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A Entrevista

A Entrevista – Mateus Solano

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Durante quase dez meses, Mateus Solano reinou firme no horário nobre, ao representar o maquiavélico Félix em Amor à Vida. Cruel e sem escrúpulos, o personagem tinha todos os elementos para ser odiado pelo público. Mas Mateus, com uma interpretação única, conseguiu o efeito contrário e fez o vilão ser amado pelos brasileiros. As suas expressões politicamente incorretas caíram no gosto popular, e o personagem saltou para as páginas do Facebook, com milhões de likes. O ator acredita que o papel, de alguma forma, serviu para discutir os preconceitos da sociedade, principalmente em relação aos homossexuais.

1 A Entrevista - Mateus Solano

Em Amor à Vida fez história na dramaturgia ao dar o primeiro beijo gay numa novela brasileira. O que representou essa cena e como se preparou para ela?

Essa cena foi uma novidade, quer dizer, não estava no roteiro no início da novela. O que levou à cena foi o que me deixou mais emocionado e satisfeito. E o que levou à cena foi uma paixão (um caso de amor) do povo brasileiro com o personagem, que fez em primeiro lugar o Walcyr ter que redimir o vilão. Essa paixão do público com o personagem fez o Félix precisar de um parceiro, e aí acontece a história entre ele e o Nico. E essa paixão do público brasileiro, pelo personagem, fez também com que o público exigisse a coroação dessa relação entre esses dois personagens. A coroação de uma relação numa novela é um beijo. Então, esse foi o caminho percorrido até chegar ao beijo.

E o caminho é sempre muito mais bonito do que o resultado.

Sem dúvida, o caminho é muito mais bonito do que o resultado. Claro que o resultado é muito importante, mas o porquê dele eu acho que é o fundamental. Realmente, é através do trabalho dos profissionais da novela… O público realmente pensou sobre si, sobre seus preconceitos, e isso eu acho o mais poderoso, o mais bacana. O que isso vai representar ainda é um mistério, e a gente só pode falar do que está acontecendo.

Você passa para o público a sensação de que adora viver papéis que representam a quebra de paradigmas. É isso mesmo?

Como ator, ou artista, a minha satisfação maior é justamente o que aconteceu com o Félix. É o público, através do personagem, pensar sobre si, se colocar naquele lugar, rever seus conceitos e preconceitos. Mas eu acho que isso é possível com qualquer personagem, não é só com o personagem principal. Você pode fazer um personagem, e o quanto mais humano você fizer, eu acho que mais você se aproxima das pessoas. E quanto mais você se aproxima das pessoas, mais as pessoas se identificam e tentam se misturar com aquilo que eles estão assistindo.

A que se deveu o sucesso do Félix?

Primeiro, ele foi escrito para ser um sucesso, para ser muito engraçado. O Walcyr fez uma feijoada, pegou um pedaço de cada coisa e botou tudo na panela. Aliás, quem fez a feijoada com os pedaços que o Walcyr botou fomos nós (os atores e a direção). Então, o Félix não era só um vilão, ele era um cara muito engraçado, sarcástico e que acabou caindo muito nas graças do público, porque hoje é feio você ser mau, é feio você ser perverso… Sabe, a onda do politicamente incorreto está muito forte também. E o Félix vestiu a carapuça de todo o mundo, nessa questão da perversidade. Então, ele continua existindo nas redes sociais. Mas para te resumir, o Félix era uma grande responsabilidade, porque ele foi escrito para fazer sucesso, para ser amado também, não só odiado.

No meio do hospital, com uma pessoa a morrer, ele manda uma piada. Isso pegou o público, de não levar tudo tão a sério?

Eu não sei se foi exatamente isso que conquistou o público. Mas, sem dúvida, quando o público aceita o Félix, ele pode aceitar muitas outras coisas também na novela, entende? O Félix era um pilar, assim, do tom da novela, e a gente pode e não pode acreditar nesse tom. Então, pode parecer realmente inacreditável que um presidente de um hospital chame a sua secretária de «cadela». Mas, se o público gosta do personagem (está comprando o personagem)… ok, então esse personagem chama a secretária de «cadela» e está tudo bem, ele não vai ser processado imediatamente. Quer dizer, ele editava muito o tom de realidade da novela. Então, isso fez com que o público não levasse tudo tão a sério.

É gratificante, para o ator, ver que as pessoas torceram por um vilão ou é preocupante?

Isso é muito interessante. E fala muito também do público. Fala também de um Brasil que esquece as maldades que são feitas. As pessoas me dizem «Ah, eu gosto do Félix», e aí alguém responde «E se ele deixasse uma filha sua na cassamba, no meio do lixo?». E aí a pessoa diz «Ih… Eu tinha esquecido disso». Quer dizer, esquecem-se também. Existe esse lado, e por um lado é muito legal, porque é aquilo que eu já te falei (de ser uma válvula de escape para o vilão, que existe em todos nós). Mas por outro lado mostra uma sociedade que esquece. Esquece e volta de novo, digamos assim.

Como é que este personagem mudou a sua forma de ver a vida?

Olha, de alguma forma, todo o meu trabalho, todos os personagens me influem. Mas eu não saberia dizer até que ponto, nem exatamente o que é que o Félix mudou em mim, como pessoa. Mas, sem dúvida, os personagens têm esse lugar.

O seu corpo ainda está regulado pelo personagem ou você já se livrou dele?

Na minha vida? Ah, não. Isso nunca aconteceu. Eu tenho o meu jeito. Tenho coisas que já são minhas e que emprestei para o Félix, e outras coisas que eu construí para o Félix, corporalmente. E era muito divertido brincar com isso, mas dentro do estúdio. Fora do estúdio, isso nunca aconteceu. Se em algum momento eu der uma pinta, essa pinta é do Mateus (não é do Félix).

Agora deve ser complicado encontrar um personagem que «bata» o Félix.

É justamente o que as pessoas diziam depois dos gémeos Miguel e Jorge (que depois de fazer gémeos em Viver a Vida, já não teria outro personagem, que eu ficaria estigmatizado). E agora veio o Félix, quer dizer… Ser ator é justamente isso, é fazer vários personagens. Então, eu espero que continuem confiando a mim personagens sempre diferentes e que desafiam.

Amor à Vida é a novela mais longa dos últimos dez anos da TV Globo. Não acha que o prolongamento cansa o telespectador?

Ai, eu acho que sim. Eu acho que a tendência da novela é encurtar, até porque a tendência da nossa paciência também é encurtar. Com esse mundo tão tecnológico, tão linkado (em que uma coisa leva à outra e leva à outra)… Bom, se o telespectador não gosta, ele muda de canal e pára de assistir. Então, realmente, continuar a fazer novela é uma coisa muito arriscada e se apoia muito na qualidade. Mas, sem dúvida, a tendência delas é diminuir. E você tem toda a razão, Amor à Vida foi a maior novela em dez anos na Globo (acho que antes dela foi O Clone). E não é só cansativo para quem assiste, mas principalmente para quem faz. Então, acho que é uma tendência de diminuir.

A imprensa noticiou que João Emanuel Carneiro, autor de Avenida Brasil, pretende reunir Mateus Solano e Adriana Esteves numa novela para 2015. Confirma esta notícia?

Não, não confirmo. Isso aí foi um boato, jogaram para cima. Pulverizou, e as pessoas estão falando sobre isso, mas a verdade (verdade) é que não houve nenhum contacto da parte da Globo para nenhum trabalho para o ano que vem, até agora.

6 A Entrevista - Mateus Solano

O Mateus e a Adriana interpretaram os vilões de maior sucesso na dramaturgia nos últimos anos. Seria uma «bomba» juntar vocês os dois?

Ah, sem dúvida. Mas é assim, uma coisa é a paixão das pessoas (a paixão pelo personagem), tanto que as pessoas ainda me chamam de Félix e tal, porque é o Félix, são as características do Félix. E a paixão do Brasil pela Carminha era pela personagem também. A Adriana é um doce [risos]. E então, para juntar Carminha e Félix, aí teria que ser uma novela com dois autores (João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco), porque o personagem Félix é do Walcyr Carrasco e o mesmo acontece com o João Emanuel Carneiro e a Carminha. Então, é um pouco fantasioso, é um pouco de saudosismo, as pessoas quererem juntar os dois. Eu entendo que essa notícia corre, e as pessoas continuem falando, mas convite mesmo não houve. Claro que seria divertido ter o Félix e a Carminha juntos, mas aí teria que ser isso, essa colaboração entre dois autores.

Entretanto, está em cartaz com a peça Do Tamanho do Mundo e vai estrear em breve o espetáculo Selfie.

O projeto Do Tamanho do Mundo é um projeto que eu tenho muito orgulho, porque é a minha primeira realização teatral. Eu chamei todo o mundo para trabalhar comigo, inclusive a minha mulher. A gente fez temporada no ano passado, no Rio, e fez temporada este ano, em São Paulo. E estamos viajando com a peça. Termina as viagens nesse próximo fim de semana e eu estou ensaiando a próxima peça, que é Selfie, discutindo um pouco essa nossa relação tão exacerbada através da tecnologia (especificamente através do celular). Eu e Miguel Thiré temos um espetáculo de comédia corporal, que estreia no fim do ano, aqui no Rio, com direção do Marcos Caruso.

Também está nos cinemas com O Menino no Espelho

O Menino no Espelho é um filme que também me deu muito orgulho fazer, porque o filme fala e faz uma grande homenagem, na minha opinião, à infância. Eu tenho muito respeito pela criança, mas também a infância é um combustível, assim, do meu trabalho, até hoje. E então, foi para mim um trabalho muito importante de fazer e que eu estou torcendo para que fique muito tempo nos cinemas, porque é um bonito trabalho e porque infelizmente a gente assiste a uma concorrência muito desleal, com o cinema americano.

E temos novo embaixador da Boa Vontade do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, a UNAIDS. Qual é a sua missão aqui?

A minha missão neste projeto, do qual eu me orgulho imensamente, é usar as questões que eu acabei citando através do personagem do Félix, numa luta contra a discriminação, o preconceito, e a favor da informação no assunto da AIDS. Hoje em dia, não se é mais necessário morrer de AIDS, mas as pessoas morrem de AIDS por falta de informação, por preconceito e discriminação. Existem muitos, muitos países que criminalizam a relação homossexual e isso deixa o homossexual, que tem todo o direito de ter a sua vida e os seus direitos, escondido e privado de informação e de acesso a remédios, caso ele contraia o vírus. Ao mesmo tempo, você tem muito preconceito na parte heterossexual. Então, você acaba por ter pessoas que se escondem, que se colocam à parte da solução do problema. E para mim é um grande orgulho ter sido nomeado embaixador dessa causa, que envolve tudo isso que eu te falei. Então, a minha função é realmente prestar aí a imagem e estar em eventos que discutam essas questões.

Que lição de superação a sua trajetória pode trazer para profissionais, seja nas artes cénicas ou não, que começam a construir suas carreiras?

Olha, é preciso ter muita sorte, estar no lugar certo e na hora certa. Mas ao mesmo tempo eu gosto muito do que eu faço, e eu faço com muito amor, com muita entrega. E eu tive a felicidade de as pessoas assistirem a isso e de me irem chamando de um trabalho para outro. E eu ia aceitando, e ia fazendo. Então, quer dizer, eu não sei falar em história de superação, porque eu nunca passei fome ou coisa parecida, nunca perdi pai nem mãe. A minha trajetória é uma trajetória, de alguma forma, comum. O que eu poderia dizer é isso: tentar fazer o que gosta, com o pé no chão. Mas eu dependi muito também de muito apoio (apoio da minha família). Eu fiquei muito tempo sem ganhar dinheiro na minha profissão, pagando para fazer peça, inclusive. Então, eu acho que talvez, se a minha experiência possa ensinar alguma coisa, é para as famílias, que por ventura tiverem alguém que quer a carreira artística ou alguma carreira que não seja segura. Apoiem, dêem apoio! Porque essa pessoa pode, se ela realmente se dedicar ao que ela gosta, pode ser uma grande profissional, acabando por trazer muitas alegrias para si e para a sua família.

Já teve tempo para parar e refletir a grandeza do que acontecido na sua vida?

Olha, eu venho pensando e dizendo… [pausa] Sabe, eu acho que boa parte do que eu conquistei foi justamente por viver a vida, e não refletir mais do que viver. Eu não sei, não sei. Mas eu penso sim, penso o quanto sou afortunado e ao mesmo tempo o quanto eu fiz por merecer, porque eu trabalhei muito, muito (nessa novela especificamente e noutras novelas da Globo). E fiz com muito amor. Eu acho que o que eu vou aprendendo e reaprendendo é a fazer tudo com muito amor mesmo.

Sente que há pessoas que lhe querem mal por causa do sucesso que alcançou?

Eu acho que quando deteto alguma coisa parecida, já saí logo. E eu sou muito, ou tento pelo menos ser o mais generoso e carinhoso possível com todo o mundo que trabalha comigo. Eu gosto muito do que eu faço, e faço com muito carinho. Então, eu não sinto que as pessoas me queiram mal por causa do sucesso que eu alcançei. E nem me exploram ou coisa parecida. Há sim, é claro, gente que vive de fofoca, que tenta plantar alguma notícia, mas eu acho que o segredo é não botar mais lenha na fogueira. Vou ficar quietinho, e tentar seguir com a minha vida, fazendo as coisas que eu gosto, com amor.

Você é muito querido em Portugal. Como é receber o carinho de um público tão distante e, ao mesmo tempo, fiel, que o acompanha diariamente?

É um barato! Eu tive essa experiência quando eu fui aí por causa de Gabriela. E eu estava com três novelas diferentes: estava como gémeos em Viver a Vida, tinha lá o Morde & Assopra (mais o Ícaro) e tinha lá a Gabriela. Estava com quatro personagens aparecendo lá. Então, eu era mesmo popular. Eu fui até convidado a conhecer a cozinha dos pastéis de Belém, quer dizer… Não foi pouca coisa, não. E isso me deixa muito feliz, porque Portugal tem um significado grande para mim. Eu morei em Portugal, o meu pai já morou algumas vezes, já visitei Portugal depois e tenho grandes amigos aí (o André e a Mafalda) e gosto imenso de Portugal. Por outro lado, é uma pena eu não puder andar mais anónimo e fazer passeios no anonimato, que eu tenho fora do meu país. Mas o saldo é muito, muito positivo.

E como é estar numa praia, por exemplo, com a sua família e estar a ser fotografado?

Vou menos, vou bem menos… Esse é um grande revés da visibilidade. A gente falou até agora de muitas vantagens e de muita alegria, assim, na minha vida, por todo esse reconhecimento na televisão. Mas há o revés também, que é essa exposição, que é eu ser sempre reconhecido e eu não puder ser mais espectador da vida, porque todo o mundo quando me vê já está me assistindo. Como ator também, não é uma coisa saudável, mas vou lidando com isso. Saio menos de casa, vou menos a lugares como a praia… Vou arranjando outros planos.

Os jornalistas fazem quase sempre as mesmas perguntas. Não é chato ter que responder à mesma questão várias vezes?

É…

Qual foi a pergunta que nunca lhe fizeram?

A pergunta que nunca me fizeram? Olha, essa é difícil [risos]! Qual foi a pergunta que nunca me fizeram… Nossa, tenho de pensar melhor nessa aí, porque me fizeram muitas perguntas, claro, muitas repetidas. Mas você, por exemplo, sempre tem uma pergunta diferente e querendo puxar para um lado e para o outro. E você falou de tudo o que eu fiz e o que eu estou para fazer, quer dizer… As perguntas que você não me fez é porque não tinha que fazer mesmo, que é coisas da vida pessoal ou assim.

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