A Entrevista Cabo

António Barreira: “Fui pioneiro nos Emmys em Portugal”

© Sérgio Lemos

«Desde os 13 anos que quis ser autor de novelas», contou-nos. Admite que sempre preferiu os bastidores ao estar à frente da câmara e não tem medo de utilizar a palavra «epifania» para descrever o momento em que quis enveredar por este mundo.  Assinou a primeira novela portuguesa vencedora de um Emmy, deu vida a vários projetos na TVI e atualmente assina Alguém Perdeu, o primeiro projeto de ficção produzida para a CMTV.

«Em 1987 passava por cá Vale Tudo, de Gilberto Braga. Foi essa novela que me fez querer ser autor de novelas. Considero-a a melhor novela da Globo até hoje». 

ATV – Sabemos que se formou em Direito. Como é que chegou à Televisão?

António Barreira – Aos 17 anos fiz o meu primeiro projeto para a então NBP e o diretor de produção na altura, que é alguém que já não está entre nós, chamou-me para uma reunião e disse-me «olha, tu ainda és muito novo, precisas de viver, de ganhar experiência de vida, mas tenho a certeza que o teu lugar na TV está reservado». Curiosamente, 10 anos depois, quando eu ganhei o concurso de guionismo lançado pela NBP na busca de novos talentos, foi ele que me entregou o prémio e disse-me «chegou a tua hora».

Em 2005 assume pela primeira vez a chefia de um projeto. Como é que correu esse desafio?

No Dei-te Quase Tudo, quando o Tozé Martinho ficou doente, convidaram-me para assumir o comando da novela. Haviam 55 episódios escritos, eu escrevi até ao 180.

«Ali foi a minha prova de fogo para saber se conseguiria ser ou não autor, estavam-me a testar».

Como é que encarou o desafio de assumir um projeto que já estava iniciado?

Eu assumi o projeto na semana antes da novela estrear e, obviamente, ali quem teria de fazer o esforço de adaptação seria eu. Seria eu que me teria de me adaptar ao estilo de novela que já estava construído. Numa novela não há o ego de ninguém: do autor, dos colaboradores, de ninguém. É em prol de fazer o melhor pelo projeto que nós trabalhamos. O Dei-te Quase Tudo foi um desafio enorme, que demonstrou a nossa capacidade de adaptação ao texto de outro autor. A novela permanece ainda como a novela portuguesa mais vista de sempre. Ali foi a minha prova de fogo para saber se conseguiria ser ou não autor, estavam-me a testar [risos]. Foi um teste pra me lançar para Fascínios, que me deu muitas alegrias.

Já falámos de Tozé Martinho, que está afastado deste mundo há vários anos. Sabendo das dificuldades de trabalhar neste meio, o que alimentou o sonho?

Eu sou um apaixonado pelo que faço. Larguei o Direito e uma posição confortável na direção jurídica de uma empresa ligada a uma instituição bancária para me atirar de cabeça no mundo da escrita em televisão. Se eu não fosse completamente apaixonado por esta profissão, nunca teria corrido esse risco.

Faria tudo de novo?

Ah, faria! Claro que faria, não estou nada arrependido, muito pelo contrário. Faço aquilo que gosto e ainda me pagam para isso. Posso-me considerar um privilegiado. Não acredito que os meus colegas que escrevem novelas não sejam também apaixonados pela profissão porque quem está do outro lado não faz ideia do que é escrever uma novela. Nós escrevemos 50 páginas por dia, que é um episódio, sete dias por semana. Eu costumo dizer que não durmo sozinho, durmo com mais 30 pessoas, que são os personagens que estão dentro da minha cabeça. Os americanos ficam impressionados com a capacidade de trabalho que temos e dizem «epá, vocês fazem, em dois dias o equivalente a um filme».

«Eu acho que alguém ganhou com esta mudança de camisola»

Depois da vitória de um Emmy, da nomeação para outro e de vários projetos numa estação líder, alguém perdeu com esta mudança de camisola? Quem foi?

Não sei se alguém perdeu com esta mudança de camisola. Eu acho que alguém ganhou com esta mudança de camisola. Eu ganhei um grande desafio. Ganhei uma nova família, porque nós funcionamos mesmo como família, temos uma relação que vai muito para além do trabalho. Ganhei o desafio gigante de arrancar com a linha de ficção de um canal que é líder destacado no cabo e eu não tenho dúvidas nenhumas de que se vai afirmar também no entretenimento e na ficção.

Como é que ficou a sua relação com a TVI e com a Plural?

Acho que ficou normal. O contrato estava a chegar ao fim, o mercado é livre. O melhor desafio que nos metem à frente é aquele que seguimos. O namoro com a SP já durava há uma série de anos e eu nunca tinha querido mudar.

O que foi que o fez aceitar desta vez?

Desta vez vinha com um desafio acrescido, que era um bom-bom. O inaugurar uma linha de ficção é ser, uma vez mais, pioneiro. Felizmente fui pioneiro nos Emmys em Portugal e agora estou a sê-lo novamente. Além de ser um desafio, é uma responsabilidade, mas eu não tenho medo deles. [risos]

Depois de vários anos com a TVI e com a Plural, sentiu algumas diferenças na forma de trabalhar mantida pela SP?

A verdade é que nós começámos todos a trabalhar ao mesmo tempo. Tanto eu quanto o Pedro Lopes, a Inês Gomes, a Sandra Santos, que são os principais nomes da SP, começámos todos no mesmo projeto, na mesma equipa de escrita no, Saber Amar. Foi um reencontrar de velhos amigos e de pessoas com quem gosto muito de trabalhar. A maneira de trabalhar não é muito diferente porque as exigências de produção são as mesmas. Quanto à liberdade criativa, isso varia de canal para canal e ultrapassa quer a Plural, quer a SP. Felizmente, a CMTV dá-nos toda a liberdade criativa.

Imagem – Pedro Catarino

Criar uma história para a TVI é diferente de criar uma novela para a CMTV?

É diferente no sentido do que se pretende com esta novela em concreto – Alguém Perdeu. Pretendia-se criar uma história que tivesse a ver com o ADN do canal e que fosse muito realista, que girasse em torno de situações do dia a dia, que podem acontecer a qualquer pessoa. As notícias servem-nos de fonte de inspiração. A CMTV está muito próxima das pessoas no sentido em que vai aos recantos mais recônditos de Portugal e expõem os problemas das pessoas. Os canais generalistas não têm esta disponibilidade para chegar tão próximo das pessoas. Importa não esquecer que a Cofina é dona do jornal líder em Portugal. Sozinho é mais lido que toda a outra imprensa em papel. O nosso objetivo é também abanar um bocadinho as consciências, sem sermos moralistas, porque nem eu nem ninguém da minha equipa é santo.

Porquê Alguém Perdeu? Quer explicar-nos o nome desta novela?

O título da novela, em primeiro lugar, tem a ver com a música para tema de genérico, mas tem a ver também com a própria vida porque quando alguém ganha, há também alguém que perde. Aqui há uma família que perde a sua estrutura com a morte de uma criança. Agora, quem é que realmente, no meio daquela família, é o verdadeiro perdedor? É isso que vamos ver ao longo de 200 capítulos.

Está satisfeito com o elenco deste novo projeto?

Muito! Aliás, este elenco é uma verdadeira equipa, onde estão todos entusiasmados. Sentem que os seus personagens são seres humanos e cheios de contradições. Eu já tinha trabalhado com grande parte destes atores, mas há outros novos que vieram e atenção porque vamos ter aqui grandes revelações em termos de representação de atores que estão a fazer os primeiros grandes papéis. À primeira vista, até mesmo nos comentários que aparecem no vosso site, há sempre o hábito de rotular as pessoas como o “canastrão”. Preparem-se para ver o tipo de trabalho que está a ser feito.

«Este sentimento de pioneirismo tem sempre um lado leve e um pesado. Mas é bom estar na linha da frente».

Depois do Emmy, volta a ser pioneiro com a inauguração de uma linha de ficção. Como é que se sente ao marcar estas viragens no mercado?

[Risos] Talvez eu seja a reencarnação do Vasco da Gama, que é da minha terra, a Vidigueira. Curiosamente, o Vasco da Gama, que desbravou os mares para a Índia, também era da Vidigueira. Este sentimento de pioneirismo tem sempre um lado leve e um pesado. Mas é bom estar na linha da frente.

Encontramos muitos comentários no nossos Facebook e Fórum de pessoas que defendem que quando se aumentam os episódios dos projetos, a qualidade se perde. Essa é uma das principais críticas às novelas. Partilha dessa opinião?

Eu sou apologista de novelas mais curtas. Acho que entre os 150 e os 180 [episódios] seria o número ideal, mas nós também temos de perceber que o nosso mercado não é grande. Aliás, quem frequenta o vosso site são pessoas que estão muito ligadas ao meio televisivo e deviam saber também que, para o mercado sobreviver, as emissoras precisam de sobreviver e ter rentabilidade. Se não tiverem dinheiro, não há produção pra ninguém. Antes de fazermos críticas, temos de ver muito bem que o nosso mercado é pequeno, infelizmente. Nós somos 11 milhões. Daí que a única maneira de rentabilizar os produtos é se eles forem de maior dimensão, porque é aí que os custos que as empresas têm são diluídos. Umas vezes, sim, perde-se qualidade, outras vezes também existe má vontade de quem critica porque criticar por criticar é fácil.

«A Globo é a segunda maior estação de televisão do mundo, eles têm o dinheiro que nós não temos».

As comparações das nossas novelas com as da Globo reduzem-nos muitas vezes. Acha que o mercado interno passou a olhar com outros olhos para o que fazemos depois do reconhecimento dos nossos produtos lá fora?

Acho que ainda não olham como deve ser. Esquecem-se de uma coisa: a nossa indústria televisiva tem 20 anos, a Globo tem 60. O nosso mercado são 11 milhões de pessoas, o brasileiro são 130 milhões. Eles têm uma coisa chamada PROJAC, que é uma verdadeira Hollywood brasileira, que nós não temos. A Globo é a segunda maior estação de televisão do mundo, eles têm o dinheiro que nós não temos. Quem acompanha as novelas brasileiras, e eu acompanho quando não estou a escrever, percebe que houve 2 ou 3 fenómenos de audiência e o resto não foram grandes sucessos. Há uma novela maravilhosa que está a passar e que eu acho que fabulosa, que é o Espelho da Vida, mas que é um fiasco de audiência e isso não lhe tira qualidade nenhuma.

Quais são os resultados que espera vez ao final da semana na grelha de audiências?

Não sei, porque eu não estou habituado a ver audiências no cabo. Para mim vai ser uma surpresa também ler as audiências no cabo. Vão ter de me ensinar. No fundo, eu não sou um homem de números, sou um homem de letras. Eu sei, por exemplo, que a gala da CMTV em que esteve presente todo o elenco da novela, o momento mais visto foi aquele em que todo o elenco esteve em palco. Os resultados são os que tiverem de ser, as contas só se fazem no fim.

Imagem – David Martins

«Nós decidimos que seria este o regresso da novela das 8».

Já vimos declarações de Francisco Penim a prometer uma concorrência feroz às novelas das generalistas. Acha que o projeto e a CMTV vão conseguir superar essa meta?

O nosso horário é o das 20h00. Há quarenta anos que não há novela das 8 em Portugal. A novela das 8 sempre foi uma tradição, foi assim que começamos cá com a Gabriela, com Casarão, com O Astro. Nós decidimos que este seria o regresso da novela das 8, o que levou a que a CMTV também reestruturasse a sua grelha, porque a CMTV tinha um jornal às 20 horas. Esperamos, sim, que venham espectadores de outros canais. Não temos dúvidas de que a novela tem potencial para chamar a atenção.

Penim já disse que há contrato para uma segunda novela. A autoria também será sua?

[Risos] Não quero pensar nisso agora.

Qual foi a melhor novela portuguesa e o melhor autor que temos no nosso mercado?

A melhor novela portuguesa que eu vi até hoje, sem desprimor por nenhum colega meu, mas que foi uma novela que me marcou bastante, chamava-se Ilha dos Amores.

Depreende-se, portanto, que a melhor autora será Maria João Mira?

Sim. Sim, sem problema nenhum.

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