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A serventia da liberdade

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O Melhor do que Falecer emitido pela TVI na passada sexta-feira, 25 de abril, é provavelmente um dos momentos mais sublimes que vi nos últimos tempos na televisão portuguesa. No dia em que o país comemorava os 40 anos da Revolução dos Cravos, Ricardo Araújo Pereira dedicou o programa ao velho paleio do «antigamente é que era bom». Com a sua poderosa ironia, o humorista dá uma chapada de luva branca no saudosismo do tempo em que «havia respeito». Aquele sketch é bem capaz de ter sido mais eficaz na denúncia do antigo regime que dezenas de debates e reportagens. A escolha da brilhante Maria do Céu Guerra para interpretar a reformada saudosista não podia ser mais certeira.

À semelhança das outras emissões do programa, também este episódio de Melhor do que Falecer não atraiu grandes audiências. Neste caso até é um pouco mais compreensível: sete minutos com uma idosa a falar em tom pausado, ocupada a descascar cenouras (afinal de contas, o papel da mulher no «antigamente»), num tom melancólico pouco comum ao que se espera de uma programa de humor, sem personagens cómicas nem os risos pré-gravados comuns nas sitcom que às vezes se fazem por cá. Ainda assim, e apesar do fraco resultado para os padrões da TVI (20,3% de share), o episódio foi visto por cerca de 950 mil espectadores.

Melhor do que Falecer tem sido criticado por ser parcialmente baseado nos textos da Mixórdia de Temáticas e por os novos sketches serem menos inspirados do que aquilo a que RAP e os Gato Fedorento habituaram o público. Certo é que aqueles cinco minutinhos diários têm mais criatividade, arrojo, inovação e fazem pensar muito mais do que horas e horas de telenovelas. A isso as audiências não têm feito justiça. Estará Melhor do que Falecer no canal errado? Provavelmente. Mas é justo reconhecer a liberdade criativa que a TVI deu a Ricardo Araújo Pereira. Pegando nas palavras da idosa saudosista, o humorista tem tido boa serventia para essa liberdade.

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2 Comentários

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  • A Maria do Céu Guerra é uma actriz fabulosa, já tive a oportunidade de a ver em teatro, e ela é arrebatadora, de prender a atenção até dos mais ensonados (que lá estavam)! Houve uma coisa que reparei, quando ela dizia o seu monólogo, teve o tempo todo a brincar com a cenoura (cortar ás raspas) e só no fim é que começou a cortar as rodelas! Parece algo insignificante, mas é interessante esse facto, é claro que não ía descascar cenouras à toa! O objectivo era cativar os espectadores com o dito monólogo muitíssimo bem interpretado, ninguém iria reparar nesse pormenor. Desculpem esta minha observação, mas eu como sou amante da arte representar, gosto de reparar nestes detalhes.

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