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Avó do ‘bebé milagre’ lamenta ter acesso a ver o neto apenas como “visita”

Reprodução Instagram

A avó do ‘bebé milagre’ fez revelações surpreendentes a Júlia Pinheiro. A entrevista a Fátima Branco foi transmitida esta sexta-feira do programa da tarde da SIC.

Fátima Branco, a mãe de Catarina Sequeira, a jovem que estava em morte cerebral e que deu à luz em março, abriu o seu coração esta sexta-feira a Júlia Pinheiro, após três meses do nascimento do neto, Salvador. Questionada sobre como é que tudo se procedeu no hospital, Fátima explicou que não tinha percepção que iria ser um processo tão difícil.

A apresentadora quis perceber como tudo se procedeu no hospital: “Vocês foram à Comissão de Ética do hospital de São João e perguntaram-vos se era para avançar com este bebé e vocês decidem quem sim…”. A avó de Salvador acenou a cabeça e acrescentou que lhes disseram que iria ser um “processo muito doloroso”.

“Hoje se eu soubesse que ia ter certas barreiras… eu tinha exigido ser a representante legal da Catarina, para ter acesso a certas coisas”, afirma. A razão de o não ter sido foi  porque agiu “com o coração” e possibilitou que todos, incluindo o namorado da filha, pudessem acompanhar o processo. “Era a mãe, ela não estava casada e só vivia com o namorado há um mês e pouco e eu disse que o namorado também podia assistir. Nessa altura, a decisão teria que ser minha. Mas para mim como família é família, nunca tentei ocultar as coisas, ou florear!”, disse.

Foram três meses difíceis como revela. “Ver ali o cadáver e ao mesmo tempo eu falava com o meu neto. Eu e os tios. Pusemos-lhe os auscultadores, até foi o namorado que lhos pôs. De repente a mãe levantava-se com espasmos, porque ele conseguia mexer a mãe. A Catarina chegava a levantar-se”, revela. Face a esta reação, o irmão gémeo de Catarina e o namorado acharam que ela “não estava morta” e acusaram-na de ter desistido da sua filha.

“’Tu desististe, eras a força da tua filha e tu desististe dela!’ Está a imaginar isto Júlia? Não imagina não!”, conta. Algo que levou a apresentadora a perguntar se acha que traiu a filha deixando-a exposta no hospital. “E porque a Catarina sempre fez as escolhas dela e deixou essa parte para mim, é verdade, sim sinto isso”, responde.

“Ainda era a sua filha naquela cama”, questiona Júlia Pinheiro. “Já não era. Na primeira reunião disseram-me logo: ‘A Catarina está morta!’ Eu sabia que a Catarina estava morta, só que eu via todos os dias a Catarina. A terminologia que utilizavam era ‘cadáver’. Mas para nós era a Catarina que estava ali, a minha filha”, acrescenta.

Após o nascimento do neto as coisas mudaram. “Às três da manhã do dia 28 de março ligaram-me do hospital a dizer que tinham que fazer a cesariana porque o bebé já não estava bem. Eu estou a 30 e tal quilómetros do hospital de S. João. Conclusão: chegámos ao hospital eram quatro horas”, começa por explicar. “Tinha ficado acordado que eu ia entrar para ficar ao lado do pai, não para assistir, para estarmos um ao lado do outro. Um estava a sofrer por um lado e o outro por outro lado. Não me deixaram entrar. O segurança levou-me lá para cima. Estivemos desde as quatro menos tal da manhã até às 4h35 à espera, que foi quando nasceu. Continuámos à espera até às 6h30 para ir ver o bebé. O pai estava lá em cima, a família da Catarina não teve direito a isso”, acusa.

Fátima revela ainda que foi criticada por ir nesse momento ao programa de Cristina Ferreira. Viu o neto apenas 15 dias após o seu nascimento.

“O irmão gémeo da Catarina foi lá vê-lo. Eu não consegui porque ainda era muito recente. Uma coisa muito ligada a outra. Eu tinha que separar uma coisa da outra. Eu não queria estar a pensar na outra parte. Demorei quase 15 dias. Tratei de tudo o que tinha a tratar. Quando vi que realmente já não existia esse fantasma, aí eu fui ver o meu neto. Vi o Salvador, filho da Catarina, sem me lembrar das condições em que aquele bebé foi gerado”, revela.

No entanto, lamenta ter acesso a ver o neto apenas como “visita”. “Para mim essa palavra não cabe, posso ir vê-lo quando quiser, mas eu sou uma pessoa que trabalha. Eu para ir ver o meu neto ao hospital precisava de ser acompanhada pelo pai da criança. Uma avó que passou por todo este processo, que é a referência da mãe, precisa de ser acompanhada pelo pai para estar com o neto?”, questiona.

“Sei que vou ser crucificada. Eu não quero tirar o filho a ninguém. Eu quero é poder estar com o meu neto quando quiser! Eu não quero tribunais, não quero nada. Estamos a falar de um rapaz de 26 anos que se vê às aranhas. Que também deve estar a sofrer porque eles tinham uma ótima relação. Quando a gente sofre também compreende o sofrimento dos outros”, rematou.

ATV News