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O Testemunho

O Testemunho

– À Cármen, que completa hoje o seu décimo aniversário de casamento! Dez é o número perfeito. São dez os mandamentos.

Cármen estendeu a mão para receber o flute de champanhe que a sócia lhe oferecia, efusiva.

– Parece que ainda foi ontem que fui ao vosso casamento. Estavas tão nervosa que não conseguias sair do carro, foi preciso ir lá o teu pai e praticamente arrastar-te cambaleante para o altar…

Cármen levou levemente os lábios ao flute, alheada do que se estava a suceder, com um sem vontade cínico e pouco natural que chamou à atenção da amiga de longa data e sócia da editora de livros para crianças.

– O que é que se passa? Estás tão esquisita…

– Desculpa, Rita, estava longe. Estou preocupada com a Margarida. Desde que viemos de férias que está estranha. Queixa-se sempre que lhe dói uma perna, ou a barriga, que tem febre. Se continuar assim, marco uma consulta no pediatra.

– Pois é, amiga, sabes como são as crianças. Fazem de tudo para não irem à escola. Em princípio não é nada de grave, vais ver. Não te preocupes. E também sabes como dizem em relação aos maridos, quem os tem bons, que os conserve. E como hoje é um dia especial, estou-te a mandar para casa mais cedo, para festejares com o teu marido, sem pensares nos problemas.

Cármen arrumou à pressa os papéis da secretária, pegou na carteira e rumou a casa.

Primeiro, foi tudo repentino. A uma velocidade que ainda não conseguia perceber, tão veloz, quanto letal.

Ouviu o choro convulsivo da filha e subiu em passos apressados as escadas até ao 2º piso da moradia. E tudo continuou a pressentir-se tão acelerado quanto os batimentos do coração.

Ela estava ali, nos braços do pai, indefesa e aninhada, e contorcia-se, como um animalzinho aflito, enquanto vomitava na cama.

Não houve tempo para muito. Aproximou-se da cama, puxou a filha debaixo do marido.

– O que se passa aqui? – Questionou, em brados.

Jorge levantou-se também, tentando acalmar a mulher. O seu corpo alto e magro contrastava com o da filha aninhada, em prantos, de encontro a mãe. Jorge baixou-se, limpando-lhe o sangue que escorria do nariz.

– A Margarida estava com dores de barriga. Deitámo-nos um bocado na cama, enquanto não chegavas….ela é tão glutona…

Cármen afastou novamente a filha do marido e estacou, incrédula, a debater-se com o peso que lhe tomara conta do coração, segurava o braço da filha, suspenso no ar, com a sua mão paralisada de mãe aflita.

Margarida calou-se perante as palavras do pai enquanto a mãe lhe lançava um olhar inquisitório.

– …não acredito. A Margarida nunca chora assim. Vomitou, está a sangrar do nariz… o que é que lhe fizeste?

Por mais que Jorge tentasse uma justificação ou buscar uma resposta, Cármen tinha montado defesas e parecia não ser capaz de reconhecê-lo.

– Como é que foste capaz de fazer isso, Jorge? Violar a tua própria filha? A nossa vida não te realizava o suficiente? Nunca pensei que tu o fizesses…nunca pensei ter que passar por isto.

– Tu estás enganada, Cármen, eu nunca toquei na Margarida. – Replicava-lhe ele, voltando uma expressão aflita para a filha. – Diz à mãe o que se passou, Margarida. Conta-lhe a verdade.
De olhos postos no chão, voz incerta e perdida, a pequena respondeu, vacilante, sem nunca fitar o pai.

– …o pai…ele…ele…

– …fez-te mal! – Interrompeu a mãe, vendo as lágrimas regressarem aos olhos da filha, que soluçava.

Perante a expressão incrédula do cônjuge, arrastou a filha até ao carro e nunca mais o viu.

Durante semanas, seguiram-se panóplias de consultas, psicólogos, relatórios e exames médicos que ditavam o recente desfloramento da menina, assinalou-se data para o julgamento em tribunal.

Os soluços sinceros da filha. A forma paternal do juiz que buscava tranquilizá-la e fazê-la admitir a verdade e assim assinar a sentença de culpado do progenitor.

Cármen ainda vacilou, ao ouvir a voz de desespero de Jorge, que se pronunciava inocente.

Depois, as portas da prisão fecharam-se e Jorge não soube se sentiu mais o peso das grades ou o aperto no coração. Olhou à volta. A cela exígua, vazia, de cor indefinida, misto do sujo e do tempo, apenas com um catre coberto por uns lençóis de cor crua encostado à parede, onde se sentou cabisbaixo, dobrado sobre si próprio.

As têmporas latejaram, a garganta fechou-se num nó e as lágrimas caíram copiosamente pelo seu rosto. Caminhava em lentidão, em vergonha e alerta, como um animal, em território estranho. Não lhe reconhecia os cantos, tentando, num esforço extenuante e vão, marca-lo como seu.

Muitas vezes desejou possuir apenas a parte irracional de bicho. Os dias foram-se diluindo, cada vez mais precários, cada vez mais gastos e iguais. Tão idênticos e desgastados que chegava a duvidar se seriam realidade, ou se não seria realmente culpado, o que sempre negara, e se não haveria de facto razões para estar ali.

Não eram as palavras, não era o cárcere, nem sequer a memória que o atormentavam. Nisso, o tempo tinha-lhe sido benévolo, apagando-lhe a revolta. Era a clausura branda que lhe adormecera os sentidos, confundindo-o, a luta dos dias com a mente, que tentava perdoá-lo. Mas era sempre aquela dor que o definhava, que procriava, nefasta. Aquelas quatro paredes repetindo em eco a sua condenação.

Na sua vida, tinha sido aos 10 anos que assistira à morte do Pai, tinha sido 10 anos depois que a conhecera, tendo casado e vivido uns breves 10 anos de felicidade, em que pensava que, finalmente, tinha assinado tréguas com a vida…

Lembrava-se da cama, deitado com a pequena Margarida. Rebolavam soltos e gargalhavam, de forma alegre e natural. Fora ele o primeiro a segurá-la, quando nascera. Dera-lhe o nome, por ser a flor preferida da mãe. Durante os seus curtos 9 anos, aprendera a amá-la, a protegê-la com um amor feroz e incondicional. E começou a acreditar não só no acaso, mas também na mentira, quando a ouviu da sua boca de criança pequena, nas palavras que acabaram por condená-lo. E a prisão torna mais fluido e fácil o exercício de pensar.

Em Matemática Dez é um número completo, todos os números correm em ciclos de dez…

As grades rangeram e a figura do guarda prisional, tão grande quanto seguro, na sua rudeza, interromperam-lhe o pensamento, num vociferar superior.

São 10 os atributos do Mundo: Sabedoria, Entendimento, Conhecimento, Bondade, Severidade, Harmonia, Perseverança, Esplendor, Apego e realeza…

Os primeiros acordes do som assustaram-no.

– Não me ouve, homem? Vamos lá embora. Chegou o seu dia. E nem todos têm a sorte de entrar aqui no Inverno e ver a queixa ser retirada na Primavera, na altura do feno, ou para fazer a colheita…

Ainda apartado e alheio, ouvia as reverberações distantes, procurando concentrar-se.

– Então? Não me entende? Parece que a sua mulher pobre de espírito não foi capaz de imaginar outra pessoa senão o senhor para a violação da criança. Estava tão obcecada que não parava de pedir-lhe que reconhecesse que tinha sido sua vítima. Para encontrar um bocado de calma depois de tantos interrogatórios a miúda lá confessou que afinal tinha sido um amigo de escola…veja lá. Sempre lhe deu um rebate de consciência. Agora a mãe vai passar também por uns meses de inferno, pela mentira.

Eram Dez os mandamentos da lei de Deus, embora já não estivesse seguro da sua existência, ou se caminhava ao seu lado…10 tinham sido os meses que passara encarcerado…

Cá fora, era a perda. Era uma vida vazia, quando um dia fora tão plena. Tudo num pretérito imperfeito. Porque agora, a sua vida não tinha presente, apenas a ilusão de um possível futuro e os dias que lembrava de um breve e longínquo passado.

Na prisão, tudo parecia ser ontem. Lá fora, sorveu os primeiros goles de ar. Sentou-se num pequeno banco de madeira de um parque, perto de casa. Viu-a passar. Distante, distraída, infantil.

Levantou-se.

Mais um passo, e depois outro. Também ela tinha deixado a prisão da mentira.

Deteve-se. Ao senti-la tão perto. Tão igual e já tão diferente. Mais alta, quem sabe?

Conseguiria ele caminhar até ela? Esse seria, talvez, o seu maior testemunho.

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