Histórias por Contar

Moeda de Troca

Moeda de Troca

Não sabia quando tinha começado, apenas que tinha sido sempre assim. A vida sempre se lhe afigurara na base da dor.

– Entra. Vai partir em breve.

Tinham-na atirado para dentro de um navio, acompanhada de pessoas que não conhecia, com o coração mais apressado que o de um passarinho de gaiola. Os braços pequenos erguiam-se para alcançar a custo a borda. Viu os outros passageiros de lenço branco, a acenar. Ela não o tinha. Nem sequer alguém que lhe acenasse.

– Adeus, Pai, adeus, Mãe…até breve! – Disse para si, mesmo sem ninguém.

Depois, lembra-se do cheiro fétido a suor que predominava no interior, queimando-lhe as entranhas. Lembra-se da sensação de andar aos tombos, conduzida pelo movimento das ondas, perdendo a noção de espaço e de tempo, a noção do eu. Lembra-se de sentir o estômago numa dança nervosa, agoniando-a, arranhando-lhe o esófago, A viagem devia ter sido longa, porque sentiu por longas horas a barriga às voltas e a bexiga apertada.

Talvez tivesse sido essa a primeira vez que se lembrava de ter sentido dor. Antes disso, mesmo antes ainda de saber falar, tinham-na encontrado num caixote do lixo, suja, coberta de larvas e debilitada. Quando pensava nisso, percebia que não devia ter sido um cenário bonito. E a dor tornara-se viciante, o começo de tudo. Quando desceu do navio, o cheiro da terra húmida acordou-lhe os sentidos. Nada se comparava à sensação de solo firme, misturada ao doce cheiro da terra molhada, que lhe lembrava África, longínqua, a quilómetros de distância, guardada apenas na lembrança. Quando a colocaram num comboio rumo a Coimbra B, os olhos perderam novamente parte da cor. Sentou-se na sua carruagem e colou o nariz à janela, à espera de ler o seu destino.

– Olha…uma preta! – Murmuraram as vozes próximas da estação que a analisavam como se de um objecto novo, irreconhecível e indecifrável.

Os olhos saltaram-lhe de admiração.

– Olha! Um…branco! – Gracejou ironicamente.

Lembrava-se do Colégio interno, das freiras, dos castigos, dos terços rezados com os joelhos sobre sal grosso. O arrepio da pele cortada pelas pedras minúsculas e lancinantes. As suas palavras severas e pungentes. “É desta massa que se fazem os santos…”

Como esculpiria Deus o ser humano? Que gesto nos daria vida, nos conferiria vontade? Seria cada um de nós feito de um material diferente?

Muitos eram feitos de força. Outros de bondade, outros apenas de sorte. E qual seria o seu? Não tinha, por certo, sido talhada para a felicidade. Até que concluiu:

Que a maior parte dos seres humanos era tremendamente infeliz porque insistia na sua busca incessante pela felicidade.

Que a felicidade era, para ela, um veículo tão inútil quanto extenuante.

Que haveria outras formas de seguir viagem, noutros meios de transporte, sem a intervenção desnecessária dessa felicidade.

Aprendeu que podia estar a acompanhada da sua própria solidão. Contava-se histórias para adormecer e jogava xadrez com as duas mãos. Lera os livros todos da biblioteca, em busca de definições, de certezas. E percebeu que a memória fazia parte da afirmação da sua existência. Decorava tudo facilmente. Nas aulas era a primeira a colocar o braço no ar, e a última a colocar dúvidas, uma vez que detestava porquês e estava segura das suas certezas. E percebeu que a inteligência era a sua moeda de troca. Que facilmente podia usar-se dela. Que a tornava mais acessível às outras pessoas. Muitos de aproximavam dela, apenas em busca de conhecimento e que podia doseá-lo conforme a sua vontade. Para aproximar ou afastar pessoas. Deixando-se ser usada quando necessário, sem saberem, mais porque ela própria o queria, do que por outras vontades.

Quando entrou em Medicina, encheu o pai de orgulho, lá longe no outro continente. E apercebeu-se que havia trocas mais vantajosas do que outras. Percebeu que a inteligência tinha sido o seu passaporte universal e que, mesmo assim, tinha conferido felicidade a outros, aquilo de que sempre fugira.

Jogou uma moeda ao ar e partiu…

Hoje, estava em Lisboa. E tudo isto lhe vinha à memória, e muito mais. Porque era esse o seu material.

Conheceu-o quando comia uma taça de morangos ao balcão.

Ele viu-a, tão distante da imagem que outras transmitiam. Não buscava o riso avidamente, não corria por êxito ou satisfação. Contudo ardia nela uma centelha miúda de apaziguamento que dava aos outros, como um balão de oxigénio. E ele ensinou-lhe que:

Era tremendamente infeliz porque insistia em fugir da felicidade.

Afinal, a felicidade era extenuante, mas um veículo confortável.

Que, de facto, manter a infelicidade é que era verdadeiramente maçador e extenuante.

Imagine-se dois veículos que deviam partir do mesmo ponto à mesma hora, mas que um se atrasa e depois acaba por se acidentar. Não sabemos o que faríamos, se por acaso, tivéssemos viajado nesse. Sorte. Ele era o veículo para esse próximo estado.

Cansou de usar-se como moeda de troca.

Afinal, escolher o nosso transporte, é um privilégio só nosso. Tal como as diversas velocidades que cada um pode alcançar.

  • Ruben

    Magnífico! A Mónica no seu melhor. Parabéns!

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