Histórias por Contar

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– Está combinado, então. Às 10 cá o espero.

Mais um cliente marcado, mas o dia não podia ficar por aqui. Havia muito trabalho pela frente. E enquanto aguardava por mais telefonemas, decidiu vestir-se e ir até à rua, na ânsia de encontrar alguém interessado nos seus serviços.

Esta era a rotina de Maria dos Anjos, Angélica para aqueles para quem trabalhava. Desde os dezoito anos que teve que se fazer à vida. Ficou grávida e os pais expulsaram-na de casa. Sem dinheiro e abandonada pelo companheiro de então enfrentou inúmeras dificuldades, até que, pela mão de um antigo colega de escola chegou ao mundo da prostituição. Os primeiros tempos não foram fáceis. Tinha uma criança para criar, muitos traumas do passado para esquecer e uma complicada vida pela frente. Habituada a uma vida de conforto junto dos pais, com passagens por alguns dos colégios mais prestigiados da zona de Cascais, viu-se obrigada a fugir, para não manchar a reputação da família. Aos amigos e conhecidos, disseram que havia falecido e chegaram, inclusivamente, a simular o seu funeral, mas não, Maria dos Anjos estava bem viva, com a diferença de que não era a mesma menina que outrora queria ser médica e mãe de duas crianças. Deu à luz o pequeno Gabriel, mas, ao ver que não conseguia tomar conta dele, deixara-o numa instituição de caridade. Doía-lhe o coração sempre que via uma criança. Todavia, a vontade de sobreviver fê-la ter forças para seguir em frente.

Ambiciosa por natureza e apesar da educação conservadora, tudo fez para vencer na vida. Chegou, inclusivamente a envolver-se com o presidente da empresa em que trabalhava para conseguir subir de posto. Contudo, os planos não lhe correram bem e acabou por ser despedida. Sem dinheiro novamente e sozinha no mundo, encontrou em Flávio, um antigo colega de turma, a fuga para os seus problemas. Entrou no mundo da prostituição. Ganhava dinheiro muito facilmente, mas tinha muitos dissabores com a profissão que levava. Foi violada duas vezes e roubada por mais de vinte. Ainda assim, mantinha-se naquele mundo. Não tinha outra saída, ou melhor, achava que não tinha.

– Faça o favor de entrar. Esteja à vontade.

Ao ver aquela bonita morena, olhos claros, com uma lingerie bastante atrevida, semi-nua, a vontade de a possuir tornava-se cada vez maior.

– Espere um pouco. Primeiro o dinheiro. São setenta e cinco euros.

– Aí os tens. Agora fecha a boca e faz o serviço.

Mais um cliente estava satisfeito e na carteira de Maria dos Anjos já havia dinheiro para duas refeições. Vinte e cinco euros tinham que ser entregues a Flávio, o intermediário deste “negócio”.

Como em todas as noites, os serviços eram poucos e decidiu ir até à zona da Alameda ver se encontrava mais potenciais clientes.

Psst, Psst, Psst, quanto cobras? – questionou um jovem que conduzia um simpático carro desportivo.

– Setenta em cinco!

– Entra aí – ripostou.

Ao entrar no carro, o seu olhar cruzou-se com o do condutor, que, veio a saber posteriormente, se chamava Miguel. Falaram sobre o serviço e seguiram para um hotel próximo. Ao entrarem no quarto, Maria dos Anjos não sentiu que aquele fosse apenas mais um cliente. Mas agiu como profissional e fez tudo aquilo que era habitual.

– Aí tens, cem euros. Valeu a pena. Obrigado.

Como acontecia com todos os clientes, acabou por esquecer-se daquela noite, mas a memória do olhar ternurento de Miguel ficou-lhe na cabeça. Quinze dias se passaram e Maria dos Anjos continuou a sua vida de prostituta, até que o mesmo Miguel a voltou a encontrar, precisamente no mesmo local da outra vez.

– Ainda cobras setenta e cinco? Ou já aumentas-te?

-A vida custa a todas, mas para ti faço o mesmo preço. – respondeu, com ar provocador.

Mas aquela noite havia de ser diferente. Ao entrarem para o quarto de hotel, Miguel começou a chorar. Olhou nos olhos de Maria dos Anjos e perguntou-lhe porque andava naquela vida.

– Não gosto de misturar trabalho com a minha vida pessoal, lamento. Queres o serviço, ou não? Tenho mais clientes à espera! – ripostou, nervosa.

A conversa terminou e o serviço prosseguiu. Naquela noite, Maria dos Anjos sentiu-se indisposta quando estava prestes a sair do hotel.

– Eu levo-te ao hospital! – ofereceu-se Miguel.

– Não, deixa estar. Deves ter a tua mulher à tua espera. E além disso, não preciso de que me ajudes.

– Está mas é calada, entra no carro. Eu já te explico tudo.

Durante o caminho, Miguel prometeu ajudá-la e explicar-lhe tudo o que se passava, mas antes, fez questão de que ficasse melhor. Depois de pouco mais de duas horas no hospital, os dois jovens estavam de saída.

– Esta noite ficas em minha casa. E não me digas que não. – atirou Miguel.

– Está bem, mas não penses que eu faço isso com todos os clientes. – ripostou Maria dos Anjos.

Nem cinco minutos se passaram e a jovem estava a entrar na casa do cliente. Não fazia ideia de há quantos anos não cumpria o simples ritual de entrar em casa e pousar o casaco no cabide da porta e os sapatos por baixo. Estava deslumbrada. Quando vivia com os pais estava habituada a todas essas rotinas, mas nos últimos anos, e por força das circunstâncias mal sabia o que era isso. Miguel pegou-lhe na mão e conduziu-a até ao sofá da sala.

– Fica à vontade. Faz de conta que estás em tua casa.

Sentados no sofá, nem deram conta das horas que eram, até que ouviram o relógio de madeira da sala tocar cinco da manhã.

– É tarde, mas preciso mesmo que me ouças. – pediu Miguel.

Durante mais de duas horas, o jovem explicou a sua vida. Estava viúvo e tinha desistido de encontrar um novo amor. Sempre fora apaixonado pela esposa, que se suicidou, e deixara de acreditar no amor. Mas, como qualquer homem, tinha os seus desejos carnais e decidiu recorrer aos serviços de uma prostituta. Foi enganado por várias, mas sentiu algo bastante forte por Maria dos Anjos. Queria oferecer-lhe uma nova vida. Prometeu-lhe que não questionaria a sua vida. Ofereceu-lhe um emprego na sua agência de viagens. Tinha dinheiro para lhe dar uma vida de luxo. Era filho de boas famílias e não se importava com o passado de Maria dos Anjos. Queria sentir-se útil a alguém. Apaixonou-se por ela e encontrou ali a situação ideal para ajudar alguém a mudar de vida e a mudar a sua vida. Pediu-lhe com todas as forças que ficasse com ele.

Surpreendida, mas emocionada, Maria dos Anjos olhou-o com carinho e pediu-lhe que ouvisse a sua história também. Contou-lhe toda a sua vida. Desde a simulação da sua morte à descoberta do mundo da prostituição. Aceitou o seu pedido, mas, em troca, fez-lhe outros dois. Que não pensasse nela como má pessoa e que a ajudasse a procurar o filho. Miguel assim o fez.

Nesse mesmo dia, depois de muitas horas de conversa e poucas de sono, fez uso dos seus contactos e dirigiu-se à instituição onde a amada tinha deixado a criança. Ainda lá estava. Tinha já seis anos, mas continuava a ser o mesmo menino com um olhar enternecedor e um sorriso contagiante. Iniciava-se ali a luta para recuperar o tempo perdido e o amor da criança. E, finalmente, Maria dos Anjos poderia ter a vida com que sempre sonhou.

Hoje, dez anos depois, Maria dos Anjos é uma mulher feliz. Médica em causas humanitárias, ao lado do marido que continua a gerir uma grande agência de viagens, são pais de Joana, que se veio juntar a Gabriel, já com dezasseis anos e um menino ainda mais feliz do que aquele que sonhava todos os dias com o dia em que encontraria a sua mãe.

– Obrigada, amor. Fazes-me a mulher mais feliz do mundo. É impressionante como a vida dá voltas e voltas e voltamos sempre ao ponto de partida. Amo-te para sempre. – disse Maria dos Anjos a Miguel no dia em que aterrou em Portugal, depois de uma fantástica viagem de dois meses pela Europa ao lado dos dois filhos de ambos.

  • Luís Santos

    NÃO GOSTEI! Histórias muito “secas”, sem grande conteúdo. 

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