque a forma de trabalhar da Cristina e a forma como nós fazemos o programa é um bocadinho diferente. Nós embrulhamos o programa todo. Tudo ali faz sentido. A irreverência faz a diferença.

Achas que a atual liderança da SIC se deve à Cristina?

Não. A Cristina deu o impulso, mas as estratégias do Daniel Oliveira apostaram na qualidade e isso fez a diferença.

Sabemos que as transferências televisivas nem sempre são bem compreendidas pelo público. A tua teve alguma repercussão negativa?

Teve alguma. Dizem que eu mudei por dinheiro, que fui mal-agradecido, tal como fizeram com a Cristina. Às vezes o público esquece-se que também somos pessoas. Toda a gente muda de emprego. Não conheço ninguém que se tenha mantido no mesmo emprego a vida inteira. As pessoas vêm isto como um clube de futebol. “Se eu sou do Benfica, sou do Benfica até morrer” e neste caso eu não fui da TVI até morrer.

Conhecemos vários casos de apresentadores que condenam a sua carreira ao insucesso depois de uma troca de estação. Porque é que achas que a transferência da Cristina acabou por não lhe retirar nenhum do sucesso que tinha na TVI?

A Júlia Pinheiro, quando mudou tinha o Goucha e a Cristina na TVI, que eram dois monstros da televisão. O João Baião estava a combater com a Fátima Lopes. A Cristina foi sozinha. Não sei explicar, é mesmo porque ela é boa.

Já disseste que o trabalho que fazes atualmente na SIC é um trabalho mais sério. Achas que precisavas desse crescimento?

Sim, já não tenho idade para andar na rua a perguntar às pessoas se sabem o que é a flatulência vaginal, como eu fazia na TVI (risos). Para mim, como profissional é bom poder mostrar outros modos de fazer reportagem, não posso ser sempre o miúdo engraçadinho.

Quais são as tuas ambições de carreira? Gostavas de te transformar num apresentador ou a vida de repórter preenche-te?

Eu nunca sonhei com o mundo da televisão. Isto tudo aconteceu por acaso. Lembro-me de estar a ver o Jornal da Noite, com a Clara de Sousa e pensei “se calhar, eu gostava de fazer isto”. A partir daí inscrevi-me na ETIC e apanhei-lhe o gosto. Nunca pensei muito em ser apresentador, se tiver de acontecer acontece.

Se tivesses de apresentar algum programa na televisão portuguesa, qual gostarias que fosse?

Na TVI gostaria de fazer o Somos Portugal porque eu gosto do contacto com as pessoas e acho que me enquadrava bem naquele programa. Na RTP adorava fazer o Portugueses Pelo Mundo, porque adoro viajar e acho que o formato é muito bem feito. Na SIC, o Olhó Baião parece-me bem (risos).

“A Joana Latino diz coisas que, às vezes, ninguém entende e faz informação”

Gostavas de voltar às raízes e voltar a fazer informação?

Não. Acho que já ninguém acreditava em mim (risos). Quer dizer, a Joana Latino diz coisas que, às vezes, ninguém entende e faz informação.

O que é que achas que faz falta à nossa televisão?

Humor. A RTP tem sempre programas de humor e acaba sempre com eles e eu nunca percebo porquê. Gosto muito de programas de humor e acho que faz falta à nossa televisão.

Também és dos que acredita que a televisão, tal como a conhecemos, tem os dias contados?

Não. Também diziam que a rádio e os jornais tinham os dias contados e hoje em dia não há ninguém que não ouça rádio e leia jornais.

Foto: Rui Valido

O que é que o mundo da Televisão trouxe de bom à vida do Valentim?

A minha independência: Financeira, dos pais. Trouxe-me liberdade. Um Valentim mais maduro.

Olhando para todo o teu percurso, se voltasses atrás, farias tudo de novo?

Faria tudo igual. Não mudava nada. Já mudei de canal, trabalho com a melhor profissional deste país (mulher), num programa líder, não posso querer mais nada.

És algarvio. Foi complicado teres mudado a tua vida para Lisboa e abdicar do Algarve?

Vir para Lisboa foi uma coisa que eu sempre quis, porque eu vivia numa vila, que é Castro Marim e sentia que precisava de crescer e respirar. Faz-me ter saudades. O meu sonho é voltar, um dia, para lá quando já não fizer televisão e tiver independência para viver junto à praia para sempre.

ATV News