Famosos

Albano Jerónimo foi convidado e depois dispensado

Albano Jerónimo escreveu um longo texto onde explica o que lhe aconteceu no dia 6 de abril. O ator que está atualmente na novela Paixão da SIC, foi convidado por um canal para comentar sobre o orçamento de Estado que o governo deu à Cultura, num jornal das 19h. O problema é que a entrada em direto foi sempre adiada, devido à polémica de Bruno de Carvalho e os jogadores do Sporting.

O ator conta que aguardou no estúdio, sempre a ouvir vários temas a ser falado… até que alguém chegou ao pé e disse-lhe que já não ia entrar em direto, porque não havia tempo para a Cultura. Que o assunto agora era a polémica entre o presidente do Sporting e os jogadores.

Leia o texto publicado por Albano Jerónimo:

IMPORTANTE LER. MESMO.
PARTILHEM PF!

Aconteceu-me ontem, dia 6 de Abril de 2018, 19h.
Ontem, no maior ajuntamento da classe artística que há memória num pós 25 de Abril.

PARADIGMA DA IMPORTÂNCIA QUE OS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO DÃO À CULTURA EM PORTUGAL.

“Mais do que um Ministério da Cultura, é preciso um governo de cultura.”
António Costa 2015

Convidaram-me, e esta seria a frase da minha abertura, para ir comentar a situação dos artistas, da Cultura e da massiva manifestação por todo este Portugal. Iria falar do “novo” modelo de apoio às Artes, da precariedade da profissão, da urgência de um reforço orçamental para a cultura (1%), de que não existe um favor do estado (que fique claro) ao remunerar um Serviço Público à sociedade, e sobretudo que exista de facto uma política cultural séria, construtiva, criativa, perto dos artistas e que possa dar ao público a cultura que merece. Tudo isto, iria acontecer num telejornal de grande visibilidade ou audiência para o dito canal, ontem às 19h. Aceitei, claro.
Queria, e quero, dar a cara numa circunstância tão importante e delicada para todos nós, como tenho dado. Cheguei ao estúdio e fui aguardando pela minha vez de entrar em direto. Assisti a uma parafernália de temas importantes, e de menor importância, nacionais e internacionais. Aguardei, aguardei, até que me vieram dizer que afinal não havia tempo. Que afinal o tema futebol tinha ganho protagonismo e que segundo “ordens de cima” (eras tu, Deus? Ou seria um consciente director de programas? Ou um director de informação emocionado com o Bruno de Carvalho ou com audiências? Ou seria o pensamento de ir atrás dos outros canais nas audiências e ratings da vida televisiva?!!!), tinham esgotado o tempo do noticiário. Já não tinham tempo para a Cultura.
Já não tinham tempo para a Cultura, repito.
O Futebol ganhou à Cultura.
Reclamei, evidentemente. Retaliaram desculpando-se, de novo, com as ordens superiores.
Acontece que perdi a possibilidade de estar presente na manifestação e o direito de expor publicamente a minha revolta e indignação, com os meus colegas de trabalho e luta.
Esta situação é paradigmática no que respeita à importância que dão ao nosso trabalho e às nossas reivindicações – os ditos órgãos de comunicação social. Estes que deveriam dar voz, o exemplo da isenção, da crítica livre e plural, aos que querem e têm o direito de falar; para que nos oiçam.
A situação na Cultura em Portugal é grave, urge o reconhecimento do papel das artes e dos artistas na sociedade portuguesa.
Mesmo que nos queiram ignorar, não nos calaremos perante essa obscenidade.

Por fim, deixo aqui duas perguntas aos directores nestes nossos canais de televisão “independentes” ou não (até rimei), ou aos nossos jornalistas que vão atrás de tudo menos do que de facto interessa para a sociedade onde se inserem:

– É este o futuro que queremos desenhar, criar, inovar e/ou transformar para os nossos filhos?
Sim, sei que têm filhos e que os amam ou não, portanto é fácil, pensem neles.
– Onde está a vossa responsabilidade social, meus senhores?
Assim ficam todos iguais, um horizonte de mediocridade é o que se vê nesta fauna da informação em Portugal.

Hashtag fuckaudiências

(Quase que seria dispensável este “#”, bem sei. Mas, infelizmente, aqui reside o centro da pocilga da comunicação que se diz independente, livre e isenta).
Atrevam-se de facto a ser diferentes.

CULTURA ACIMA DE ZERO, meus senhores!

CULTURA 1%

JÁ!

Atentamente,

Albano Jerónimo

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