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A Entrevista – Nicolau Breyner

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A Entrevista - Nicolau Breyner

Tem 73 anos, 54 de carreira, é ator e foi um dos principais responsáveis pela produção de ficção em Portugal. Foi há 31 anos que Nicolau Breyner, em parceria com outros vultos do audiovisual nacional, produziu a primeira telenovela portuguesa. Teve a ousadia de se impor e dizer «basta» à invasão da novela brasileira. Já passou por todos os canais nacionais e esteve durante muitos anos ligado à estação pública, onde deu a cara por vários programas de entretenimento e a outras tantas personagens cómicas. A Dupla Sr. Feliz e Sr. Contente, protagonizada por si e Herman José, é dos casos mais marcantes do percurso do humor português. 

Homem de garra e com espírito de jovem, fundou ainda a NBP, que foi responsável por toda a ficção nacional do segundo canal privado português e que atualmente, renomeada de Plural Entertainment, é uma das maiores produtoras a nível ibérico. 

Cara habitual da televisão, revela-se igualmente apaixonado pelo cinema, em detrimento do teatro. Diz ter a necessidade de criar novas coisas e por isso, abriu recentemente as portas de uma nova academia,  a NBA, onde pretende transmitir aos mais jovens os conhecimentos que adquiriu com a sua vasta experiência. 31 anos depois, confessa que o seu sonho estava concretizado: poder ver a ficção portuguesa a competir com a de todo o mundo.

Como é que chegou ao mundo da representação?

Foi mais ou menos por acaso. Eu interessava-me por canto, sempre me interessei muito. Estudei Ópera, na Juventude Musical, com vários professores e tive que convencer a minha família, uma família tradicional, a fazer ópera. Nessa altura, era uma coisa que não muito normal. Eu deveria ter tirado um curso, como toda a minha família, e ser advogado, por exemplo. Quando eles (família) perceberam que a minha decisão estava tomada, o meu pai disse-me «então faça um curso de teatro, que é um complemento da Ópera» e eu fui para o Conservatório (Nacional). Passados uns tempos, acabei por abandonar a Ópera e o curso de Direito e fiz-me ator assim.

Mas quando foi para o Conservatório já ia com algum gosto pela representação?

Claro que sempre tive, mas ia como complemento da Ópera. A minha intenção não era ser ator, era estudar representação para a pôr em prática na Ópera. Depois começaram a surgir propostas e eu também tinha 20 anos… e a Ópera é como uma espécie de atletismo de alta competição.

Esse sonho já desapareceu (Ópera)?

Sim, completamente. Como lhes digo, é como atletismo de alta competição: você não pode deitar-se tarde, não pode beber, não pode comer certas coisas, não pode apanhar sol… Não pode, não pode, não pode. Ou então não vale a pena. Eu tinha 20 anos, gostava de viver, gostava de beber copos, gostava de andar com meninas e essas coisas todas. Depois acabei por apaixonar-me pela representação e ainda bem que assim foi.

Como é que chegou à Televisão?

Cheguei quando a televisão apareceu. Eu comecei no Conservatório, mas sempre disse que o meu fascínio era o cinema, porque não havia televisão em Portugal. Quando surge a televisão, apaixonei-me por ela e acho que ela por mim. Por isso, estive 20 anos sem fazer teatro. Voltei a fazê-lo há 10 anos. Fiz duas peças. Eu nunca planeei muito a minha vida. Não sei se é bom ou mau, mas deixo-a fluir. Acho que nós não mandamos na vida, é ela que manda em nós. Claro que tenho tido na minha vida objetivos, mas do género «ai amanhã vou fazer uma peça e depois um filme» não.

2 A Entrevista - Nicolau Breyner

Há 31 anos foi um dos principais responsáveis pela novela portuguesa. O que é que o levou a querer produzir novelas em Portugal numa altura em que a nossa televisão estava submetida à ficção brasileira da Globo e da Record?

Foi exatamente o que você está a dizer: A nossa televisão estava submetida à Globo e à Record. Um dia achei que era demais e perguntei-me: «nós temos que levar com tudo o que o Brasil tem?», que é muito bom, agora nós também sabemos fazer. Na altura, toda a gente me disse que não, mas depois houve um grupo de loucos, e  aí tenho que agradecer a um homem chamado Daniel Sousa de Carvalho e à diretora de programas da RTP na altura, que acreditaram em mim quando eu disse que queria fazer uma novela, em vez de fazerem como todos ao dizerem-me que isso era utópico. Eu, o Thilo Krassman, o Francisco Nicholson, António Moniz, Vítor Mamede e muitos outros fomos o núcleo duro de tudo isto. Contra tudo e contra todos, quando se dizia que ia ser um «flop», não o foi e trinta e tal anos depois ganhámos um Emmy.

1 A Entrevista - Nicolau Breyner

Quais foram as principais dificuldades que encontrou quando começou a fazer novela?

Todas. Nós não sabíamos nada, éramos um bando de malucos que queríamos fazer uma novela. Durante o Eu Show Nico fizemos uma novela de comédia toda falada em «brasileirês», em que gozávamos os brasileiros. Foi aí que experimentámos as coisas. Foi algo puramente empírico: víamos e tentávamos adaptar às nossas situações e à  falta de meios.

Não haviam técnicos formados, os atores não estavam habituados ao registo da televisão… Foi precisa muita força de vontade.

Quando fizemos a primeira novela comecei a procurar atores. Começámos a fazer castings, numa garagem em Algés. Recrutámos algumas pessoas, como o Nuno Homem de Sá, o Luís Esparteiro e mais uns quantos que agora andam por aí. Depois comecei com a malta nova a fazer uma coisa que em Portugal não se fazia, que era o workshop. Foi durante 4 meses, todos os dias das 10h às 18h.

Mais tarde cria a NBP, atual Plural, que foi responsável por quase todas as novelas portuguesas. Acha que os seus objetivos foram concretizados?

Foram. Da NBP nasce a Plural. Acho que a génese começa com a EDIPIM e depois a NBP deu-lhe continuidade.

10 A Entrevista - Nicolau Breyner

Acha que a aposta contínua das estações na novela gastou o formato? As audiências que tínhamos há uns anos atrás não são as mesmas de hoje…

Isso é normal… O cabo absolve muitos espectadores. Há a possibilidade de se gravar um programa e ver mais tarde… Existem diversos fatores. Eu não acredito que o consumo tenha diminuído. Acredito que se disseminou. Apesar de de vez em quando se registar um pico de audiência com um reality show, que funciona sempre, porque o voyeurismo das pessoas assim o determina, a novela continua a ser o parto forte dos nossos canais.

Acha que um dia os nossos canais vão deixar de apostar na novela para o fazer com séries, por exemplo?

Eu gostava muito que isso acontecesse, porque eu gosto mais de série do que de novela. Mas a novela é o que é mais rentável em televisão. Não sei se Portugal tem capacidade a nível económico para o fazer.

4 A Entrevista - Nicolau Breyner

Nós somos o único país a nível europeu que emite novelas em Horário Nobre…

Não acho que isso seja mau. Os atores e os técnicos portugueses vivem fundamentalmente da novela e o que é facto é que os nossos trabalhadores estão empregados. Num momento de crise isso é fundamental. Se me perguntarem se a novela é o meu sonho, eu respondo que não. Criei-a e tenho o maior respeito por ela, essencialmente pelo mercado enorme que existe em volta dela, mas se me derem à escolha entre uma novela ou uma série, eu prefiro a série.

Há também muito preconceito com a novela.

Claro que há! Mas há uma coisa que eu acho muita graça, que é aquela frase «sabe que eu não vejo novela, mas naquela cena ontem…» e eu pergunto «mas você vê novela, ou não?» e a pessoa responde «ah, por acaso vi». É sempre por acaso…

Acha que o orçamento de uma novela por cá influencia a qualidade? No Brasil o orçamento de uma novela é muito superior ao português…

Sabe mais ou menos a diferença? É cerca de quatro vezes menos.

Cerca de 80 mil € por episódio?

(Gargalhada) Quem me dera! É muito menos que isso.

Acha que o regresso de José Eduardo Moniz à TVI vai ser benéfico para a estação?

Eu acho que o José Eduardo é das pessoas que mais sabe de televisão em Portugal, portanto vai ser com certeza uma mais valia para a TVI e também para as outras estações, que vão ter de aumentar a sua qualidade.

A SIC percebeu finalmente que a estratégia da TVI em apostar na ficção nacional é uma estratégia vencedora.

Sim, porque realmente quem começa é a TVI.

A RTP também já o tinha feito.

A RTP comete uma burrice total, que foi acabar com as novelas. «Agora vamos comprar, porque é mais barato». Disseram isto na minha cara.

3 A Entrevista - Nicolau Breyner

Mas não acha que deveria ser a RTP, enquanto estação pública, a investir mais na nossa ficção?

Deveria ser. A RTP deveria ter tomado as rédeas da ficção nacional. Houve vezes em que o fez e outras em que o não fez.

O que é que a NBA vem trazer de novo ao mercado da representação?

Eu não quero dizer que venho trazer algo de novo. Só há duas maneiras de representar: bem e mal. Esta academia tem uma vertente só dedicada à televisão e cinema. Todos os alunos que aqui chegam, passada uma semana estão em contacto com câmaras, para perceberem o que é o contacto com elas e o que se pode e não fazer. Sobretudo, aqui vai trabalhar-se muito com a vertente prática e não tanto com a teórica. Esta escola vai dar aos atores as ferramentas para trabalhar nesta coisa que é fascinante e terrível: a televisão.

Sabe-se que há a intenção criar parcerias entre a NBA e outras escolas.

Sim. Há escolas muito boas no nosso país e não é que estejam mal, mas eu sou assim: tenho a necessidade de criar coisas novas.

Para além da representação, esta academia vai ter também formação noutras áreas. Fale-nos um pouco disso.

Vão haver cursos de apresentador, dobragens, e também alguns módulos de inglês e francês. Não os vamos ensinar a falar a língua, mas sim ajudá-los a representar nesse idioma, porque quando se representa noutra língua, temos que estar a pensar nela e não em português.

Porquê apostar também noutras áreas?

Sou renascentista, tenho a necessidade de fazer várias coisas.

Como é que vai funcionar a academia?

Vamos certificar o curso, mas por enquanto o que vamos fazer são workshops. Temos uns de duas semanas e outros de quatro.

5 A Entrevista - Nicolau Breyner

A Academia vai também dar oportunidade aos atores que quiserem aprofundar os seus conhecimentos de o fazer. É verdade?

Em Portugal há muito o hábito de os jovens atores não se reciclarem e aprenderem mais. Todos nós temos que aprender mais. Um ator profissional pode reciclar-se. Porque não? Mas são capazes de ir para outro país qualquer. Se me disserem que vão para os EUA ou para o Reino Unido eu digo «sim senhor, tudo bem». Agora que vão para o Brasil ou para outro país qualquer…

Agora há muito o hábito de se ir para o Brasil.

É e até se criou uma lenda de que a Globo tem uma escola. No Brasil existem várias academias, mas são atores como nós: uns melhores e outros piores.

6 A Entrevista - Nicolau Breyner

O que é mais importante num ator: talento ou formação?

Sem talento não há ator, mas a formação é totalmente necessária.

Mas não se pode ser ator sem formação?

Pode. Você nasce ator, tal como nasce pintor ou jogador de futebol.

Não basta fazer-se uma formação para se ser ator?

Não, caso contrário todos os jogadores eram como o Ronaldo e ganhavam todos, mas ele é o melhor (ele e outros), porque nasceu assim, com um dom natural.

Ultimamente temos assistido a uma vaga de novos atores que se têm descoberto em séries e novelas, muitos deles sem formação e que por isso se sentem discriminados. O que é que pensa disto?

Eu sou completamente contra os preconceitos. Não tenho preconceito por nada. Fui o primeiro ator mais velho a aceitar fazer os Morangos, mesmo quando me perguntavam «mas como é que tu vais fazer isso?». Fiz, tenho muito orgulho e aprendei muito com as pessoas, mas aconselho-as a fazerem formação.

Concordou com o fim dos Morangos com Açúcar?

Não, acho que foi um disparate. Nós em Portugal temos muito o hábito de acabar com as coisas, é uma coisa espantosa. Os Morangos continuavam a ter audiência, não tinham era tanta.

Há diferenças entre uma produção de fim de tarde, como os Morangos, e uma novela de Horário Nobre?

Não, são novelas.

7 A Entrevista - Nicolau Breyner

Disse recentemente que o Henrique não era um papel desafiante. O que é um papel desafiante?

Este papel é um bom papel. Calcule que estava a fazer um travesti ou um psicopata. Pode até nem ser mais difícil, mas é mais desafiante. Como já fiz quase tudo, é difícil encontrar um papel desafiante. Já fiz travestis em comédia, mas em novela nunca. Adorava fazê-lo.

Que opinião tem acerca da Sara Matos?

É uma excelente atriz. Tem muito talento.

O papel que fez em Equador foi desafiante?

Foi muito desafiante. Deu-me imenso prazer fazer esse papel.

9 A Entrevista - Nicolau Breyner

O facto de o Brasil, que é o maior produtor de novelas a nível mundial, ter mostrado interesse numa série nossa (Equador) e tê-la emitido vêm reforçar a qualidade da nossa ficção…

Não foi por acaso que ganhámos um Emmy. Da nossa qualidade eu não tenho dúvidas. O que pode acontecer é o investimento não ser muito, mas nós somos 10 milhões de habitantes. Com o orçamento que nós temos, fazemos o melhor que o mundo pode fazer, isso posso garantir-vos.

8 A Entrevista - Nicolau Breyner

O que é que se sente quando se ganha um Emmy pela primeira vez?

Sente-se orgulho por ter participado. Senti orgulho em saber que o meu sonho de há 30 anos estava realizado: podermos competir na ficção com o mundo todo.

Acha que o facto da TVI voltar a apostar em adaptações de guiões estrangeiros é um retrocesso para a ficção nacional?

Não acho que seja um retrocesso. É uma procura de novas fórmulas.

Não acha que temos uma crise de criatividade?

Eu acho que não. Há, com certeza, muitos criativos que ainda estão por descobrir.

Há pouco falámos sobre o voyeurismo das pessoas. O que é que o Nicolau acha do género reality show?

As pessoas gostam e por isso há reality shows. Eu não vejo, mas isso é um problema meu. Não acho graça, tal como não acho a muitas outras coisas que se fazem em televisão.

Mas tem algo contra?

Eu não tenho nada contra nada. Não sou preconceituoso com nada e neste momento há grandes profissionais a trabalhar em reality shows, como a Teresa Guilherme.

 Pode saber mais detalhes acerca da NB Academia no seu site oficial, em www.nbacademia.pt

Agradecimentos:

NB Academia

Nicolau Breyner

Contacto: marcio.ferreira@atelevisao.com

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