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Falar_Televisao 2012

Falar_Televisao 2012

Invariavelmente quando se falam de audiências, os comentários que apelidam de «lixo» os programas mais vistos da televisão portuguesa excedem inclusivamente os que apoiam os formatos. A verdade é que eles lá estão, mas porque será?

Há muito que a televisão dos anos 50 que se queria cultural e impunha todos os produtos com pretensões culturais ao serviço do monopólio- não esquecer que só existia a televisão estatal- e formava os gostos do grande público deixou de existir. Com o aparecimento das privadas no início dos anos 90, os gostos passaram a ser explorados e bajulados de forma a atingir-se uma audiência muito mais ampla, em que os conteúdos surgem ao ritmo da vida quotidiana e são cada vez menos singulares, visando ser vistos por toda a família e por consequência atingir todo o público. Aos espectadores passaram-se a oferecer produtos em bruto, cujo paradigma são os talk shows, a coqueluche no início do canal de Carnaxide e de Queluz de Baixo, que exibem sem filtros as experiências vividas pelas pessoas contadas na primeira pessoa, numa clara satisfação do voyeurismo e do exibicionismo inerente ao ser humano.

Se antigamente os programas era definidos com as funções de educar, informar e distrair, a guerra de audiências, com o aparecimento da privadas, mutou a oferta e a própria relação do publico com a televisão que passou a usar o pequeno ecrã para se distrair, convencer e comprar, onde SIC e TVI impuseram a função económica à função social. A televisão, que passou a ser gerida pelo monopólio das privadas, deixou então de ser um espaço de formação para passar a ser um espaço de convívio. Deixámos de ter uma televisão que apele ao sentido critico e passámos a ser convidados apenas a sentir e vibrar com os programas.

Este cenário é determinado pelas audiências, que comandam a produção televisiva ao ritmo das suas preferências, onde a televisão enquanto objeto comercial responde à procura que pretende satisfazer o público e vender ao máximo os produtos dos anunciantes, resultado de uma estreita e perigosa ligação com o mercado. Impera no pequeno ecrã aquilo que se julga ser o gosto do publico que passou a ser participante e que se vê repetidamente no papel de «ator» de um formato no epicentro desta mudança que impõe a sociabilidade e essa representação no seio do mercado: os chamados reality shows. O formato, principal culpado das criticas com que iniciei esta cronica, encurtou a distância entre a realidade e a ficção, numa espécie de espelho social, em que, do ponto de vista comercial, quanto mais nos virmos ao espelho, melhor. É triste, mas verdade…

  • Pedro R.

    Gostei da crítica, sim senhor. Mas não acho que seja triste termos o formato reality-show como espelho do telespectador. Noutros países (os saxónicos são, creio, o expoente máximo), o tele-lixo é feito há muito mais anos e ocupa muito mais espaço em grelha. O que, na minha opinião, aconteceu foi a redução da audiência dos canais abertos (os motivos são imensos, não vale a pena referi-los) e as televisões têm de fazer o que for preciso para manter as audiências, com custos mais baixos. É a vida…O país tem um mercado reduzidíssimo para manter tanto canal privado, os custos de programação são enormes e uma pop. com 10 milhões de habitantes não ajuda em nada. Só para se ter uma ideia, São Paulo, no Brasil, tem mais habitantes que Portugal mas as emissoras deste estado são afiliadas, produzindo apenas jornalísticos com poucas horas de duração ou um ou outro programa de variedades, normalmente, semanal. Não têm de criar uma programação inteira (tirando o caso da SIC que confia parte da função à Globo). Temos de reconhecer, com maior ou menor qualidade, o esforço que as nossas emissoras fazem para manter a programação que têm. Outra coisa, a RTP de Moniz e de Rangel também enveredou por caminhos muito pouco sãos. Antes da chegada de Almerindo Marques, a RTP era tão comercial quanto as outras, embora com menos eficácia e, reconheça-se, menos porcaria na programação mas, mesmo assim, com muitos pontos fracos.
    Obrigado por me fazer deixar de estudar por uns minutos. Continue o bom trabalho.

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