A Entrevista Rubricas

A Entrevista – Rui Vilhena

Estreou-se como argumentista na RTP mas foi na TVI que viu o maior reconhecimento por parte do público. A sua primeira novela foi Terra Mãe (em 1998) e mesmo que Ninguém como Tu seja uma das novelas que os portugueses mais se recordam, para Rui Vilhena todos os seus projetos são «filhos». É com saudade que o autor que completa amanhã as suas 53 primaveras recorda os seus tempos na TVI onde se despediu em 2011 com a novela Sedução.

Numa entrevista pouco dada ao conformismo, o autor prestes a estrear-se a solo na TV Globo com a novela Boogie Oogie revela os segredos para o seu êxito na ficção. Sempre preocupado com as audiências e com a opinião do público, Rui diz-se não manter fiel à sua escrita porque é «necessário surpreender» e mesmo que a história já tenha sido contada, o truque é construí-la «de uma maneira em que ainda não foi vista».

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Como é escrever uma novela e chegar-se ao produto final?

A novela nasce com uma ideia central e tem que ser uma ideia que você saiba que possa ser desmembrada em diversos capítulos, porque uma coisa é uma série, um telefilme e outra uma novela. Uma novela (a sua história) tem que ter a capacidade de ser esticada, tendo de ter vários pontos de viragem para se manter sempre surpreendente para o público que assiste. Portanto quando se tem uma ideia para uma novela tem que se focar nisso.

Nas suas novelas houve alguma situação em que a opinião do público mudou por completo o destino que queria dar a determinada personagem?

No meu tempo, em Portugal  era um pouco mais difícil porque nós estávamos muito à frente do episódio que era exibido no canal (aconteceu estarmos a cem episódios à frente), portanto mudar alguma coisa era praticamente impossível. Agora, em relação aos finais – quando as revistas começavam a publicar a opinião do público do que achavam que iria ser o final – eu já alterei alguns. Se o público está à espera de um final que eu percebo que é o meu, vou mudar porque senão não existe aquele elemento surpresa.

O Rui é conhecido por querer surpreender sempre os seus telespectadores, porém a imprensa muitas das vezes acaba por decifrar os grandes mistérios. Para si, a imprensa é um bom ou mau aliado?

Acho que funciona dos dois lados. Você tem que saber relacionar com a imprensa a favor da novela. A novela não vive sem a “publicidade” dos media, mas você tem de tentar esconder da imprensa o que você considera que se o público soubesse iria perder a graça de assistir à novela.

A sua primeira novela escrita foi Terra Mãe (para a RTP). Desde aí nunca mais parou. Para si qual foi o projecto que mais gozo lhe deu?

O projecto que mais gozo dá é sempre o último. São todos, não tenho nenhum projecto que deu mais gozo. Não posso dizer que há um que é melhor que aquele. São todos «filhos».

Ainda assim Ninguém como Tu foi a novela que teve mais sucesso. Qual foi o segredo para esse êxito? (Estamos a falar de uma altura em que a ficção brasileira dominava as audiências em Portugal)

Eu acho que para uma novela ter sucesso é preciso que tenha primeiro uma grande história. (Se não tiver uma grande história não funciona). Foi uma novela onde tudo funcionou: os artistas, o figurino, a direcção. Portanto, quando todos esses elementos estão sincronizados, a novela «ganha». A novela tinha uma excelente equipa mas acho que fundamentalmente o Ninguém como Tu apareceu com uma linguagem acelerada e pouco habitual nas novelas anteriores. A novela mudou, nesse aspecto, a dramaturgia portuguesa.

A pergunta Quem Matou António? (referente à novela Ninguém como Tu) ficou na memória dos portugueses. A Guida foi sempre a escolhida ou foi um final pensado à última da hora?

Eu tinha várias personagens que poderiam ser o assassino. Eu tentei não pensar nisso muito antes. Eu tinha três ou quatro que eram os meus favoritos. No fim, eu fiquei indeciso entre Gabriel (Pedro Lima) e Guida (Sofia Aparício). Ela ficou a escolhida quando a TV Guia (na altura) avançou com o nome do Gabriel. Aí, ele ficou automaticamente fora do baralho.

O Rui voltou a ser a «arma» da TVI para conquistar o horário das 14h, tendo sido retransmitido Ninguém como Tu e Tempo de Viver. Ambas conquistaram audiências há muito não vistas naquele horário. Considera isso como um sinal em que os portugueses têm saudades da sua escrita?

Eu não posso responder a essa pergunta, mas se elas tiveram uma excelente audiência no horário em que foi transmitido, os números indicam que o público pode eventualmente ter saudades desse tipo de história.

Perante esse sucesso no horário das 14h, é caso para dizer que vale a pena um dia a TVI apostar em remakes?

Eu acho que ainda é cedo. Para haver um remake da novela que foi transmitida, acho que deveria passar, pelo menos, vinte anos.

Foi o responsável também por adaptar Equador. Para si, seduz-lhe mais escrever uma série ou uma novela?

Eu não quero ser apenas um autor de novelas como um autor de séries. Acho que como qualquer artista, quero fazer um pouco de tudo: quero escrever teatro, escrever cinema. Acho até benéfico essa mudança para a nossa criatividade porque são géneros que vivem de linguagem completamente diferente.

As audiências de Olhos nos Olhos e Sedução ficaram aquém das expectativas. Para si o que é que não resultou?

Não podemos considerar que as novelas foram um «insucesso», porque no horário em que eram transmitidas sempre foram líderes. Se a concorrência tivesse a ganhar aí podíamos ter outra opinião. Agora não pode haver uma novela em que três/quatro dias depois de estar no ar, ela mudar de horário. Ninguém como Tu e Tempo de Viver nunca mudaram de horário. Se eu estou a ver uma novela e ela muda de horário, eu não vou mais assistir porque eu programo-me para assistir uma série naquele dia, naquela hora, naquele canal. Se o canal muda de ideia, eu vou procurar outra coisa noutro lugar.

Uma das razões apontadas foi a estratégia da TVI em empurrar as novelas para mais tarde. Saiu da TVI com alguma mágoa?

Maneira nenhuma. Eu fui muito feliz na TVI. Eu apenas não concordei com a mudança de horário de Sedução porque na realidade não percebi o critério. A primeira semana de Sedução teve uma audiência maior que a primeira semana da novela anterior. Ora se essa novela anterior continuou no horário e eu tive apenas uma semana no primeiro horário, não entendo. Há outras coisas por trás. Eu fui muito feliz na TVI, não tenho absolutamente mágoa nenhuma. Conheci pessoas incríveis, fiz amizades maravilhosas e tenho saudades até. Houve um episódio desagradável que foi esse, mas faz parte.

Saiu da TVI numa altura em que o canal tinha o chamado monopólio da ficção (ou seja, salva excepções, todas as suas novelas eram líderes). Porém, a ficção brasileira voltou a conquistar a preferência dos portugueses e a TVI tem perdido cada vez mais público.

Eu acredito que as estações tenham estudos que demonstram os problemas e que tentam encontrar uma solução. Agora (para mim) o que é fundamental é a novela ter sempre uma boa história. Deve haver n factores para essa perda de público mas eu não posso pronunciar uma coisa em que não estou por dentro.

Considera um retrocesso na ficção portuguesa a estratégia da TVI em voltar com as adaptações?

A entidade que poderia responder a essa pergunta seria o próprio canal porque é quem sabe os projectos que tem em mãos ou a linha estratégica que quer seguir. Numa novela original é preciso ter uma boa história, mas qualquer maneira uma adaptação também não é fácil porque você tem que adaptar aquela história a uma realidade portuguesa. A adaptação torna-se muito complicada e não é porque uma novela foi um sucesso num país que vai ser noutro, até porque as realidades são completamente diferentes.

José Eduardo Moniz está de regresso à TVI. É uma «mais-valia» para a estação?

É sempre uma grande mais-valia ter o José Eduardo Moniz porque é uma pessoa que entende muito de televisão e que está muito por dentro da ficção. E acredito que muita coisa vai mudar.

Porque é que quis ir trabalhar para o Brasil? Estar em Portugal já não o satisfazia?

Quem trabalha com novelas sonha um dia trabalhar com a TV Globo. É um prazer e um privilégio muito grande fazer parte de uma casa como a TV Globo que é a maior produtora de novelas de todo o mundo.

A TVI tentou persuadir a sua saída, oferecendo novas regalias?

Quando anunciei a minha vontade, eles foram impecáveis. Eles entenderam perfeitamente a minha decisão, foram muito simpáticos até.

O seu primeiro trabalho na TV Globo foi supervisionar Fina Estampa que se tornou um fenómeno de audiências tanto aqui como no Brasil. Como foi trabalhar com Aguinaldo Silva?

É sempre um prazer trabalhar com Aguinaldo Silva. Primeiro porque gosto muito do estilo dele. O Aguinaldo é uma pessoa atenta à teledramaturgia. É um ícone e uma pessoa generosa em dividir o seu conhecimento, portanto para a minha carreira foi muito importante esta colaboração.

Portugal já tem dois Emmy’s e quatro nomeações, por isso já há um reconhecimento internacional. Acredita que se a categoria de melhor telenovela existisse há mais tempo, já tinha no seu currículo uma estatueta?

Eu não penso muito nisso. Nunca parei para pensar. Não é uma coisa que ocupe o dia a pensar nisso.

No Brasil, a ficção também tem perdido algum público. Aponta que razões para essa “falta” de interesse?

Acho que se vai ter que encontrar uma maneira diferente para medir as audiências de hoje-em-dia. Vejamos, você não é obrigado a assistir a uma novela no horário em que é transmitido. Por exemplo, eu posso gravar e ver os três capítulos que não vi no sábado. Existe ainda pessoas que vêm a novela na internet e isso não é contabilizado. Como é que você sabe que a novela é vista por uma grande fatia do público? É quando você sabe que todo o mundo comenta nas redes sociais, todo o mundo conhece a história, todo o mundo fala. Há muita gente que não acompanha a novela na hora em que ela é transmitida.

Preocupam-lhe as audiências?

Claro. Todo o mundo preocupa-se com as audiências (risos)

O Rui vai escrever a sua primeira novela a solo para o horário das 18h (seis). Para si é o horário ideal ou sonha com o tão desejado horário das 21h (nove)?

Eu gostaria de escrever uma novela para o horário das 21h mas não é uma coisa que ocupe o meu pensamento. O meu objectivo é escrever uma boa novela, seja para que horário for. Quando eu tenho um trabalho, o meu objectivo é fazer sempre bem. Não sou de traçar metas porque as coisas surgem naturalmente como resultado do teu trabalho. Se o teu trabalho é positivo, se ele é bem aceite, tudo se encaixa naturalmente logo não vale a pena pensar nisso.

A imprensa brasileira referiu que havia alguns autores descontentes com a aposta da TV Globo em si. Sentiu-se alguma vez descriminado?

Não e acho que isso foi até uma coisa da imprensa. Sempre fui muito bem tratado, não só pela TV Globo como pelos colegas de trabalho. Desde o primeiro dia que sou muito acarinhado. Sinceramente não sei de onde isso surgiu.

Um regresso a Portugal é uma possibilidade no futuro ou uma miragem?

Depois desta novela, o meu contrato de exclusividade continua. Não faz sentido pensar nisso atualmente até porque foi o que disse há bocado, as coisas acontecem naturalmente. Eu estou feliz na Globo e com o meu trabalho. A gente tem que estar onde a gente é feliz tal como era na época em que estive na TVI.

Os tempos são outros. Hoje o público é mais exigente. Perante isso, sente que tem necessidade de mudar o seu estilo de escrita ou mantém-se ainda fiel?

Não me mantenho fiel porque o grande desafio de qualquer artista de hoje (seja autor de novelas, seja ator ou músico) é manter-se relevante. Se você ver uma novela minha e dizer: «tudo bem, a novela é gira mas já vi, é igual à anterior. Ele não muda, ele não consegue fazer nada de diferente» é mau, no sentido em que nós trabalhamos com a ditadura do comando, ou seja, as pessoas mudam de canal facilmente. Então é necessário surpreender, contar uma história que já foi contada de uma maneira em que ela ainda não foi vista.

Falemos agora da sua primeira novela a solo.

Há muita coisa que ainda é segredo. Ainda é cedo. (risos)

Boogie Oogie é o nome definitivo. Qual é a sua origem?

A novela passa-se na década de 1970. Boogie era uma palavra que se usava quase sempre. Todas as músicas dos anos 70 tinham a palavra boogie. É um tipo que reflecte bem o clima da novela, a época desta.

Nessa novela teremos também algum mistério-chave que é tão característico da sua escrita?

Claro. Toda a novela tem de ter mistério, toda a novela tem de ter um grande vilão. É regra do folhetim. E a novela vai ter um elenco mesmo de luxo. Tenho o privilégio de trabalhar com nomes tão conceituados na representação brasileira.

A SIC detém os direitos de transmissão de toda a ficção produzida pela TV Globo. Espera que o canal transmita a sua novela?

Claro, seria muito bom e assim os portugueses podiam acompanhar o meu novo trabalho.

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andreskizzo .Marta Clemente Recent comment authors
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Marta Clemente
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Marta Clemente

“a ficção brasileira voltou a conquistar a preferência dos portugueses”
Acho que antes de mais nada foi a ficção nacional da SIC, eventualmente em co-produção, que conquistou essa preferência.
“Terra Mãe” para mim foi a melhor novela deste autor, embora “Ninguém como Tu” também tenha sido muito boa. A partir daí foi sempre a piorar.

andreskizzo .
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andreskizzo .

A melhor novela dele, foi de longe, Tempo De Viver. Emocionante e intrigante do inicio ao fim. Faz muita falta à TVI e à ficção nacional.

ATV News


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