A Entrevista

A Entrevista – Especial «Altos & Baixos»

Daniel Leitão. Joana Marques. Sim, é difícil enquadrar estes dois num plano. No entanto, com um programa no ar há quase dois anos, os astros indicam que a coisa até está a correr relativamente bem. Chama-se Altos & Baixos, passa no Canal Q e podia ser mais um Isto Só Vídeo ou um um Gosto Disto!, mas não é.

«Felizmente conseguimos dar um rumo diferente e um cunho próprio ao programa, e aí começámos a sentir que estava a funcionar», esclarece o «grandalhão». Já a apresentadora, uma «miúda de 1m53», acredita que o Altos & Baixos é «uma fórmula muito simples e eficaz, que podia ter sucesso em qualquer canal». Portanto, o A Televisão quis perceber que raio de sucesso é este e entrevistou os protagonistas: Daniel e Joana. Eis o resultado…

– Vamos lá começar esta entrevista. Daniel e Joana, apresentem-se aos leitores do A Televisão.

Daniel Leitão: Sou um «jovem» de 32 anos, licenciado em Gestão de Empresas, que um dia resolveu fazer um workshop de escrita de humor. Ao que parece, uma das formadoras até achou que eu nem dava muitos erros ortográficos, e que tinha uma caligrafia bonita, e resolveu desafiar-me para escrever para alguns programas de humor, de rádio e televisão. Entretanto, ao ver um espectáculo de stand up, pensei «Co’a breca, isto deve ser uma experiência espetacular». E decidi concorrer ao Caça ao Cómico, do Canal Q, que acabei por vencer, sem ter que coagir fisicamente nenhum dos jurados. A partir daí, as coisas foram acontecendo.

Joana Marques: Sou uma miúda de 1m53, espectadora compulsiva de televisão e guionista há sete anos, nas Produções Fictícias. Continuo a escrever guiões para diversos projetos (televisão, rádio, eventos, etc.), mas agora passei também a dar a cara, no Canal Q, e a voz, nas Manhãs da 3, na Antena 3.

– Como é que surgiu a ideia de criar o Altos & Baixos?

DL: A ideia surgiu na cabeça do diretor do Canal Q, Nuno Artur Silva, que um dia deu conta que tinha um buraco na nova grelha, que iria arrancar em setembro de 2012, e achou que faltava um programa de análise de vídeos. Como já há algum tempo que tentava convencer a Joana a dar a cara no canal, usou-me como trunfo para a convencer.

– Confirma, Joana?

JM: Para dizer a verdade, o Altos & Baixos surgiu com a função de tapar um buraco na grelha do Canal Q. Era preciso um programa que durasse apenas um mês, enquanto não estreava um outro (que sinceramente já não sei qual era). Como a coisa acabou por correr bem, durou bem mais do que um mês. Estamos quase a completar 70 episódios.

– Portanto, o programa está no ar desde setembro de 2012 e ganhou um novo cenário em 2014. Isto é sinal de que as coisas estão a correr bem, certo?

DL: Lá está, começámos como programa temporário, pensado para durar pouco tempo, mas já lá vai quase um ano e meio. As coisas, de facto, têm corrido bem, e a prova disso é que estamos aqui hoje, a dar-vos esta entrevista, e as mensagens de apoio e os elogios que recebemos são cada vez mais, o que nos deixa bastante felizes. E acho que também não podia ser doutra forma, porque se hoje for ver um dos primeiros três ou quatro episódios de Altos & Baixos, sinto que houve uma grande evolução, a todos os níveis: ritmo, conteúdo, vídeos, meios técnicos, etc.

JM: Divertimo-nos muito a fazer o programa, quer na fase da pesquisa e descoberta de certas pérolas, como no set de gravação, e temos cada vez mais feedback do público, coisa que nos motiva a fazer mais e melhor.

– Creio que o programa está a ter uma aceitação muito positiva, assim como audiências bastante expressivas. Sempre acreditaram no sucesso deste formato?

DL: Para ser sincero, se me fizesse essa pergunta há um ano e meio, dir-lhe-ia que era um programa que não ia ter grande longevidade, porque da forma como a ideia nos foi apresentada, seria apenas mais um programa de vídeos, mais um Isto Só Vídeo ou um Gosto Disto!. E, independentemente do valor ou qualidade desses programas, o nosso seria mais um dentro dos mesmos moldes, e isso é claramente visível no primeiro episódio de todos do Altos & Baixos, no final do qual eu pensei: «Não sei se vou gostar de fazer isto». Felizmente conseguimos dar um rumo diferente e um cunho próprio ao programa, e aí começámos a sentir que estava a funcionar, até porque nós próprios nos estávamos a divertir.

JM: Também sentimos que o programa está a ter grande aceitação. Há pouco tempo, numa espécie de «iniciativa popular», criaram-nos uma página de Facebook para o programa, e foi muito engraçado ver que se gerou logo uma pequena comunidade virtual. Quanto ao sucesso do formato, percebemos rapidamente que se, em vez de fazermos um programa com vídeos de gente a cair, fizéssemos uma coisa mais baseada em gafes e momentos embaraçosos, teríamos mais sucesso. E a mim, pessoalmente, também me dá muito mais gozo analisar uma boa calinada do que um espalhanço ao comprido.

– Por falar em Facebook e «iniciativa popular», que feedback têm recebido por parte do público?

DL: Temos recebido todo o tipo de feedback, de todo o tipo de pessoas, o que nos mostra que o programa é muito transversal. Ao mesmo tempo não é um programa unânime: muitas pessoas dizem que adoram ver o programa, mas que o marido/mulher detesta, o que gera guerras domésticas. Sentimos que estamos também a contribuir para o fim de alguns matrimónios… Claro que já recebi comentários menos positivos. O mais comum é chamarem-me gordo. Agradeço a atenção e a amabilidade das pessoas que me lembram desse pormenor, mas já sou assim há 32 anos, já tinha reparado.

– Joana, já ouviu comentários menos positivos? E as pessoas de quem falam no programa, costumam ter fairplay?

JM: Comentários negativos há sempre, e é bom sinal que haja, mas esses vêm sempre via internet e não de forma tão frontal como as pessoas simpáticas que nos abordam na rua. Ainda bem. Não queremos acabar como o Pedro Proença, seria um balúrdio em dentista. Temos de contar ainda com as reações menos positivas de alguns dos visados das nossas críticas, mas faz parte. Ainda assim, há que dizer que já fomos surpreendidos por grandes demonstrações de fairplay por parte das pessoas de quem falamos.

– Acham que o Altos & Baixos teria «pernas para andar» nas estações generalistas? Isto é, se fosse transmitido, por exemplo, no lugar do Gosto Disto! [SIC]?

DL: Claro que sim. Tal como disse anteriormente, a transversalidade do programa é enorme. Descobrimos, com algum espanto, que somos um programa familiar, e isso é sempre valorizado num canal generalista.

JM: Acredito que o Altos & Baixos é uma fórmula muito simples e eficaz, que podia ter sucesso em qualquer canal, embora nos dê particular gozo fazê-lo no Canal Q, porque é um canal que ajudámos a construir desde o primeiro dia e que temos visto crescer. Há cada vez mais gente a ver canais cabo, mas claro que seria uma grande oportunidade estar num canal generalista e fazer chegar as nossas «análises» a mais gente. Por outro lado, e já que fala em «pernas para andar», acho também que seria mais fácil «cortarem-nos as pernas», porque dificilmente teríamos a liberdade que temos no Canal Q, para dizer tudo, sem qualquer filtro, sobre todas as pessoas, de todos os canais. Mas, acima de tudo, o que mais cobiço num canal generalista é o acesso a um arquivo infindável de imagens. Nós fazemos tudo com base no que há disponível na net, com um arquivo à nossa disposição seríamos ainda mais perigosos!

– A Casa dos Segredos costuma estar em destaque no vosso programa. Digam-me lá, sem preconceitos, o que pensam sobre este reality show da TVI.

DL: Para mim é maravilhoso, uma vez que são fonte de inspiração para muitos dos episódios de Altos & Baixos. Contudo acho que a única edição de reality shows verdadeiramente pura, e que foi realmente uma «novela da vida real», foi o primeiro Big Brother, no qual não havia tanta perceção, por parte dos concorrentes, daquilo que estava a acontecer. Hoje em dia é apenas uma forma de cidadãos vulgares quererem aparecer na televisão, e iludirem-se com a fama durante um ano ou dois, enquanto fazem presenças em discotecas.

JM: Sou absolutamente viciada em reality shows, em especial nos da TVI, que se tornou especialista neste género. Sou cliente desses programas desde o primeiro Big Brother, não faço parte daquele grupo de pessoas que finge não ver mas depois sabe tudo. Eu vejo, revejo, gravo, e agradeço àqueles concorrentes o facto de serem uma inesgotável fonte de inspiração.

– Que vídeos gostariam de analisar nas próximas emissões do Altos & Baixos?

DL: Gostava de analisar a conferência de imprensa de Jorge Jesus quando ganhar o campeonato, ou não fosse eu benfiquista.

JM: É difícil fazer grandes planos para o futuro, porque vamos escolhendo os vídeos ao sabor da maré. Para já, estamos a estrear um cenário novo, e uma nova temporada. Quanto a conteúdo, posso adiantar que em breve teremos episódios focados no inglês perfeito de Vítor Pereira ou nas saídas absurdas de Marisa Cruz.

– E qual o vídeo que mais gostaram de esmiuçar no programa?

DL: Houve vários que me deram grande gozo analisar no programa, mas um que me deu especial prazer foi o do programa Face to Face da Felipa Garnel, onde ela sugeria coisas como «ponha um gôsto na nossa página de Facebook». Foi um daqueles casos em que o conteúdo dos vídeos era tão bom que nós quase não precisávamos de falar.

JM: É difícil escolher, entre tantos, mas recordo um episódio relativamente recente, em que analisámos a incrível performance de Nuno Graciano no seu programa da manhã. Foi difícil selecionar imagens que coubessem nos escassos 25 minutos de programa, porque encontrámos dezenas e dezenas de pérolas. Depois, há personagens que nos marcam, como o Xerife Penas, responsável por um programa sobre crime na RTV, que foi presença recorrente no Altos & Baixos.

– Agora é aquela parte em que vocês falam um do outro. Joana, é bom trabalhar com o Daniel?

JM: É muito bom trabalhar com o Daniel porque, apesar de vivermos na mesma casa, temos muitas vezes horários trocados, e assim garantimos que pelo menos uma vez por semana conseguimos encontrar-nos e conversar. A nossa relação (profissional) é muito genuína porque nos conhecemos tão bem que sabemos que podemos esticar a corda à vontade, pisar o risco muitas vezes, nas coisas que dizemos um ao outro, sem que isso ponha em causa a nossa (outra) relação.

– E quanto a si, Daniel, o que me diz da sua relação com a Joana?

DL: A nossa relação é promíscua. Aliás, devo ser dos poucos apresentadores de televisão que se pode gabar publicamente de andar enrolado com a sua colega. Para além disso, é fácil trabalhar com a Joana, até porque temos um tipo de humor parecido e rimo-nos das mesmas coisas. Esta cumplicidade extra programa acaba por se refletir no resultado final de cada um dos episódios. Mas o melhor de tudo é que a Joana tem muita arrumação.

– Como avaliam o atual panorama da televisão portuguesa?

DL: Comparativamente com o que era a televisão há dez anos, acho que as coisas evoluíram bastante. A oferta que hoje os espectadores têm ao seu dispor é muito mais alargada e já se consegue ver de tudo como e quando se quer. Por outro lado, está muito pior para as pessoas que não têm a oportunidade de ter TV cabo, uma vez que a programação dos quatro principais canais portugueses está cada vez menos diversificada e culturalmente mais pobre.

JM: Acho que temos de avaliar a televisão portuguesa em dois planos: o que se passa nas generalistas, que é muito pobre e pouco variado, e o que se passa no cabo, que é surpreendente e inovador (para o bem e para o mal). Parece-me particularmente triste que nos três principais canais nacionais não haja espaço para programas de humor.

– Para terminar: Daniel, que projetos gostaria de vir a desenvolver no futuro?

DL: A minha ambição é, enquanto tiver programas na televisão, conseguir sempre participar em projetos que me dêem gozo. Obviamente gostaria de um dia estar envolvido num projeto num canal generalista, porque seria sinal de que o meu trabalho estava a ser reconhecido, e de que os canais generalistas estavam a apostar em produção nacional, para além das novelas. Sonhando (muito) alto, gostava de fazer uma sitcom ao estilo de Seinfeld, uma das minhas grandes referências no humor.

– Joana, alguma ambição no mundo da televisão?

JM: As minhas ambições no mundo da televisão são absolutamente nenhumas. É impossível imaginar um projeto que tenha mais a ver comigo do que o Altos & Baixos. Por um lado, porque o faço com o Daniel, e por outro lado porque tudo gira à volta do universo televisivo, e eu sou absolutamente viciada em televisão desde que me lembro (basta dizer que a grande conquista da minha infância foi ter uma televisão no quarto). Assim, não há nenhum outro projeto que ambicione desenvolver, desejo apenas que o Altos & Baixos possa melhorar e chegar a cada vez mais pessoas. Isto a não ser, claro, que o Goucha dispense a Cristina Ferreira e precise de uma partner, nesse caso, largo tudo e vou a correr.

– E assim terminamos. Acho que vocês os dois têm um humor muito natural e conseguiram passar boas histórias nesta entrevista. Portanto, espero que continuem a ter muitos «Altos» e poucos «Baixos», porque merecem realmente todo o sucesso.

Mensagem dos apresentadores para o aTV:

http://www.youtube.com/watch?v=2joYST3OdiE

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Vão-se lavar por baixo, voces so sabem criticar as pessoas mas voces são uma grande m#rda ! ! ! !

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