Fora de Série

A Importância da Relação Série-Espectador

Fora de Série2012

Na semana passada, dei por mim com os olhos colados ao segmento de documentários da RTP2, aos sábados depois do jantar, onde se falava desse grande vício que é ver séries. O leitor, que acompanha todos os dias, muitos dos textos que por aqui são publicados, tem, cada vez mais, a percepção de que as séries, com maior peso para aquelas que vêm dos Estados Unidos, têm uma importância cada vez maior na nossa vida. E digo “nossa” porque tal como na sua, a minha está cheia de pequenos momentos em que, sozinho ou acompanhado, espreito o novo episódio e convivo com um mundo totalmente novo e diferente do meu.

Fazer uma série é, claramente, muito complicado. Todo o budget envolvido, toda a equipa criativa e mesmo até as ideias para criar um produto de sucesso são, muitas vezes, escassas. Só aquelas em que há uma perspectiva de futuro, realmente obtêm a luz verde para serem exibidas ao passo que, outras ideias, ou permanecem por águas de bacalhau ou necessitam de ser trabalhadas, com um pouco mais de afinco, porque o potencial ainda não está todo descoberto.

Muitos foram os testemunhos de pessoas que, de uma maneira ou de outra, possuem uma vida dependente das séries. Ver um episódio ao pequeno-almoço, outro ao almoço e uns três ou quatro após o jantar é um luxo a que muitos não têm acesso e, muitas vezes, esses são capazes de, num fim de semana, recuperar esta ou aquela temporada do novo hit da televisão.

O ser humano é um ser de rotina. Gosta de ter o controlo sobre tudo (e sobre todos) para que a sua vida possa parecer o mais normal possível, sem grandes expectativas. No entanto, o ambiente em nosso redor altera a nossa percepção, altera a nossa capacidade de pensar, de esperar pelas coisas, de interpretar. E as séries não são mais do que uma interpretação (válida) de alguém sobre um assunto que, para muitos de nós, não teria qualquer interesse. Aquelas personagens, cujo o mundo alguma vez ansiámos visitar, têm uma vida passada e uma vida no tempo presente (e, porventura, uma vida no tempo futuro – coisa que só pode aparecer na cabeça do criador) e somos como que “obrigados” a viver a vida de outrem. E não são, claramente, todas as vidas das N séries que existem que nos cativam. Há estilos próprios, há atitudes próprias com as quais nos identificamos e esperamos, algum dia, ser capazes de as tomar e de as entender.

Ver séries não é meramente um exercício de entretenimento onde nos deitamos no sofá ou na cama. Há sempre algo por trás, uma mensagem que aquele criador quer fazer passar para o espectador. Seja pela busca de um tempo perdido (“Six Feet Under”), seja pelas mudanças radicais de uma vida, que nos obrigam a repensar todo o nosso jogo (“Breaking Bad”) ou mesmo até dar a conhecer um mundo negro e cru sedento de sangue (“The Shield”, “The Wire”, “The Sopranos”), tudo isto são mundos e mensagens que o viciado em séries quer ver e que necessita de ver. São tudo locais e pessoas e momentos e twists que são diferentes da sua vida, que o fazem escapar desta vida rotineira e que o abraçam, tal como uma mãe abraça um filho, como que para dar conforto e alegria a uma vida, muitas vezes, cinzenta e cheia de pressão.

Venha de onde vier, a série compila diversas personagens e uma história em comum. O espectador cresce com a série, evolui com ela e descobre as suas potencialidades. A cada episódio, a expectativa aumenta sobre o desenrolar de uma situação e a loucura começa. Loucura por saber o que se vai passar, pelos 30 s das promoções, pelos sneak peeks, enfim. E o vício cresce à medida que mais e mais séries entram na nossa vida e as vamos seriando pela mais ou menos favorita e quando damos por nós, acompanhamos 10 a 20 histórias por semana, cada uma diferente da outra, mas que acompanhamos sem nunca as confundir. Somos feitos para vícios, para seguir muitas histórias ao mesmo tempo mas a viver uma e única vez. Mais que os filmes, são aquelas tantas horas de séries que nos levam a experimentar viver mais que uma vez, mais que uma vida, mais do que uma pessoa e de sentir todas as emoções que o outro sente como se fosse real, como se fosse connosco. É, talvez, das experiências que menos arrependo nesta minha vida – a de entender as séries, de as criticar, de as levar a sério como produtos e histórias de vida que são. São o meu escape, a minha maneira de ver o mundo com outra perspectiva porque no fim, apesar de muitos acharem que não, os viciados acabam por ganhar algo, mais não seja, 20 a 40 minutos de sorrisos, de novas atitudes, de novas perspectivas. E se isso se conseguir, então o trabalho da mente que está por detrás da série, está feito.

  • Mb

    Excelente crónica! Subscrevo na integra!

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