Histórias por Contar

Postal dos Correios

Postal dos Correios

“Querido Artur

Passei em frente ao velho portão verde da Escola esta semana. Está todo enferrujado. E substituíram o canteiro de amores-perfeitos por bancos de cimento. Cimentaram o chão. Acho que não têm tempo, nem paciência para regar flores.

Sente-se a falta das crianças a brincar na rua. Lembraste quando vinham em grupos para a Escola? A minha Escola está a cair aos bocados, não se vê vivalma.

Já não tenho paciência para ensinar garotos. Mas continuo a gostar de flores.

Hoje, quinta-feira, enviei-te mais uma carta. Tal como te prometi. Já lhes perdi a conta. Mas sei que as lês, mesmo que não estejas aqui.

Tenho a certeza que o Fernando está aí contigo, já lá vão dois anos que me deixou.

Teve muito tempo para te falar e muito mais para contar-te. Imagino que passem a maior parte do tempo a conversar. De politica e principalmente do Salazar e do General sem medo. De certeza que já te contou o desgosto que tem do seu Glorioso…

Os teus antigos colegas vão até à tasquinha do Ti Manel e estão ali quase todo o dia a jogar à sueca e às damas, entre um copo e outro. Olho para eles e acho-os tão velhos!

Aliás, acho que já nada está como antigamente, nem eu. Dizem-me sozinha, agora. Mas não me sinto assim.

Não vejo o dia para te voltar a ver. Espero que seja em breve, porque as saudades apertam.”

Uma brisa fresca pairava no ar, carregando o aroma seco do pico do Verão. Ainda era cedo mas a velha mulher arrastava a saia travada impecavelmente engomada pela estradinha que dava à avenida. Não fosse pela lentidão dos passos e a coloração prata dos cabelos, ninguém diria a sua idade.

Era sempre assim. Todas as semanas impelia o passo até ao posto dos Correios da cidade e, como num ritual, esperava sem pressas que a funcionária chegasse para abrir.

– Bom dia, D. Teresa. Como é que estamos hoje?

– Bom dia, menina. Muito bem, obrigada. Hoje corre uma aragem agradável e é-me mais fácil caminhar.

– Que bom. – Respondeu a funcionária, enquanto abria o posto.

Outras pessoas chegavam também, querendo fugir ao calor abrasador do Verão no interior. Olhavam a velha senhora com o mesmo cansaço espelhado nos olhos de quem olha para o sobejamente conhecido. Os olhares pareciam acompanhá-la com uma centelha de interesse espelhado no seguir de cada movimento da velhinha, no escutar de cada palavra.

Ela aproximou-se do balcão e poisou o envelope cuidadosamente. A funcionária pegou nele, virou-o e revirou-o, pesou-o enchendo-o de carimbos e de selos.

– Já está, D. Teresa, é tudo? – Perguntou, com um sorriso.

– Sim, minha querida, muito obrigada.

– Então, até para a semana.

– Até para a semana, menina. – Despediu-se. Voltando-se para os restantes a quem acenou. Todos retribuíram, respeitosamente.

– A quem é que a Professora manda tantas cartas? – Questionaram, com a dúvida estampada no olhar. Não tem família nenhuma, ninguém por cá…

Teresa ainda os ouviu ao sair e sorriu para dentro. A sua casa ficava perto. Uma pequena casa, acolhedora, de estilo antigo, já pertença dos antepassados.

Ainda era cedo, mas o calor já se começava a fazer sentir. Abriu a janela ampla que iluminava a sala e sentou-se no cadeirão. Olhou para a fotografia do marido, Fernando, lado a lado com a sua própria imagem sorridente, de há muitos anos atrás, no dia do casamento.

A semana passou, tão calma como lenta, por entre o calor dolente dos dias de Verão. Sem dar por isso, era de novo outra semana.

Bateram à porta. Teresa levantou-se titubeante, com a rapidez possível. Abriu a porta, e o carteiro, seu antigo aluno, estendeu-lhe um postal dos CTT.

– Bom dia, Senhora professora, tenho aqui uma encomenda para si. Assine aqui, por favor. – Pediu.

Ela assinou e o carteiro Quim retirou do interior do saco um embrulho grande. Teresa pegou nele, porque o peso não era grande e retirou-se, agradecendo.

Abriu a caixa ali mesmo, junto ao aparador, e retirou cuidadosamente uma farda do Exército português. Encostou o tecido macio de encontro o peito e estremeceu.

Nos meus momentos de solidão imagino-te a entrar com ela, tal como partiste – garboso, brioso da tua missão para com o Império português no além mar…

Tinhas acabado de pedir-me em noivado, aqui em casa, no alpendre, e eu disse-te que sim, que seria tua, para sempre. Prometíamos escrevermo-nos todos os dias, enquanto vivesse o amor.

– Estás amarrotada, deixa-me arranjar-te.

Pegou na velha farda verde e passou-a a ferro, devagar. Quando acabou, tinha muito poucas forças. Dirigiu-se a uma velha arca de faia e pegou num molho que continha centenas de cartas, algumas já amareladas pelo tempo, outras mais recentes, todas endereçadas a um Artur, com a sua letra, onde se podia ver carimbado endereço desconhecido. Juntou carinhosamente a pilha de cartas à farda, que acariciou, levemente.

– Mantive a promessa. Agora, são para ti meu amor, não preciso mais delas.

Foi pena que nenhuma delas fosse tua, com a tua resposta…o silêncio confirmou-me a tua morte. O Fernando acabou por salvar-me da solidão, para sempre foi muito tempo, mas não matou a tua presença em mim.

Embrulhou tudo num papel com pequenas flores cor-de-rosa, inventou novamente uma morada e quando deu por si, estava no posto de Correios onde a funcionária chegou, com o sorriso habitual, admirando-se ao ver a professora com um embrulho encostado ao peito.

– Hoje não é uma carta, D. Teresa?

– Não, minha querida. Peço-lhe só cuidado ao enviá-lo. É muito frágil.

“Sinto ainda o sabor daquele beijo furtivo que demos no alpendre. Que vergonha tive que o Fernando soubesse que nunca te esqueci. Pede-lhe perdão por mim, só até nos vermos. Diz-lhe que foi o melhor marido que podia ter, mas que foste sempre o meu primeiro e único amor, não se pode mandar no coração”.

O caminho até casa pareceu-lhe mais fresco do que nunca, mais breve do que nunca. E com uma infinita leveza de espírito e o calor todo contido no seu frágil ânimo, Teresa podia jurar ver-se menina de tranças, a caminho da Escola, e Artur, o menino de calções de cotim e joelhos esmurrados que a esperava no portão.

Nos Correios, a empregada sorria, enquanto pegava mais uma vez no Carimbo, dando ao embrulho a mesma provisão.

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