Holofotes

Sobre a TV [Parte 3]

Demorei algum tempo a tentar arranjar uma temática para esta parte final da crónica. A minha ideia era, fundamentalmente, falar-vos do panorama televisivo em Portugal e no Mundo. Contudo, a bússola aponta noutra direcção.

A súbita morte de António Feio abalou Portugal. Isto é facto e não se pode negar tal. Também a morte de José Saramago surgiu, inesperadamente, embora o seu historial clínico o previsse há já largos dias.

Em primeiro lugar, António Feio foi um Senhor da nossa cultura e tiro-lhe o chapéu não só por aquilo que passou mas por aquilo que fez durante toda a sua vida. É frustrante ver alguém tão característico de uma cultura desaparecer tão subitamente. É certo que António teve o seu merecido destaque durante toda a sua vida. Contudo, na época pré-doença, este Homem caiu no esquecimento. Não no esquecimento do coração de todos os seus mais devotos fãs mas no esquecimento alheio. Voltou ao de cima por causa da sua doença mas foi efémera tal passagem. Agora após a sua morte, todo o destaque televisivo é feito de e só para ele porque, imagine-se, morreu.

Já com José Saramago se passou o mesmo. Durante uma vida inteira de histórias por contar, viveu e lutou por aquilo que acreditava. Escreveu como quem escreve uma carta de amor. É verdade que tinha os seus defeitos mas todos nós os temos e não é por isso que deixamos de viver ou nos escondemos. Muita gente o odiava. Muita gente o adorava. Mas a TV fez questão de passar todo aquele funeral ficando o espectador preso àquele cenário. Morreu, tal como António Feio. Foi reconhecido após a sua morte tal como António Feio. Não é por obra e graça do Espírito Santo que a FNAC obteve um lucro na ordem dos 846% face aos três dias anteriores (fonte Público) tudo porque Saramago morreu. E agora até é referido como “o único português a receber o Prémio Nobel da Literatura”. Mas levanto a questão: os leitores compram os livros dele porque ganhou o prémio ou porque ele realmente é digno de ser lido? Estamos, portanto, a dizer que os livros de Saramago são comprados, exclusivamente, porque recebeu o prémio e nada mais juntando-se, no mesmo saco, os que gostam dele como escritor que é e aqueles que o compram porque sim. Já agora, o leitor sabe a razão da escrita do Memorial do Convento ou a simples razão da sua escrita?

Há quem mereça prémios como Saramago porque toda a sua vida lutou pelos seus ideais e pela sua escrita singular. António Feio é merecedor de um prémio também. Um prémio que o imortalize. Não é por a TV estar a mostrar peças e demais programas sobre ou com António Feio que ele vai ficar imortalizado. Os fãs, que cá deixou, vão tratar de o imortalizar com conta peso e medida.

Perguntam-me vós: que tem Saramago e Feio a ver com a nossa televisão?

Estes foram, apenas, dois casos dos muitos que existem no nosso país. Portugal é hipócrita. Sempre foi e sempre será. Não acontece somente aqui mas não posso falar dos demais.

Comportamento gera comportamento e sendo hipócritas, sê-lo-emos sempre. Cientificamente provado, o ser humano leva, em média 18 meses, a mudar de hábitos. Multiplique pelos senhores das televisões e o número final será, invariavelmente, o tempo que levaremos a mudar a nossa perspectiva face à cultura e de como havemos de tratar aqueles homens e mulheres que deviam ser mostrados e não o são.

A pobreza da nossa televisão vai-se acentuando e como exemplo disso temos a TVI. Embora cá dentro achemos as suas produções razoavelmente boas porque é produto nacional, imigrantes que vêm cá passar férias ou visitar família e que estão habituados a outro tipo de programação concluem o mesmo que conclui acima. No blog de Jorge Mourinha, A Minha Televisão, ele referiu uma citação de um amigo irlandês que chegou cá e se deparou com a oferta mono cultural da nossa televisão. Não digo séries em horário nobre mas programas que tenham o intuito de educar e fazer crescer mental e culturalmente cada um de nós enquanto indivíduos e cidadãos.

Enquanto as cartas não forem postas na mesa, a televisão será sempre aquilo que é hoje: uma autêntica perda de tempo.

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