Holofotes

A Minha Casa 2

Aí há dias, em conversa com uma colega minha sobre a minha crónica anterior, ela confessou-me ter ficado um pouco desagradada com a “brutidade” com que vos falei e com que expus o digníssimo caso da Casa dos Segredos. Não era essa a minha intenção, claramente. Tal como o leitor gosta da Casa dos Segredos, eu gosto de ver Big Brother embora estes dois programas sejam completamente diferentes e talvez seja um ultraje pô-los a comparação.

Na mesma conversa, a minha amiga colocou um argumento interessante sobre o facto de, quando chegamos a casa depois de um mau dia ou na universidade ou no trabalho e temos à nossa disposição durante, grosso modo, uma hora deste reality show, a única coisa que lhe apetece fazer é sentar-se em frente à televisão e preocupar-se com rigorosamente nada. Durante aquela hora, está-se concentrado naquelas vidas e em nada mais se pensa. E, tecnicamente, há algo de reconfortante que o reality-show tal como as séries o fazem comigo.

E se extrapolarmos um pouco à vida real, não será que, esta pequena hora onde podemos ver os outros cair nas suas próprias armadilhas, observar toda e cada escolha em relação a um assunto e ouvir conversas lamechas sobre este ou aquele ou sobre esta ou aquela que fez isto ao outro, etc, não nos sentimos felizes por tudo isto se estar a passar com eles e não connosco? Quantas vezes nos sentimos bem por isto acontecer? Quem nunca assim se sentiu que atire a primeira pedra.

E é talvez esta sensação enganosa de que, por uma hora, tudo está bem na nossa vida e que a vida dos outros nos interessa mais a nós que a eles próprios que nos torna tão sensíveis a este género de programas. Eu falo por mim.

Mas porque é que nós, seres humanos, sentimos esta necessidade de nos metermos na vida dos outros e saber todos os detalhes? Faz-nos sentir superiores? Faz-nos sentir menos culpados das nossas decisões?

E o melhor de tudo isto, é o facto de, segundo a minha amiga me confessou, ter sido, propositadamente, escolhido para que as relações entre eles chegassem a um novo patamar. E não é isso que está a acontecer? E não é isso de que toda a gente fala?

Se por um lado há gente que gosta das suas novelas onde personagens irreais convivem em situações semi-reais, por outro há gente que gostas destes reality-show onde personagens reais convivem em situações absurdamente irreais e que nos deixam loucos e maravilhados. Porque, no fundo, não vivemos sem os outros e, mais importante ainda, não conseguimos viver se não nos sentirmos um pouco superiores a eles.

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