SIC

Manuel Moura dos Santos em entrevista

Filho de um coronel da força aérea, Manuel Moura dos Santos viveu quatro anos numa base militar, mas não cumpriu o seu sonho: ser piloto de aviões. Em vez disso, conquistou prémios ao lado de Jorge Palma, Ala dos Namorados ou Rio Grande, de quem foi agente. Hoje, conhecemo-lo como o júri implacável do “Ídolos”. O i entrevistou-o no seu quartel-general – o escritório da agência MS Management, em Belém.

Quem o vê no “Ídolos” fica com a sensação de que está ali a fazer um frete.

Não é um frete, fazer televisão é uma coisa muito difícil. Nunca sabemos qual é o momento em que estamos bem ou mal. E nos últimos tempos não tenho estado muito descontraído.

Porquê?

O programa já se arrasta há muito tempo, as pessoas estão cansadas, e às vezes descarrega-se lá para dentro. Cá fora, as coisas também não estão fáceis: antes de deixarem de comprar batatas e arroz, as pessoas deixam de comprar discos e ir a espectáculos. E um gajo é humano, reflecte-se em tudo. Bem sei que o público não tem nada a ver com isso, mas sou um tipo muito genuíno e quando estou mal disposto não disfarço.

Sente-se enquadrado naquela confusão de miúdos e famílias aos berros?

Abstraio-me de tudo isso. Há uma parede entre mim e o público. Estou focado no que se passa à frente.

Não foi bem o que aconteceu recentemente, com a polémica dos Anjos [Moura dos Santos criticou os músicos e foi vaiado].

Não gosto de ser interrompido quando falo, é apenas isso. O resto passa-me ao lado, aquela gritaria, os apoios. Só estou no plateau quando tenho mesmo de estar. Ao mínimo intervalo saio.

Que sentiu quando soube que os Anjos iam estar no programa seguinte?

Houve ali uma coincidência infeliz. A SIC já tinha decidido convidá-los antes. Até foram eles que se ofereceram. De vez em quando, o programa tem de meter umas coisas destas. Tem a ver com audiências e com o facto de a TVI ter duas novelas ao mesmo tempo. Era algo que a produtora já tinha previsto.

Não foi uma decisão inédita?

Não. No Natal foram lá os Shouts. Também acontece lá fora. E já estava no meu contrato que eu ia faltar nessa semana. Era um compromisso pessoal que eu já tinha há imenso tempo. Foram coincidências infelizes.

Essa até foi bastante feliz.

Não foi nem deixa de ser. Estou-me nas tintas se as pessoas pensam que eu fugi. Além disso, para quem quiser saber, eu estava com o João Gil de férias na neve. Não era segredo para ninguém, o Gil até fez o diário da viagem no Facebook. Mas percebo que a produção não tenha retirado o convite aos Anjos porque isso ia causar ainda mais polémica.

Provavelmente a produção até lamentou a sua ausência. O tema era quente, prometia audiências.

Se tivesse estado lá, as coisas teriam sido normais. Eu cumprimentava-os, se eles retribuíssem muito bem, se não muito bem na mesma. Nada me move contra os Anjos.

Alguma vez foi maltratado na rua por discordarem da sua opinião?

Não, nunca. Nem nas redes sociais em que estou. Na rua, as pessoas são simpáticas. Por exemplo, entre a segunda e a terceira edição passaram quatro anos. Nesse período, abordavam-me para dizer que tinham saudades. Perguntavam-me quando voltaria.

No fundo, a postura do júri agrada o público, aguça-lhe a curiosidade.

Aceito que haja um certo voyeurismo em ver alguém numa situação difícil, não é que eu concorde, mas está na natureza humana. E este tipo de programas também joga um bocado com aquilo que as pessoas são. Quem inventa estes conteúdos, sabe exactamente o alvo e como chegar a ele.

Não sente que exagera?

Nenhum júri está ali para mandar o concorrente aprender. Há talentos que são inatos, como cantar, pintar ou escrever. E uma coisa é ter alguma dureza e ser directo nas apreciações, outra é insultar. E eu nunca insultei ninguém. Posso não gostar e dizer “eh pá, dedica-te à pesca”. Admito que isso não seja o português mais coloquial.

Ou classificar um estilo de “azeitola”.

Por exemplo. Mas, no norte, essa é uma palavra comum, tal como morcão. O azeiteiro cá em baixo é o foleiro.

Como vê a mediatização do programa? Dá a sensação de que não é a sua praia, recusa-se a alimentar polémicas nos jornais.

Não é o meu lugar, de facto. A minha mais valia televisiva, a existir, é aquilo que eu digo e como digo. Todo o folclore à volta do programa irrita-me imenso. Um dia estava aqui e recebi uma chamada de um jornal, com quem não falo, e perguntaram-me qualquer coisa sobre o Luís Jardim. Apenas disse para não me chatearem com parvoíces. No dia seguinte estava na capa desse jornal: “Moura dos Santos chama parvo a Luís Jardim”. Aquilo é só má fé. Resultado: pedi à minha advogada para tratar do assunto. Não tenho paciência para estas merdas. E é isso que os irrita, estar-me nas tintas, não falar, não alimentar.

Acredita que um programa como o “Ídolos” pode lançar uma carreira, como acontece lá fora?

Eu gostaria que fosse feita uma tentativa séria de estabelecer uma ligação entre o programa e a indústria, mas as experiências do passado mostram-nos o contrário, que isto é um puro entretenimento e que a transposição do que se passa ali para a indústria é reduzida. Eu percebo que não há dinheiro. Na América, têm singles a sair no dia seguinte à gala. Aquilo é imediato, há uma equipa enorme que já está a gastar dinheiro com cinco concorrentes, sabendo que apenas um vai ganhar.

E nesta edição do “Ídolos”?

Gosto muito dos miúdos e acho que em termos de popularidade esta edição bateu por uma grande margem as outras: a adesão do público, as audiências. Acredito que desta vez o vencedor e alguns dos finalistas terão mais facilidade. De qualquer maneira, há ideias da Freemantle [a produtora] e da SIC para não deixar morrer estes miúdos na praia.

Os exemplos mais recentes não são muito animadores.

O Nuno Norte continua comigo, com um percurso dificílimo. Teve uma fase mais completa quando estava na Filarmónica Gil, agora a solo está a gravar um projecto de Rock chamado “Lama”. Não explodiu.

Enquanto manager, considera-se um caça talentos?

Tenho alguns miúdos em quem estou a apostar, mas não sou caça-talentos.

Há muita cobiça de artistas por parte dos managers?

Nunca em circunstância alguma abordei um artista que já tivesse agente.

Formou-se em economia, mas acabou a trabalhar na música. Como?

No verão de 1989, tive uma esplanada em Belém, que era frequentada pelo Rui Veloso, amigo do meu irmão. Quando o negócio acabou fui convidado para trabalhar com o Rui na área comercial e financeira. Nunca cheguei a acabar o curso, fiquei no quinto ano, com umas cadeiras por fazer. É um percurso um tanto invulgar. Queria ser piloto aviador, como o meu pai que é coronel da força aérea no resguardo, e vivi no meio militar durante imenso tempo: quatro anos na base aérea nos Açores e na de Tancos.

Como chegou ao Jorge Palma?

Nunca mais me esqueço: estávamos num concerto dos Rio Grande em São Pedro do Sul. O Palma, com aquele ar desengonçado do gajo e já bem disposto, dizia: “Já sei que vais ser o meu manager.” Foi a Marta, manager dos Xutos, a querer que eu pegasse nele.

É fácil trabalhar com ele?

Tivemos uma relação inicial bastante conturbada. Eu vinha de artistas muito focados e o Jorge era o feeling puro. Tinha aquela faceta extraordinária do “está tudo bem, isto ensaia-se em 10 minutos”. E eu habituado ao Veloso, que ensaiava um mês para uma digressão. Ao longo dos anos, com muitas conversas, foram-se limando várias arestas e o respeito mútuo foi conquistado. Mas chegamos a ter um trato: eu dizia-lhe ‘sempre que chegar a um concerto e tu não estiveres em condições, venho-me logo embora’. E ao princípio, meu amigo, aquilo era uma carga de trabalho. Vinha quase sempre embora.

Fonte: I Online

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