Falar Televisão

O eterno festival da música nacional

Já lá vão três dias, mas ainda estamos numa fase de «rescaldo» do «Festival da Canção 2012». E, com a informação ainda a circular pela imprensa, não podia deixar de falar daquele que é o grande concurso da música ligeira em Portugal. Mas vamos por partes…

O espectáculo deste ano superou o do ano passado. Também não era difícil, mas é de louvar o esforço do Hugo Andrade, Director de Programas da RTP1; os momentos musicais, com dança e teatralizados, foram muito bons (com as participações de Iolanda e Ana Laíns). O facto de o «Festival» ter saltado do Teatro Camões (onde os concorrentes actuavam e o espaço ecoava!) para o estúdio da RTP, também fez logo com que se caprichasse na produção. O palco não era arrojado, como vemos nos festivais de outros países onde seleccionam as suas músicas, mas também não era um «desconsolo»! Se olharmos para as edições anteriores, este palco só ficou atrás do palco da edição de 2010.

As músicas, este ano, prometiam ser mais cuidadas, mais eurovisivas, mas festivaleiras. Afinal, os compositores foram escolhidos pela RTP com esse propósito… Mas, depois de ouvir as 12 músicas a concurso – e ouvi-las ao vivo é bem melhor e completamente diferente –, reparei que só 4 delas é que se enquadrariam no ESC (Eurovision Song Contest). Não adianta levar uma música cuja letra é bonitinha e perfeita (e a música que levamos este ano ao «Festival Eurovisão da Canção» tem uma boa letra, mas já todos sabemos que o Carlos Coelho é um óptimo letrista!), quando (arrisco-me a dizer) 95% das pessoas que vêem o ESC não percebem «patavina» do que dizemos! O que importa, realmente, é o espectáculo, é o que a música transmite mesmo quando não se percebe o que se diz. Essa força tivemo-la quando levámos, em 2008, «Senhora do Mar». E, este ano, só quatro músicas passavam essa barreira da transmissão de sentimentos, de fazer vibrar, de se emocionar quando não se percebe o que se diz: foram as músicas do Ricardo Soler, do Carlos Costa, do Rui Andrade e da Filipa Sousa. De resto, eram todas e, apenas, musiquinhas; podem servir para «pano de fundo» das novelas, mas nunca num concurso com a envergadura do «Festival Eurovisão da Canção»! Se a música vencedora foi a melhor? Sim, foi. Não tem a força da «Senhora do Mar», é inferior, mas tem força. E o mais curioso é que ganhou uma dupla de compositores que nem fazia parte da selecção inicial da RTP (eles só compuseram «Vida Minha» porque houve a desistência de um compositor)…

O júri nacional/distrital é algo que ainda continua a fazer-me confusão! Principalmente quando ele é composto, maioritariamente, por pessoas ligadas ao Conservatório. E ter DJ’s no júri? Ou cantores rock? É que música não é só a clássica, nem apenas baladas! E não estou a ver um professor que passa o dia a tocar flauta ou agarrado às teclas de um piano a dar a pontuação máxima a uma música pop/rock. Deveria preferir levar uma facada num rim! E se é para uma música pop levar 0 pontos, então que o Regulamento do «Festival da Canção» dite que esse estilo musical está proibido no concurso. Tendo este júri 50% da decisão, obviamente que o público, com os outros 50%, não faz milagres! Em 2010 houve assobios por não ter ganho «Canta Por Mim» (lá está, uma música pop que não «convenceu» o júri)… É verdade que no ano passado também houve assobios por terem ganho os Homens da Luta, mas sabem, apesar de não serem os meus preferidos, fiquei feliz por terem ganho, pois no ano passado a vontade dos telespectadores sobrepôs-se à vontade do júri nacional. Afinal, quem vota no ESC são os telespectadores e não as pessoas entendidas no assunto! E o que a RTP ainda não percebeu, bem como o júri nacional, é que o «Festival Eurovisão da Canção» não é (só) música; o «Festival Eurovisão da Canção» é espectáculo! E é nisso que têm que apostar. Mas se começarmos logo, no «Festival da Canção», com um júri a cheirar a mofo saído dos festivais da década de 70, então assim não vamos lá…

Em relação aos apresentadores, não há nada a apontar. Só se pode mesmo destacar o facto de terem estado em perfeita sintonia. Uma dupla que, se for possível, se poderá (ou deveria!) repetir no próximo ano. Até deu uma certa nostalgia vê-los aos dois… isto para quem se lembra das temporadas iniciais do «Ídolos»!

A audiência, essa, deixou um pouco a desejar. Mas já era de esperar. Com a Marktest, nunca foi arrojada (nos últimos anos), então com a GfK… Mas, independentemente disso, o que importa é que o «Festival da Canção» está vivo e, a chegar aos 50 anos, continua a ser o palco da música original portuguesa e a divulgação (nem que seja por um dia!) das vozes nacionais.

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  • João Carvalho

    Junto à lista das melhores músicas desta edição, a da Joana Leite. O instrumental era brilhante, a vocalista é que não esteve bem… Com a Marisa Liz à frente, era música para vencer cá e brilhar lá fora!

    • Tiago

      Só foi pena a Joana Leite ter desafinado imenso e estragado a canção mas mesmo que fosse afinada, na minha opinião, dentro das que tínhamos não era a mais brilhante para o ESC.

  • Antoniomendonca

    Erraste: na Eurovisão vota o publico e tambem o juri, 50% / 50% tal e qual como aconteceu no festival da canção.

  • Concorrer ao Festival da Canção é algo que faz as pessoas pensarem em grandes poemas que têm que ser cantados em 3 minutos, é desta forma que muitos cantores e compositores pensam quando o fazem, isto tem-se observado ao longo destes 48 anos deste certame. Uma grande canção não é só uma grande letra, mas sim todo um conjunto, tal como sonoridadade e hoje em dia a imagem tem muita importância para o sucesso da mesma. Esta edição, na maior parte dos casos, sofreu do mesmo mal, letra, letra e mais letra e pouca sonoridade apelativa e espectacularidade. Pensa-se neste certame sem grandes metas, aliás, hoje participam nem sei bem porquê, talvez pela história, curriculum, fetiche, …, poucos são os que concorrem para ganhar. E quando se chega ao certame internacional é previsivel o resultado final, raramente concorremos para ganhar. Culpa de quem? De todos, desde a RTP, aos concorrentes e até ao público. O nosso desaire deve-se principalmente a nós e à nossa atitude. Desde o inicio começamos com uma atitude negativa pejada de saudosismos e nacionalismos exagerados, temos medo de experimentar e de ser ousados e estamos à margem da realidade e do tempo actual.

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