Falar Televisão

O preço certo no mercado errado

Fernando Mendes admitiu na Notícias TV desta semana que já sente algum cansaço à frente do concurso Preço Certo. E, de facto, não é para admirar. Senão vejamos: o concurso surgiu nos ecrãs da RTP1 na onda revolucionário implantada por Emídio Rangel, em inícios de 2002. Na linha da televisão pública que se preocupava maioritariamente com as audiências, e no ano em que o euro se tornava moeda oficial também no nosso país, o regresso do formato Preço Certo, grande sucesso já nos anos 80, via assim o pretexto perfeito para o regresso.

Jorge Gabriel fazia os possíveis, de forma competente e profissional. Mas entretanto, a televisão pública tinha mudado. Emídio Rangel tinha sido posto fora e a nova direção trazia à memória noções há muito esquecidas de “serviço público” e “saneamento de contas”. Teoricamente, tinha chegado o fim da era Preço Certo em Euros. Teoricamente. Porque, na prática, apenas se verificou uma mudança na apresentação, com a vinda de Fernando Mendes para o lugar de Jorge Gabriel. Escolha acertada, não haja dúvida, na forma como se transformou numa das principais caras da RTP. Escolha errada, não haja também dúvida, na forma como desvirtuou ainda mais um conceito, por si só, à beira do colapso.

Atualmente, e em especial nos últimos 5/6 anos, o Preço Certo transformou-se num típico concurso do Portugal do Estado Novo. Um Portugal brejeiro e saloio numa caluniosa reprodução da vinda da província até à grande cidade. O que o Preço Certo acha que transmite é um Portugal que acabou há muito tempo. Quem lá vai, é uma minoria (e ainda bem). A minoria que tem paciência de levar os brasões da freguesia e os enchidos lá do fumeiro, e de os oferecer ao São Fernando, padroeiro da ignorância, enquanto ouve uns trocadilhos que tencionam ser humor, e que arrancam as gargalhadas dos Manéis que estão na assistência, munidos do chapéu de palha e do garrafão de vinho.

Pelo menos neste ponto, a Gfk mostra-se a mais fiável ao apostar na minoria que assiste aos finais de tarde da RTP1, mas que Fernando Mendes e a própria Fremantle tencionam a empolar e a generalizar como sendo “o povo português”. Quase ninguém se revê no Preço Certo. E quem se revê, está cansado. Será apenas a privatização da RTP a derradeira solução para acabar com este empecilho?

 

Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close