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Quando Fala o Coração

Quando Fala o Coração

O sol estava-se a pôr naquela tarde quente de fim de verão. Joana e Pedro, namorados há alguns meses, estavam no jardim da cidade, envoltos num cenário propício ao romantismo. Sentados num de muitos bancos daquele local, de frente um para o outro, sorriam e faziam carícias.

– Sabes que te amo, não sabes? – perguntou Joana, para depois beijar, suavemente, Pedro.

Hummm… Deixa-me pensar… – sorriu com a sua hesitação forçada.

– Parvo! – Joana riu-se e deu-lhe uma palmada no ombro.

Abraçaram-se, depois beijaram-se e voltaram a abraçar-se. Nos braços de Pedro, Joana abriu lentamente os olhos para contemplar a noite que surgia sobre as árvores. Suspendeu a respiração, não por espanto, mas por pânico. Não estava a acreditar no acabava de ver… Soltou-se dos braços fortes de Pedro.

– Um paparazzo! – quase gritou. Estava em pânico e mal olhou para o seu namorado, preocupada com o que estava ao seu redor.

Por trás de um arbusto tinha surgido um paparazzo que, armado com uma máquina fotográfica, fotografou, à socapa, o casal. E neste momento ele já tinha desaparecido, mas Joana continuava atenta a tentar perceber onde estaria.

– Um paparazzo?! – Pedro sorriu – Certamente que não nos estava a fotografar… – tentou puxar, para os seus braços, a sua namorada, mas em vão.

Joana soltou-se e levantou-se do banco. Estava transtornada. Parecia perdida, não sabia o que fazer. Arfava ao mesmo tempo que passava as mãos pela cara e pelo cabelo.

– O que é que se passa?! – Pedro estava confuso.

– Vou andando para casa. Encontramo-nos lá… – Joana mal olhou para Pedro e começou a andar, na direcção oposta à sua.

– Joana… – chamou-a, mas em vão. Ela já se estava a afastar, em passos apressados, e nem olhou para trás.

Curiosamente, Joana e Pedro tinham-se deslocado para o jardim em carros separados. Combinaram encontrar-se lá depois de cada um sair do seu trabalho. E, agora, o Pedro viu-se forçado a ter que esperar até chegar a casa para esclarecer aquele momento… insólito!

Joana e Pedro moravam em casas separadas, mas ao lado uma da outra. Eram vizinhos e foi por viverem a paredes-meias que se conheceram. Começaram a namorar, mas ainda não tinham dado o passo de viverem juntos; viviam, assim, sozinhos, um em cada casa, acabando por ocupar um só piso do prédio que habitavam.

Quando o Pedro estava a sair do elevador no piso em que morava, recebeu uma mensagem da Joana que dizia “Estou mal disposta. Preciso de estar sozinha. Amanhã falamos. Sabes que te amo, não sabes?”. Pedro ficou a olhar para o visor… curioso, a sua namorada tinha terminado a mensagem com a pergunta retórica que, naquela tarde, lhe fizera. No hall, entre a porta de sua casa e a da Joana, ponderou se haveria de lhe tocar à campainha para lhe pedir esclarecimentos. Decidiu não o fazer. Dirigiu-se para a sua porta, pôs a chave na fechadura e, antes de entrar, enviou uma mensagem à Joana: “Sim, sei que me amas. E eu a ti. Cuida-te. Até amanhã.”.

No dia seguinte, Pedro saiu de casa, rumo ao seu trabalho, sem se cruzar com a Joana. Enviou-lhe apenas uma mensagem a desejar-lhe bom dia. Assim que saiu de casa, quando caminhava para o carro, passou pelo quiosque que ficava a escassos metros do seu prédio. Como sempre, não ia parar, mantendo a sua rota. Mas hoje ia ser diferente…

Quando estava a passar pela banca, o seu olhar foi automaticamente atraído para a capa de uma revista de conteúdo social. Não podia acreditar no que estava a ver… “Descobrimos a filha transexual de Rogério Costa e Sousa” era a manchete da Glamour. Nessa capa, a acompanhar aquela frase em letras garrafais, estava uma fotografia da Joana e do Pedro, a darem um beijo no banco de um jardim… a foto que teria sido tirada no dia anterior, ao fim da tarde. Em tamanho pequeno, para esclarecer os menos atentos, estava uma fotografia de Rogério Costa e Sousa, o famoso empresário nortenho.

Entretanto, Joana estava em pé na sua sala, à procura das chaves do carro para poder sair e ir trabalhar, quando a campainha tocou. Não foi apenas só um toque. Foi um, dois, três… insistente, agressivo, pernicioso. Joana caminhou apressadamente para a porta, curiosa e intimidada, para a abrir logo e perceber o que se estava a passar. Ao abri-la, foi empurrada para trás devido ao caminhar agressivo do Pedro ao entrar em casa. Na mão levava uma revista…

– Amor, o que se passa?! Ia já enviar-te uma mensagem… – Joana sorria, mas estava preocupada.

– O que se passa?! Isso é o que me vais dizer… – estendeu-lhe a revista – Que porcaria é esta?!

– Oh, a Glamour é como todas as outras revistas do seu género… – Joana não estava a perceber, mas assim que segurou a revista nas suas mãos, viu aquilo que já temia. – Meu Deus! Eu já sabia… – mudou logo o seu estado de espírito e o sorriso que até então lhe rasgava o rosto, sumiu-se. – Pedro, eu posso explicar…

– Podes?! Ainda bem que podes, pois é isso que eu estou à espera. – foi agressivo.

– É que isto não é nada fácil para mim… é a minha vida, o passado que eu quero a todo o custo esquecer… – baixou a cara, os olhos humedeceram-se – Eu nasci homem, mas desde cedo percebi que estava no corpo errado. Por isso é que agora sou mulher. Tenho corpo e alma de mulher!

– Estou a ficar enojado… – Pedro fez cara de enjoo. Parecia tudo surreal de mais.

– Eu chamava-me João. João Costa e Sousa. Aliás, esse é o nome que, lamentavelmente, ainda consta no meu Cartão de Cidadão… ainda ando às voltas para o alterar o João para Joana.

– Não sei se quero ouvir mais…

– Por favor, deixa-me terminar. Tu precisas de saber toda a verdade. – Joana quase que implorou.

– Precisava de o saber há muito tempo, quando nos conhecemos, quando assumimos um relacionamento. – Pedro gritou, estava enervado, chateado. As veias latejavam-lhe no pescoço.

– Desculpa… Perdoa-me… – as lágrimas caíam-lhe agora pela cara. – Já fui tão rejeitada… A minha família nunca me compreendeu… quase que fui posta na rua a pontapé, como um cão vadio!

O Pedro começou a caminhar em direcção à porta, pronto para sair. Não queria ouvir mais nada. Não conseguia ouvir mais nada. A Joana perseguia-o com o olhar. Não foi capaz de lhe tocar, de o agarrar, de se pôr à sua frente para o impedir de sair.

– Espera, Pedro, por favor. Vê se percebes, eu não podia contar a ninguém…

– Não?! – virou-se para ela – E porquê?! – questionou com desdém.

– Porque se o meu pai soubesse onde eu estava, mandaria alguém atrás de mim para me matar. – agora foi ela quem levantou a voz.

– Claro! – deu uma gargalhada forçada – E eu que até te cheguei a perguntar se eras da família do conhecido Rogério Costa e Sousa e tu ainda gozaste comigo! Fui tão estúpido… – estava vermelho de raiva.

– Desculpa, Pedro, mas eu jamais te quis magoar… – estava a ser sincera.

– E quando tencionavas contar-me?

– Quando fosse a altura certa… – respondeu-lhe, sem saber ao certo o que haveria de dizer.

– Acho que ambos já percebemos… – começou por dizer, depois de ambos se terem calado por breves segundos – O que havia entre os dois, terminou. – Pedro abriu a porta do apartamento.

– Não faças isso, não vás… – Joana começou a chorar – Tu sabes que eu te amo!

– Será que esse amor ao menos é verdadeiro? – estava já a sair do apartamento.

– Claro que sim. Eu amo-te. Amo-te tanto… – soluçava e chorava ao mesmo tempo.

– Pois que te sirva de consolo. Não te quero ver mais à minha frente… Acabou tudo! – Pedro saiu do apartamento e bateu com a porta.

Joana, que entretanto chorava e soluçava, deixou-se cair no chão da sala, junto ao sofá, e aí ficou no seu pranto.

As lágrimas continuaram a cair pelo rosto da Joana durante mais algum tempo e nos dias que se seguiram. No andar ao lado, no apartamento do Pedro, também choveram lágrimas, num misto de raiva, angústia e vergonha, mas durante menos tempo… E o tempo passou!

Mesmo continuando a viver nos mesmos apartamentos, Joana e Pedro nunca mais voltaram a falar, nos poucos meses seguintes, depois daquele fatídico dia. Quando por ironia do destino se cruzavam no hall ou no elevador, mantinham-se em silêncio. Nem umas palavras cordiais trocavam. Era assim que seguiam com as suas vidas… a Joana tentava ultrapassar a separação e o Pedro, aparentemente inconsolável, arranjou uma namorada bastante rápido.

Certo dia, Joana estava a sair do apartamento para ir fazer umas compras. Na rua, o dia ia a meio. Antes de trancar a porta, chamou o elevador e, enquanto fazia girar a chave na fechadura, o elevador foi subindo até ao seu andar. Quando chegou, as portas abriram-se automaticamente e de lá de dentro saiu Pedro… acompanhado por uma mulher. Estavam de mãos dadas e sorriam. Aquela era a sua namorada… Pedro ficou rígido quando reparou que a Joana estava no hall e queria entrar no elevador. Não trocaram uma única palavra. O Pedro e a sua namorada caminharam para o apartamento deste e a Joana entrou no elevador. Antes das portas do ascensor se fecharem, Joana ganhou coragem e falou:

– Já vi que, para ti, foi fácil esqueceres-me… Se calhar gastei o meu tempo a te amar.

E, subitamente, as portas do elevador fecharam-se. Pedro, magoado, não hesitou e quis responder-lhe. Para trás deixou a sua actual namorada e foi a correr em direcção às escadas. Desceu-as, na tentativa de apanhar a Joana quando esta estivesse a sair do elevador, no rés-do-chão. Mas, quando lá chegou, já a Joana estava a sair à porta do prédio. Pedro gritou pelo nome dela. Ela olhou para trás e ignorou-o, continuando o seu caminho.

Já do lado de fora do prédio, Joana, com as lágrimas nos olhos, saltou do passeio para a estrada e atravessou a passadeira que ficava mesmo à frente do edifício. A toda a velocidade, um carro veio na sua direcção. Ela olhou-o, mas não foi a tempo de impedir a tragédia. O carro, que não abrandou, conseguiu apanhá-la e atropelou-a, fazendo-a girar no ar. Joana caiu no chão. No passeio o Pedro gritou, em pânico, pelo seu nome e o carro continuou o seu caminho, a toda a velocidade, Avenida fora.

Joana, no chão, não se mexeu. Enquanto um transeunte chamava uma ambulância, o Pedro foi a correr na sua direcção. Tinha lágrimas nos olhos.

– Perdoa-me… – Joana falou a todo o custo.

– Não digas nada. – Pedro interrompeu-a – Tu é que tens que me perdoar. Fui um estúpido. – estava assustado e arrependido pelas opções que tomara. Arfava devido ao que acabara de acontecer.

– Eu amo-te tanto…

– Eu sei. E eu a ti. – estava a ser sincero. Passou as mãos pelo rosto da Joana.

– Não quero morrer… – disse ela com uma tremura na voz e os olhos a encherem-se de lágrimas.

Chiu… Não vais morrer. Vai ficar tudo bem. – descansou-a e, ele próprio, estava a ficar mais calmo.

Entretanto, à volta deles, já se tinha juntado uma pequena multidão.

– Eu vi tudo. Um homem passou num carro a acelerar e nem se quer travou… Isto é inacreditável. Esta cidade está cada vez pior… e depois nem se quer parou! – dizia uma mulher indignada.

Pedro e Joana não paravam de se olhar nos olhos, à margem das pessoas que os rodeavam.

– Foi o meu pai. Isto não foi um acidente… foi ele que pagou para me atropelarem. Ele não vai descansar enquanto eu não desaparecer… – a Joana sabia o que estava a dizer. Não hesitou, nem por um instante, quando proferiu aquelas palavras.

– Não te preocupes. Eu estarei ao teu lado… Sempre! Nada nem ninguém te fará mal. – Pedro confessou-se.

E não! Depois daquele dia, ninguém voltou a atrever-se a fazer mal à Joana. Ela e o Pedro mudaram de habitação e foram morar para outra zona da cidade. Juntos. Pela primeira vez, iam dividir um tecto. Agora sim, já se conheciam verdadeiramente. Agora sim, já se podiam entregar um ao outro, sem medo, sem segredos. Ela confiava nele e ele aprendeu a confiar nela… porque o amor é muito mais forte que qualquer corpo.

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