A Entrevista

A Entrevista – Fernando Daniel | The Voice Portugal

Fernando Daniel, da equipa do mentor Mickael Carreira, foi o grande vencedor da quarta edição do The Voice Portugal, que terminou no passado domingo. O jovem de 20 anos esteve à conversa com o A Televisão onde confidenciou que a esperada vitória, para muitos, foi o culminar de um percurso cheio de altos e baixos mas sempre prazeroso. Já com convites do estrangeiro, o próximo passo é agora consolidar-se no atual panorama musical português mas a pensar, a médio e longo prazo, numa carreira internacional. Quanto às críticas, a resposta é dada sem problemas: «Eu vou continuar a ser o mesmo e esperar que percebam quem eu sou».

És a nova Voz de Portugal. Qual foi o teu primeiro pensamento quando a Catarina Furtado e Vasco Palmeirim anunciaram-te como o vencedor do The Voice 2016?

Na altura, eu ajoelhei-me no chão e foi mesmo instintivo. Se o [Francisco] Murta ganhasse, eu iria ajoelhar-me na mesma porque houve tanta pressão que o meu limite foi atingido e eu tinha de quebrar e de rebentar, o que acabou por acontecer. Ter ouvido o meu nome foi um respirar de alívio, foi aquela sensação de “eu consegui!”.

Sempre foste apontado como um dos fortes candidatos à vitória. Ainda assim, a meio da última gala foste ultrapassado pelo Francisco Murta que tinha assim conquistado a preferência nas votações. Como é que geriste esse momento?

Eu sabia que podia correr esse risco de estar em segundo lugar. Tentei manter a calma e mostrar que estava tudo alinhado e que seria o que Deus quisesse. Eu sabia que até ao final do programa tudo podia mudar e eu ainda tinha o meu trunfo que seria o tema Chandelier da Sia. Eu tentei dar tudo e correu bem.

Apesar de seres um dos favoritos, foi difícil chegar à final?

É sempre difícil chegar à final quando se tem concorrentes tão bons e quando não se sabe o que é que os portugueses gostam. Às vezes as pessoas colocavam-me num pedestal mas eu desvalorizava porque somos todos iguais, partimos todos do mesmo e temos o mesmo valor. Uma coisa é ter qualidade outra coisa é receber votos dos portugueses.

E foi fácil gerir a popularidade que conquistaste ao longo dos meses de emissão do programa?

Sim, acho que sim. Essa popularidade que falas fez bem ao ego e à auto-estima mas eu pensei logo “As pessoas vão estar à espera que me encoste com isto” portanto eu sempre quis mostrar que isso nunca iria acontecer. Eu meti-me sempre à margem desses favoritismos todos porque achei que tinha de me concentrar na etapa em que estava e na seguinte. Caso contrário, ia acabar por espalhar-me.

Dedicas esta vitória a quem?

Dedico, em primeiro lugar, a mim. Depois à minha família, à minha namorada e, claro, a todas as pessoas que acreditaram em mim e lutaram até à exaustão.

O apoio da família foi meio caminho andado para a vitória no The Voice?

Sem dúvida! O apoio da minha família foi realmente muito importante porque é a nossa base. Se alguma coisa corre mal é neles que nos vamos refugiar.

O Fernando da prova cega foi o mesmo Fernando da final?

O Fernando foi o mesmo ao longo do programa mas, claro, houve alguma evolução até ao nível de encarar as câmaras e essas coisas. Eu fui sempre consistente e acho que deu para mostrar às pessoas que queria muito isto. É bom ser falado pelas boas razões, mais ainda quando falam de nós pelo nosso trabalho e não porque querem difamar. É importante as pessoas falarem de nós seja de qualquer maneira porque dão-nos a conhecer.

O que retiras de toda esta experiência no The Voice?

Retiro boas amizades e, sobretudo, grandes conhecimentos a nível de produção e até dos próprios mentores que ajudaram-me sempre. A Marisa [Liz], por exemplo, disse-me que estava cá para ajudar em tudo o que eu precisasse. Foi bom ouvir a Aurea dizer que estava magoada por eu não a ter escolhido, embora talvez não tenha sido agradável para o Francisco [Murta]. Mas é bom saber que marcámos os outros mentores e na final pude perceber isso através da “dor de cotovelo” que o Anselmo [Ralph] falou.

Sentiste, por exemplo, essa «dor de cotovelo» entre os teus colegas? 

Senti alguma “inveja”. Às vezes, sentia algumas pessoas muito estranhas comigo mas eu não podia fazer nada. Ficava triste com isso porque eu estava no The Voice por um sonho e não tive culpa de chegar e ter dado o “boom” que os outros não deram.

De todos os concorrentes, sentias-te o menos politicamente correto? 

Eu sou verdadeiro e honesto naquilo que digo. As coisas são para ser ditas e mostradas como elas são. Quando erro, digo que erro porque todos nós errámos e não há mal nenhum assumir isso. Agora se estou aqui para ganhar, não vou mascarar essa minha derrota com o “Ai já foi bom chegar aqui”. Isso é ter falsa modéstia e reparei em pessoas que entraram nesse campo.

O que é que foi mais difícil?

O mais difícil foi sentir a pressão das pessoas que queriam sempre ver uma atuação como a da prova cega. Quando isso não acontecia, caíam-me sempre em cima. Começaram a dizer que eu não era versátil e que havia pessoas mais versáteis que eu quando na verdade neste programa cada um seguiu o seu registo e nunca houve versatilidade. Versatilidade é quando uma pessoa canta numa gala rock, fado noutra e por aí fora. Isso é ser versátil. Eu não fui versátil porque preferi jogar pelo seguro. Se eu quero ganhar não vou armar-me em chico esperto e ir para uma zona onde não tenho capacidade para estar.

Na tua apresentação no site da RTP 1 lê-se que “daqui a 3 anos imaginas com um disco gravado e com toda a gente a cantar as tuas músicas”. Já há garantia de um álbum. O mais difícil agora é o quê?

O álbum ainda não está garantido. Não sei se será um single ou um álbum. O prémio é um álbum mas há aquela possibilidade de ser apenas um single. Ainda é aquela “Vamos ver como corre!”. Mas respondendo à tua pergunta, o mais difícil é chegar às pessoas certas. Para mim, o público certo são todas as pessoas que apreciam música. Só que depois há o público que ajuda mais e o público que aprecia mas que não divulga tanto. Prefiro aquele público que vá aos concertos, que compre os discos e que vibre com a situação. Eu encontro isso, em primeiro lugar, no sexo feminino e depois na faixa etária a partir dos 13/14 anos até aos 30 anos. Sinto que já conquistei esses públicos, mas o difícil agora é manter o público interessado.

Um conhecido jornal espanhol definiu-te como um artista capaz de encher estádios em todo o mundo. Quais são as tuas maiores ambições?

Quando o jornal escreveu isso, eu pensei “Fogo, até que enfim que alguém diz aquilo que eu quero ouvir e que vai ao encontro daquilo que eu quero um dia” que é encher realmente estádios e percorrer o mundo fora. Sinto que ao longo do programa fui perdendo a ambição de falar sobre o estrangeiro porque na verdade tinha que apelar ao voto e não podia estar a divagar. Quero ter uma carreira em Portugal mas quero também ir lá para fora.

O público estrangeiro dá mais valor à música?

Acho que o público estrangeiro dá mais valor àquilo que eu sou. Vou dar um exemplo, eu vejo isso muito com o [Cristiano] Ronaldo. Muitas pessoas gostam dele mas outras dizem que nem o podem ver. As pessoas acham-no convencido mas eu vejo ambição e foco nos seus objetivos. Eu vejo-me nesse papel porque sinto que as pessoas gostam e tal mas desdenham-se sempre com a necessidade de dizer “Ah aquele é melhor”. A minha prova cega foi considerada a melhor de 2016 a nível mundial e houve pessoas a comentar algo do género “Este num The Voice americano nem passava das provas cegas”. E são portugueses a comentar! Porque é que as pessoas têm essa maldade dentro delas? É um bocadinho difícil compreender.

Como é que tu lidas com essas críticas? 

Há quem me chame de convencido mas são opiniões e eu só tenho de as respeitar. Cada um tem direito à sua opinião. Eu posso gostar de peixe, mas tu não e não é por isso que tenho de cair em cima de ti e vir com lições de moral. As pessoas confundem muito o “ser convencido” do “ser frontal” ou “agarrar o touro pelos cornos” como se costuma dizer. A minha forma de ser, se calhar, leva as pessoas a pensarem isso mas o que eu tenho a dizer, eu digo. Há pessoas que são super injustas porque não me conhecem mas eu vou continuar a ser o mesmo e esperar que percebam quem eu sou.

Na primeira vez que falei contigo, a propósito da tua prova cega ter ultrapassado fronteiras, disseste que sentias que estavas a viver um sonho. Ainda sentes isso ou a ficha já te caiu? 

[Risos] A ficha caiu-me no dia em que fui para casa, logo após a gala final. Para um artista ou para alguém que está a começar a ser um artista, é bom ter esse carinho do público e eu adoro quando as pessoas vêm falar comigo na rua para pedir um autografo ou uma selfie. Às vezes posso estar chateado com alguma coisa e este carinho alegra-me o dia.

Disseste também que eras uma pessoa sonhadora mas muito terra-a-terra. Essa tua genuinidade foi a chave de todo este sucesso?

Acho que ser verdadeiro, honesto aos meus princípios e fiel a tudo aquilo que aprendi durante a minha vida levaram a este meu sucesso. É crucial manter essa humildade e esses pés bem assentes no chão até porque as pessoas não gostam de super stars, mas sim de evolução e de aprendizagem. Eu ainda tenho muita coisa para conquistar, aprender e até melhorar. Estamos sempre a evoluir seja como pessoa seja como artista.

O que é que podemos esperar do teu álbum de estreia?

Muito sentimento e músicas muito pessoais. Quem sabe uma ou duas versões de músicas já existentes. Eu vou ver o que corre melhor mas quero testar os dois lados da moeda [músicas portuguesas e inglesas]. Eu pretendo conquistar ainda o público português que é esse o público que me divulgará lá fora. No mínimo, há 100 portugueses em qualquer país e ter esse público a orgulhar-se de nós vai fazer com que o meu trabalho seja partilhado.

E um dueto, por exemplo, com o Mickael Carreira?

Nunca se sabe. A discográfica é a mesma e, como tal, poderá haver essa possibilidade.

Como é que defines a tua relação com o Mickael? Sentes que deixou de ser aquela “obrigação profissional” para ser uma relação mais próxima e pessoal?

Ao início era aquela coisa “É o nosso mentor, é o Mickael Carreira” mas aos poucos começámos a quebrar algumas barreiras. A proximidade é muito bom e já há aquela ligação mais amigável. No início tinha aquele típico discurso “Olá, Mickael, tudo bem? É o Fernando. É só para pedir se fosse possível…” [risos].

O The Voice Portugal está de regresso em 2017 para uma quinta edição. Para ti, o que é que define um bom concorrente? 

Ter os pés bem assentes no chão mas sonhar! Um bom concorrente tem de ter muita humildade, muita ambição e nunca esquecer de onde veio e o que teve de passar para chegar onde chegou. Temos que ser nós próprios e nunca ter medo do que as pessoas vão pensar. Se tiverem que gostar, elas vão gostar! Se não gostarem é porque nós não nascemos para isto.

Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close