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Pura Tentação

Pura Tentação

Raquel tinha acabado de pegar na carteira e nas chaves do carro, para sair de casa e ir-se encontrar com Marta, a sua melhor amiga, a pessoa que sempre esteve ao seu lado, principalmente nos momentos mais difíceis. Procurava pelo telemóvel que tinha deixado não-sei-onde, sem sucesso. Valeu-lhe uma chamada que o acordou do silêncio e fez ecoar pela sala o seu toque. Raquel dirigiu-se para o sofá, seguindo o som do telemóvel, onde o encontrou debaixo de uma almofada. Olhou para o visor e viu quem lhe estava a ligar. Era Jorge, o seu ex-marido, de quem já se tinha separado há ano e meio. Nunca apagou o número dele; mais valia saber que era ele quem estava a ligar, do que atender-lhe uma chamada por não ter reconhecido o número. Assim, podia sempre decidir se atendia, se queria falar com ele ou não! A verdade é que ela nunca se tinha deparado com essa situação, porque depois de se terem divorciado, nunca mais voltaram a falar ao telemóvel. Raquel pensou se haveria de atender… Hesitou, mas acabou por carregar no botão verde.

– Estou? – disse Raquel, decidida, como se estivesse a atender a chamada de alguém que não a tinha ferido, alguém que lhe era indiferente.

– Raquel? – perguntou Jorge, a medo.

– Sim, Jorge, sou eu. Precisas de alguma coisa? Estou com pressa… – não perdeu a pose decidida, de mulher forte. Afinal, já tinha passado um ano e meio desde que se separaram. As feridas já tinham sarado… mesmo!

– Preciso falar contigo…

– Pois… acho que já tinha percebido isso! Se não, porque terias ligado?!

– Há algo que te quero contar, do tempos em que éramos casados… – Jorge foi directo ao assunto. Parecia calmo.

– Agora?! Mas porquê?! Oh, Jorge, já lá vai tanto tempo… Sinceramente, nem sei se quero saber alguma coisa…

– Mas eu preciso de te contar, para poder passar essa fase à frente…

– Ainda não ultrapassaste o divórcio? – Raquel interrompeu-o – Eu já o fiz! Já o deverias ter feito… Aliás, ninguém diria! Ouvi dizer que já vivias com outra mulher…

– Sim, é verdade… e é sobre ela que eu te quero falar.

– Não quero saber, Jorge. A sério que não quero saber! – notou-se uma pequena irritação na voz de Raquel.

– Calma, Raquel. – Jorge tentava acalmá-la e ele próprio mantinha-se calmo.

– Eu estou calma! Nada que possas fazer ou dizer, agora, me vai deixar transtornada. Essa fase já a passei! – parecia, realmente, mais calma – Diz lá, então, o que tens para me dizer.

– Sabes, a Vera…

– Não sei quem é a Vera! – interrompeu-o.

– É a minha actual mulher…

Ah! – admirou-se, com desdém.

– Bem, ela… ela… ela era minha amante quando ainda estava casado contigo. – disse Jorge, muito rápido, sem hesitar ou parar para respirar.

Fez-se silêncio. Dos dois lados do telemóvel só se ouviu a respiração de ambos.

– Era isso que me querias contar para superar a separação? – Raquel pôs fim ao silêncio, quase indiferente.

– Sim… – disse Jorge, a medo.

– Então já contaste! – desvalorizou.

– Espera… – Jorge foi a tempo de evitar que Raquel desligasse o telemóvel – Eu contei-te isto não foi para te magoar ou para me perdoares… foi porque sinto a tua falta…

– Jorge, pára de tentar recuperar o tempo perdido… a vida de nós os dois, como casal, já foi!

– Mas eu sinto a tua falta… ainda te amo… – fez uma pausa – Tenho saudades tuas. Preciso de estar contigo.

– Diz logo o que é que queres. Eu disse-te que estava com pressa e já estamos aqui a falar há demasiado tempo. Diz logo…

Jorge queria falar, queria confessar os seus desejos, queria não estar ao telemóvel, mas sim ao lado de Raquel. Ganhou coragem e disse-lhe o que queria… Raquel apenas gritou “O quê?!” para depois desligarem a chamada. E, finalmente, ela saiu de casa.

Marta tinha combinado encontrar-se, naquela tarde, com a Raquel na esplanada do café Aragem, situado no jardim da cidade, para falarem. Queriam apenas beber um café e pôr a conversa em dia. Não que tivessem coisas para confessar… iam ter, simplesmente, uma conversa de mulheres.

Marta já lá estava, sozinha, a beber um café, junto a uma mesa da esplanada, quando a Raquel chegou a arfar.

– Nem sabes o que me aconteceu! – disse a Raquel, ao mesmo tempo que se sentava.

– Boa tarde para ti também. – Marta falou em jeito de gozo – O que é que se passou?!

– O Jorge ligou-me.

– Qual Jorge? O teu ex-marido? – estava admirada.

– Conheces outro?! Claro que foi o traste do meu ex-marido! – Raquel estava, aparentemente, enervada.

– Vá, tem calma… O que é que se passou?

– Nada!

– Nada?! Então porque é que ele te ligou? – Marta estava confusa.

– Olha… para se confessar! – Raquel ridicularizou a situação. Estava a acalmar-se.

Marta ficou a olhar para ela, calada. Depois, deu uma grande gargalhada. Raquel sorriu.

– Para se confessar?! Então porque é que não procurou um padre?

– Porque… o assunto era demasiado picante para os ouvidos de um padre!

– Conta-me tudo! Agora é que eu quero saber tudo! – Marta ria-se.

– O Jorge ligou-me para dizer que a mulher com quem ele vive foi amante dele quando nós éramos casados. Grande lata a dele, contar-me uma coisa destas…

– A sério?! Que traste… – Marta estava admirada.

– Mas não foi só isso.

– Não?! O que é que ele ainda tinha para te dizer? Não me digas que ainda te contou algo pior…

– Não… Bem, antes de desligar, começou com uma conversa de que tinha muitas saudades minhas, que sentia a minha falta…

– Conversa, Raquel, isso é só conversa!

– … E, para terminar, disse que queria dormir comigo…

– Dormir?! Como assim?! – Marta estava admirada.

– Olha, como assim… Fazer sexo, não é?! – relativizou.

– Cuidado, Raquel, tu tem cuidado. Não vás na conversa dele, não deites tudo a perder…

– Perder?! Eu já perdi tudo o que tinha a perder. Agora só tenho a ganhar!

A conversa das duas melhores amigas não foi muito mais além daquilo… até porque naquele dia a Raquel não estava para grandes conversas. Depois de uma separação dolorosa, em que o marido sempre disse que já não gostava dela – e que, veio a confirmar agora, afinal tinha outra! –, já não contava voltar a envolver-se fisicamente com ele. Não, mesmo! Estava disposta a encontrar alguém que a merecesse, verdadeiramente. Mas aquela proposta, para além de tentadora – visto que nunca deixou, realmente, de o amar –, era uma forma de se vingar. Para além de poder matar saudades, sabia que, lá no fundo, ia-se vingar de um dia ter carregado, ficcionalmente, um par de cornos! E, curiosamente, quem os iria carregar, agora, seria aquela que um dia tinha contribuído para que ela fosse uma mulher traída. E isso ajudou-a a tomar uma decisão.

Raquel tinha chegado há pouco a casa, depois de ter estado com a Marta. Estava sentada no sofá, a pensar na sua vida, no que fazer. Na mão esquerda, segurava o telemóvel. Já tinha tomado uma decisão. Desbloqueou o telemóvel, sorriu, e viu aparecer no visor as últimas chamadas recebidas. Ligou para o Jorge.

– Estou? – disse Raquel, calmamente, depois do Jorge atender a chamada – É a Raquel.

– Eu sei… e sempre soube que ligarias…

– Não estejas demasiado confiante…

– Vais renegar-me? – esta troca de palavras não passava de um jogo de sedução.

– Não… Mas também não precisamos de estar aqui com esta conversa… vamos poupar-nos! – fez uma pausa – Quando saíres do trabalho, vem ter a minha casa.

Raquel desligou a chamada. Sorriu. Pousou o telemóvel e dirigiu-se para o quarto. Lá, foi direita à gaveta onde estava guardada toda a sua colecção de lingerie e escolheu a mais provocante. O fim daquele dia prometia…

Eram umas 19h30m quando a campainha do apartamento da Raquel ecoou. Com uma lingerie preta e um robe igualmente negro, transparente, ela dirigiu-se para a porta e abriu-a. Do outro lado estava Jorge, com um sorriso matreiro. Ambos não disseram uma palavra e ele entrou, beijando-a logo, fogosamente.

– Como é que eu pude aguentar este tempo todo, longe de ti?

Estas foram as únicas palavras do Jorge. Raquel nem lhe respondeu com palavras, só com o olhar. Começaram a beijar-se junto à porta do apartamento, passaram pela sala a despir-se e acabaram nus, a entregarem-se um ao outro, no quarto, em cima da cama. Já conheciam muito bem o corpo um do outro, o ritmo de ambos, a fugacidade que lhes era característica. Mas agora estava a ser especial, diferente. Tinha sido um ano e meio de celibato… um do outro! Aquele momento, que na cabeça deles durou uma eternidade, foi efémero, tal era a vontade de saciarem o desejo. E deixou-os felizes, sem quaisquer problemas de consciência.

Ainda nessa noite, Jorge foi para casa, “saciado”, onde dormiu, lado a lado, com a sua actual companheira, Vera.

Raquel passou o dia seguinte com um sorriso rasgado no rosto. Seria ser por se ter envolvido sexualmente com o ex-marido? Talvez… mas a verdade é que ela tinha pensado em algo que iria pôr agora em prática. E não envolvia o Jorge. Não directamente… envolvia, antes, a companheira deste, a Vera.

Raquel estava no seu quarto e, lá fora, a tarde estava-se a pôr. Na mão esquerda tinha o telemóvel e, na outra mão, um papel com um número de telemóvel. Era o número da Vera, que tinha copiado do telemóvel do ex-marido, no dia anterior, quando este estava a tomar banho em sua casa. Agora era o momento de falar com a mulher que contribuiu para o fim do seu casamento. Discou o número e ligou-lhe.

– Estou? – disse uma voz do outro lado.

– Vera? – inquiriu Raquel.

– Sim. Quem fala?

– É a Raquel.

– Raquel?! Não estou a ver quem é… – Vera estava confusa.

– É a ex-mulher do Jorge. Já estás a ver quem é? – foi ligeiramente bruta.

– Como?! – Vera tinha sido apanhada de surpresa.

– Não precisas de ficar nervosa. Até porque o que eu tenho para te dizer é muito simples. E nem se quer vou perder muito tempo a falar contigo. – Raquel fez uma pausa e a Vera nem ousou em se pronunciar – O que eu tenho para te dizer é que o Jorge, ontem, dormiu comigo. É verdade… deitou-se na minha cama! O que ele fazia contigo há uns tempos atrás, fê-lo comigo, porque tinha saudades minhas. Agora, a amante fui eu e quem tem um par de cornos és tu. A vida é mesmo assim… o Mundo dá muitas voltas! Espero que sejas feliz com essa tua vidazinha de mentira!

Raquel desligou o telemóvel sem se quer dar hipótese à Vera de se pronunciar. Mais cedo ou mais tarde, cada um pagará pelo que fez… e a vingança é um prato que se serve frio. A Raquel abriu os braços e deixou-se cair para trás, ficando deitada, de barriga para cima, sobre a cama. A olhar para o tecto, desatou a rir à gargalhada e ficou assim durante algum tempo.

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