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Duarte Gomes examina a ficção em Portugal: “Está bem e recomenda-se”

Desde muito novo percebeu que o ensino comum não era para si. Arriscou entrar no universo da ficção e nunca mais de lá saiu. Duarte Gomes é um dos jovens atores mais bem sucedidos no nosso país e, em entrevista ao A Televisão, garante que nunca a ficção portuguesa esteve tão bem. No entanto, deixa o alerta para a necessidade de fazer regressar o público juvenil.

A Televisão – O público português está habituado a ver o Duarte como ator de séries e novelas. Mas quem é o Duarte quando as câmaras não estão ligadas? O que mais gosta de fazer?
Sou muito ligado à minha família e amigos, quando não estou a trabalhar tento sempre aproveitar o máximo de tempo com eles, eles são a minha base, a minha essência. Outra das coisas que mais gosto de fazer é a viajar. E viajar tem sido de facto uma prioridade, é incrível como faz bem a tudo, em primeiro como dizem os meus avós; “faz bem à alma, ao corpo e à mente”, aquele clássico que nunca sai de moda, mas a verdade é que também serve de pesquisa para novos personagens.

No entanto a representação está bem presente na sua vida. Como é que surgiu este desejo de fazer ficção?
Eu já tinha interesse em experimentar esta área desde muito novo, mas surge de uma forma precoce, porque foi aos 14 anos que tomei a decisão de fazer provas de acesso para uma escola de teatro, e isto acontece tão cedo porque, para além de o desejo de experimentar representar, estava também descontente com a escolaridade dita “normal”, um mal de muitos jovens.
Então juntamente com a minha mãe procuramos encontrar uma solução boa para mim, onde me sentisse feliz e motivado e é aí que entra a Escola profissional de artes e ofícios do Chapito. Um curso de 3 anos que me deu as ferramentas que uso ainda hoje, mas que também me fez apaixonar por esta profissão. Posso dizer que foi apenas aí que eu decidi seguir a carreira de actor.

“Tenho que te agradecer por a minha filha comer tão bem de manhã”

Uma das primeiras aparições do Duarte, em televisão, dá-se, no entanto, numa série infantil chamada Pistas da Blue. Ainda hoje há quem brinque consigo por causa desta personagem caricata? Qual a situação mais divertida que viveu às custas desta série?
Posso dizer que vai sendo cada vez mais raro alguém ainda fazer essa ponte temporal, mas ainda acontece e ainda bem. Eu ainda me lembro por exemplo da Alexandra Lencastre na Rua Sésamo. Marcou uma geração.
Há uma que conto sempre: eu estava a fazer uma sessão de autógrafos por causa dessa mesma série, quando uma mãe vem ter comigo, dá-me um leve abraço e agradece-me. Afasta-se um pouco e diz-me: “tenho que te agradecer por a minha filha comer tão bem de manhã, ela fica tão colada ao ecrã que eu nem preciso de inventar mil e um jogos para que coma”.

Embora já desse cartas no mundo da representação e televisão, o projeto que o deu a conhecer mais ao público português foi a série Morangos com Açúcar. Que recordações tem do seu Tomás?
Esta é uma série que nos vai marcar a todos, foi uma aprendizagem para no mínimo 3 gerações de actores, todos os que passamos por lá temos memórias muito boas desses tempos. Crescemos juntos, éramos todos praticamente da mesma idade e na sua maioria, tínhamos os mesmos objectivos, havia uma boa vibe contagiante. Quanto ao meu Tomás foi um desafio interessante na altura, lembro-me de ser muito distante do que eu era e sou (risos).

Já que estamos a falar de Morangos com Açúcar e visto que o Duarte começou a sua carreira muito ligado ao público infanto-juvenil, acha que faz falta na televisão nacional um produto voltado para os mais novos? Porquê?
Faz sempre falta produtos que acrescentem. Estes produtos servem também para educar, para nos informar, para nos fazer pensar. Sem eles os jovens voltam-se muito para a internet e aí é muito mais complicado controlar o que consomem. Existe de tudo e sem filtros. Há muita coisa que não é interessante e outras que não são indicadas para jovens. Pode-se tornar um pouco assustador para quem tem filhos pequenos.

“Houve muitas pessoas que se identificaram com aquelas histórias e que com elas ganharam mais força”

Na sua já longa carreira conta com várias novelas e imensas personagens realizadas. Entre elas duas que, pelo mesmo motivo, deram que falar em Portugal. Falo do Miguel na novela O Beijo do Escorpião, e do David em Os Nossos Dias. Ambos eram personagens que, ao longo da trama, foram descobrindo uma orientação sexual diferente da que inicialmente julgavam ter. Quando percebeu o papel que tinha em mãos tomou logo consciência de que havia uma mensagem importante a passar ao espetador? Como foi esta experiência?
Sabia sim. E por isso estes plots foram tratados com um maior cuidado, para que a mensagem chegasse a toda a gente. Já foi um tema mais tabu, ainda bem que já não o é, é bom sinal! Mas foram dois desafios que nunca irei esquecer, por tudo o que envolveu. E felizmente pelo feedback que recebemos a mensagem chegou da melhor forma e houve muitas pessoas que se identificaram com aquelas histórias e que com elas ganharam mais força. E isso foi o mais gratificante.

Em 2016 protagonizou a série Massa Fresca dando vida ao famoso tio Francisco. Desta vez, ao contrário do que aconteceu em Morangos com Açúcar, esteve do lado dos adultos. Como é que foi trabalhar com crianças e jovens a dar os primeiros passos neste universo da ficção?
Eu adorei este projecto, não vou mentir, tem um lugar especial no meu coração. Gostei de tudo nele, o desafio pessoal, a história de superação familiar, o elenco… Tudo.
Talvez tenha sido mais eu a aprender com eles, a genuinidade deles era maravilhosa. Foi incrível a partilha diária com eles e bom ver que muitos deles continuam a trabalhar na área. Serei para sempre o tio deles. E eles sabem disso.

No jogo das cadeiras televisivas o Duarte tem andado a fugir a um padrão habitual. Tanto o vemos na RTP1, como na SIC ou na TVI. Acha que isto pode ser uma vantagem, ou uma ligação a um canal seria mais vantajoso para um ator?
Depende, cada caso é um caso, não há uma fórmula mais correcta que outra. No meu caso eu guio-me pelos projectos, e consequentemente pelos desafios pessoais. E isso pode acontecer num só canal, como em todos. Nós trabalhamos para o público e esse está em todo o lado.

“Para mim já não há ‘o que se faz lá fora é que é bom'”

O Duarte participou em Vidas Opostas, que foi nomeada para Emmy Internacional, e Golpe de Sorte. No fundo dois projetos de ficção que elevaram o nome da SIC nos últimos tempos. Que avaliação consegue fazer da ficção que se faz, atualmente, em Portugal?
A nossa ficção está cada vez melhor, para mim isso não tem discussão, e isso em muito se deve à competição entre canais e eu espero que assim continue, uma competição saudável que só vai elevar a nossa ficção. Para mim já não há “o que se faz lá fora é que é bom”. As nossas histórias e a nossa ficção está bem e recomenda-se. E a prova está aí, com nomeações e com as vendas da nossa ficção para outros países. Nós já fomos quase só importadores, hoje somos também exportadores.

Uma visitinha rápida à caixa de comentários das suas redes sociais é o suficiente para perceber que os fãs se estendem em elogios ao seu talento mas, também, à sua boa forma física. E vamos falar da segunda. É algo com que se preocupa diariamente? Fá-lo porque gosta de se sentir bem consigo próprio ou, também, porque acredita que isso é benéfico para o seu trabalho enquanto ator?
Faço-o por tudo. Eu sempre estive ligado ao desporto e por isso é para mim difícil afastar-me. Eu com 15 anos tinha treinos de ginástica ou de preparação física todos os dias. Hoje já não o consigo fazer tão arduamente (risos) mas tento manter-me sempre activo. Por outro lado, para mim é muito importante para a nossa profissão também, não pela parte estética, mas pela disponibilidade física, eu quero que o meu corpo esteja predisposto para quase tudo.

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