Histórias por Contar

Cedo Demais

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– Papá, é hoje que vamos buscar a mamã? – perguntou Duarte aguardando pela resposta do pai, que acenou positivamente.

Sónia e Ricardo constituíam uma típica família portuguesa, saudável, casados há oito anos, pais de Duarte, de cinco anos, com uma vida estável, residentes nos subúrbios de Lisboa e que nunca imaginaram que uma tragédia tomasse conta do lar que haviam construído. Com apenas trinta e dois anos e com uma carreira promissora enquanto gestora de produto numa conceituada marca de electrodomésticos, Sónia deparou-se com uma armadilha da vida. Depois de um desmaio em pleno metro e de ser transportada para o hospital, o pior cenário concretizou-se. Descobriu que tinha um tumor. Com um filho pequeno para criar, um marido perfeito e uma família estável, a jovem via, assim, a vida pregar-lhe uma grande partida que lhe deixaria marcas eternas. A partir daqui os seus dias já não seriam os mesmos e tinha de ser operada o quanto antes. Apesar de não ser um tumor maligno, as dimensões que tinha podiam tornar-se ainda maiores e condicionar-lhe a vida. A cirurgia seria a única forma de tentar defender-se da rasteira que a vida lhe fizera.

Apoiada pelo marido e centrada no futuro do pequeno Duarte, Sónia decidiu sujeitar-se à operação. E assim foi, um mês depois da terrível descoberta, a jovem foi operada numa cirurgia que correu melhor do que aquilo que a equipa médica chegou a imaginar. O problema estava agora nas mazelas com que ficaria. E, ao contrário de tudo aquilo que a equipa média imaginou, o maior problema estava ainda para vir. O tumor fora extraído e com ele uma grande parte da jovem gestora.

Depois de uma intervenção cirúrgica de várias horas, Sónia estava prestes a acordar. Ao seu lado, Ricardo contemplava as feições do rosto daquela que fora a mulher que o fizera olhar a vida de outra forma. Não conseguia imaginar como seria vê-la sem os longos cabelos negros que tantos tratamentos recebiam. De repente, os brilhantes olhos verdes de Sónia abriam-se. Com as lágrimas nos olhos, Ricardo focou o seu olhar no da sua amada e permaneceu o silêncio durante breves instantes.

– O que estou eu aqui a fazer? – questionou Sónia, inquieta.

– Calma, querida. Está tudo bem. Daqui a alguns dias já vais para casa. O Duarte está com a minha mãe e muito empolgado por te ter de volta. – respondeu Ricardo.

– O Duarte? Mas quem é o Duarte? – ripostou a gestora.

A partir daqui, a vida deste casal voltou a ser posta à prova. Assustado, Ricardo pensou que se pudesse tratar de algum delírio da companheira, mas estava enganado. Durante a operação, Sónia perdeu parte da memória e, apesar de se recordar do marido, não se lembrava de que havia sido mãe.

Iniciava-se, deste modo, uma nova luta. Recuperar a memória da esposa. Tarefa que se viria a revelar bastante complicada para Ricardo. Nesse mesmo dia, ao chegar a casa, o pequeno Duarte não perdeu tempo e perguntou, de imediato, ao pai quando iria ver a mãe.

– A mãe ainda está muito fraquinha, filho, vais ter que esperar. – respondeu, com a voz trémula.

Os dias que se seguiram foram de enorme carga emocional para Ricardo. Ao lado da esposa, o bancário tudo fez para a fazer relembrar do filho de ambos. Mostrou-lhe o vídeo do parto, fotografias da primeira festa de anos, o quadro que tinham na sala de estar em que o pequeno Duarte sorria ao colo da mãe na praia. Nada. Por muito que tentasse, Sónia não conseguia lembrar-se daquela pequena criança que havia nascido de dentro de si.

– Como poderia uma mãe não se recordar de alguém que cresceu dentro do seu corpo? – questionava-se Ricardo enquanto dava o almoço à companheira.

Nesse mesmo dia, voltou a falar com o médico responsável pelo acompanhamento do caso da esposa. A situação estava estabilizada e o próximo passo passava agora por recuperar o tempo perdido e “ensinar” a Sónia aquilo que esta havia perdido. Por aconselhamento médico, só depois de ver as fotografias a gestora deveria confrontar-se fisicamente com o pequeno Duarte. A questão agora era se o devia fazer em casa ou no hospital. Depois de muito debater, Ricardo combinou com o médico que o melhor seria que mãe e filho apenas se reencontrassem em casa, uma vez que o facto de estar num local que bem conhecia poderia ajudar Sónia a reconhecer o filho.

Seis dias depois da operação, a gestora estava de volta a casa. Para que o choque não fosse muito grande, Ricardo tentou ao máximo não fazer muito alarido, mas pediu aos familiares mais próximos, pais, sogros e o pequeno Duarte para estarem presentes. À saída do carro, as lágrimas escorriam pelo rosto de Sónia. Feliz por sair do quarto de Hospital, mas triste por não sentir qualquer ligação com a criança de que o marido lhe falara.

– Está tudo bem, querida. Não estejas triste. Os teus pais e os meus estão lá em cima à nossa espera. E o Duarte doido para te ver.

Cada degrau que subia parecia como que uma injeção de força que recebia. Força para encarar aquelas pessoas, força para encarar o mundo depois da grande partida que a vida lhe pregou. Sempre fora uma vencedora e não seria esta infelicidade que a faria desistir.

Ao abrir a porta, Duarte, a explodir de alegria correu para os braços da progenitora. Levava um grande ramo de flores na mão, rosas brancas, as favoritas da mãe.

– Mãezinha, que bom é ter-te de volta! – gritou como nunca o fizera.

Durante a corrida da pequena criança, o mundo de Sónia parou.

– Foi este o rapaz que nasceu do meu ventre? Não o conheço. O que devo fazer? Abraçá-lo? Evitá-lo?

Como que por magia, surgiu, de repente Ricardo que pegou no filho ao colo e disse.

– Dudas, a mamã não tem forças para te pegar ao colo. O papá ajuda-te a dar-lhe um beijinho, vá. Mas com cuidado.

Duarte sorriu e nem desconfiou do que se passava. Mas percebeu o olhar distante e confuso da progenitora.

– Ainda estás doente, mamã? Antes, quando me vias não paravas de me dar miminhos…

Sónia verteu uma lágrima e, sem Ricardo alguma vez imaginar, pegou em Duarte ao colo e disse-lhe ao ouvido:

– A mamã precisa que lhe contes umas coisinhas. Fiquei muito esquecida. Ajudas-me?

Dito isto, a gestora cumprimentou os pais e os sogros, de quem se recordava perfeitamente, e esforçou-se a dar o seu melhor nesta dura guerra.

Os dias foram passando e Sónia começava a recordar-se, com algum esforço de acontecimentos junto do pequeno Duarte. No dia do sexto aniversário da criança, a gestora teve pequenos flashback’s de outras festas de anos do filho. Recordou-se do segundo aniversário, quando o presenteou com um triciclo que a filha da protagonista da telenovela daquela altura utilizava. Comprara-o com o dinheiro que ganhara na lotaria popular.

Embora não se lembra-se de tudo, a cada dia, a cada mês, Sónia tinha progressos. A relação de anteriormente não estava totalmente recuperada, mas sentia-se cada dia melhor. Não mais voltara a trabalhar, pois não conseguia conciliar a recuperação com aquilo que fazia, algo que a deixava transtornada, mas que aceitara perfeitamente.

Durante seis anos, conseguiu ter grandes progressos e encarou o dia-a-dia sempre com um sorriso na cara. Afinal de contas, estava bem perto dos dois homens que mais importância tinham na sua vida.

No entanto, o destino preparava-se para ser novamente cruel com esta família. E a vítima era novamente Sónia. Depois de seis anos de grandes progressos ao lado do pequeno Duarte, uma nova rasteira, desta vez fatal, ditaria o fim dos seus dias.

– Paizinho, a mamã está lá em cima a olhar para mim. Vê bem como aquela estrela está a brilhar, vê, vê! – exclamou Duarte enquanto cumpria o seu ritual diário de ver as estrelas antes de dormir ao lado do seu pai.

– Tens razão, filhote. A mamã finalmente percebeu o quanto a amamos. E está bem melhor do que alguma vez estivera aqui em baixo.

Ricardo deitou o filho e regressou à sala. Olhou para o bloco de notas onde a esposa escrevia, todos os dias, os progressos que fazia com o filho. Pegou-lhe e decidiu transcrever para as folhas de papel aquilo que lhe ia na alma.

Querida Sónia, já passaram dois meses desde o teu terrível desaparecimento. Porque é que te deixei ir sozinha naquele carro? Tenho tantas saudades tuas. Estou a fazer aquilo que me pediste no dia da tua operação. O Duarte está cada vez mais crescido. Todas as noites diz que vê a tua estrela. Eu sei que estás muito bem aí em cima, mas fazias tanta falta aqui em baixo. Dorme bem, eternamente teu. Ricardo.

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