A Entrevista

Conceição Queiroz

 

 

 

 "Eu amo o meu

trabalho, sou

completamente louca

pelo que faço."

 

 

 


Conceição Queiroz nasceu na ilha de Moçambique. É jornalista desde 1994, iniciou a sua carreira pela imprensa, passando depois pela rádio e, em 1999, entrou para a TVI, onde actualmente faz parte da equipa de Grande Reportagem. Teve ainda uma curta passagem pela Televisão Caboverdiana, onde foi directora de informação. Em 2007 publicou o seu primeiro livro, “Serviço de Urgência” e, este ano, lançou o seu segundo livro, “Os Meninos da Jamba”. Ambas as obras que publicou são baseadas em trabalhos de reportagem.

Da sua infância lembra-se dos “grandes serões que fazíamos lá em casa. Tínhamos uma casa enorme. Somos uma família numerosa e existe muito o sentido de solidariedade em África, ou seja, o primo do teu primo é teu primo também”, assim como dos passeios à volta da ilha de Moçambique com o pai num barco a motor, “somos 6 irmãos. Eu era a única corajosa que acompanhava o meu pai naquelas voltas à ilha.”. Na infância não sonhava ser jornalista, “nunca pensei em trabalhar em televisão, aliás, eu queria ser advogada, na altura. Tinha esta mania de querer defender os mais fracos.”. Foi uma professora de português do 11º ano que a influenciou a ser jornalista. Nunca recebeu um convite para abandonar a TVI e diz que ama o que faz. Dos pais herdou a convicção, a força, a coragem, o sentido de justiça e o respeito pela liberdade do outro. Ao longo da entrevista brindou-nos sempre com um grande sorriso. 

O TV Universo convida-vos a conhecer melhor a jornalista da TVI, Conceição Queiroz.

Quem é a Conceição?

Olha, a Conceição é uma pessoa que gosta de viver e, acima de tudo, que valoriza muito a vida e que preza muito a amizade. Eu quando escrevi o “Serviço de Urgência” aprendi a relativizar muito mais os problemas. Acho que as pessoas não têm noção do que é um verdadeiro problema: perdes o autocarro, apanhas trânsito e achas que é um, quando não o é. Conviver com a morte tão de perto, sentir que há pessoas que têm verdadeiros problemas de saúde, isso sim, são, para mim, problemas. Pessoas que passam fome como eu encontrei na Jamba Mineira, crianças que não fazem uma única refeição em condições, isso são problemas.

Eu emocionei-me ao ler a primeira frase desse livro, “Mamã, tenho Fome”.

Nós na Europa não temos noção do que se passa lá fora. Essa frase é daquelas que se ouve mais vezes. “Mamã, tenho fome”, é dito no meio familiar. Porque se vem alguém de fora, como era o meu caso, e perguntas o que é que falta na Jamba Mineira, os miúdos dizem-te “Falta a Língua Portuguesa”, curiosamente. Não te dizem falta comida, falta pão… “Falta a Língua Portuguesa”! São miúdos que têm muita vontade de aprender, que têm muito potencial, mas que depois falta o essencial. Não há folhas de papel, não há cadernos, não há lápis, não há canetas, não há nada. Isso é que revolta. São miúdos que não aparentam ter dificuldades de aprendizagem.

“Meninos da Jamba” foi a reportagem?

Foi “aquela” reportagem. Foi aquela que mais marcas me deixou. Eu não acredito na total imparcialidade e normalmente envolvo-me de corpo e alma nas reportagens que faço. Aliás, eu acho que o narrador durante a recolha dos depoimentos, se criar barreiras vai acabar por condicionar aquilo que é a veracidade dos testemunhos. Portanto, convém quebrar as barreiras para que tu chegues muito mais fundo. Eu gosto de me infiltrar nas mentes dos meus entrevistados. E compreender com minúcia aquilo que eles tentam relatar. As pessoas inspiram-me! Fazem-me rir, fazem-me chorar. Gosto das pessoas, de compreendê-las, de as sentir. É isso que me move nesta profissão: compreender as pessoas e compreender os mistérios da vida.

Essa reportagem criou uma verdadeira onda de solidariedade?

Foi surpreendente! Eu nunca tenho noção do impacto que uma reportagem vai ter na opinião pública e de repente recebo imensos e-mails, contactos, telefonemas, cartas de pessoas anónimas, dos portugueses que viram a reportagem e ficaram extremamente sensibilizados quando viram a realidade dos meninos da Jamba. Então gerou-se uma onda de solidariedade tremenda e conseguimos juntar toneladas de alimentos, calçado, brinquedos e uma ambulância, inclusive.

Chegou a ser desanimador ver que podia não levar o material recolhido numa onda de solidariedade?

Sim, foi! Foi horrível! Teres toneladas de coisas, mais uma ambulância – os doentes são transportados em camiões na Jamba Mineira – e existe a possibilidade de levares aquilo tudo para aquela região. As coisas chegaram ao aeroporto de Luanda e não saíam de lá. Uma ambulância desmantelada, roubada no aeroporto… não andava simplesmente.

Como se sentiu quando o Dr. Jorge Sampaio aceitou escrever o prefácio de “Meninos de Jamba”?

Fiquei tão emocionada… Primeiro, não contava que ele aceitasse. Ele tem muito mais que fazer, é muito preenchido, pois tem dois cargos nas Nações Unidas. E foi um bocado atrevimento da minha parte fazer aquele pedido. Como ele disse no prefácio, eu procurava alguém que compreendesse o significado daqueles “Meninos da Jamba”. E acho que ele conseguiu compreender aquilo que eu queria transmitir, neste livro. Estarei eternamente grata ao Dr. Jorge Sampaio, uma pessoa de quem eu gosto muito.

E em relação ao “Serviço de Urgência”?

O “Serviço de Urgência” foi outra grande surpresa. A reportagem passou em Novembro de 2004 e no dia seguinte ao da emissão da reportagem, recebo um telefonema de uma editora a desafiar-me para escrever o “Serviço de Urgência”. Transformar aquela reportagem em livro demorou 3 anos (entre 2004 e 2007).

Ao escrever essa reportagem, qual a opinião com que ficou do nosso sistema de saúde?

Eu só posso falar da urgência do maior hospital do país, que é o Hospital Santa Maria.  Em relação a essa urgência, posso dizer que estamos muito bem entregues, em boas mãos. Os médicos fazem de tudo, fazem “das tripas coração” para salvar uma vida. Isso para mim é extraordinário. Apesar de nos queixarmos muito, nós aqui temos tudo, somos privilegiados.

A Conceição disse numa entrevista, à Lusoáfrica, que já tinha sido revoltada. 

Essa revolta tinha a ver com um grupo de mulheres cabo-verdianas que vendiam peixe e, ao fim do dia, tinham que apanhar o mesmo autocarro do que eu. Então toda a gente reclamava com o cheiro do peixe, mas elas tinham de fazer aquele percurso. Como elas falavam crioulo e não português, era eu que me metia nas conversas e respondia por elas. Nunca fui vítima de racismo de forma directa. Eram estas situações que eu via, comentários como “preto vai para a tua terra”, que me faziam meter no meio. Eu saía em defesa das pessoas, era eu que me punha no papel de advogada. Revoltava-me sempre que aquelas mulheres eram maltratadas.

E o seu percurso enquanto jornalista?

O meu sonho era ver um texto publicado num jornal. Nunca televisão! A televisão acontece um bocado por acaso. Depois, dei aulas durante dois anos. Estive desempregada e nessa altura telefonei para a TVI, para saber se precisavam de pessoas. Em 1998 fui para uma produtora, não directamente para a TVI, com o tal telefonema. Nesse mesmo dia fui a uma entrevista e fiquei. Comecei a trabalhar no dia seguinte e aí fiz de tudo um pouco. Desde assistente de realização a produtora, passei pela produção de televisão, guionista e pelo jornalismo.

Sente-se bem na TVI?

Eu amo o meu trabalho, sou completamente louca pelo que faço. A grande reportagem é desgastante, rouba anos de vida, mas compensa imenso porque é tão bom quando abraças este jornalismo de causas, quando consegues de alguma maneira mudar alguma coisa, o pequeno mundo de alguém… Gosto muito da grande reportagem e fiz um grande investimento quer pessoal, quer profissional. Tens que ter disponibilidade, acima de tudo, e isso atrai-me. Porque preenche-me de tal maneira e eu gosto de me sentir no limite. [Risos] Eu trabalho muito em fim de linha, vou sempre ao limite. Não desisto, não gosto de baixar os braços, dou luta.

Quais os temas que mais gosta de abordar?

Adoro temas que estejam relacionados com saúde. E também gosto imenso de histórias humanas. Se fizer uma reportagem sobre infertilidade, tem-se uma série de informação para passar para as pessoas lá em casa. Mas podes fazer uma sobre o pastorinho de Trás-os-Montes e não tens qualquer tipo de informação, propriamente dita. A reportagem vale por essa história humana, pela personagem do pastorinho que vai provavelmente apaixonar os portugueses.

As audiências comprovam-no.

Eu não ligo muito às audiências. Interessa-me mais saber se as pessoas falam no dia seguinte da reportagem. Se isso acontece é muito gratificante, nem que seja uma única pessoa a lembrar-se do que foi dito no dia anterior, nessa reportagem. Então, valeu a pena.

O que mais gosta de fazer? Imprensa, rádio ou televisão.

Eu costumo dizer que na imprensa tu aprendes a escrever; ninguém aprende a escrever em televisão. A rádio tem a magia de jogar com a voz. A magia das pessoas nem saberem quem está do outro lado. A televisão é o poder da imagem: tem muita força, a mensagem chega muito mais depressa e a muito mais gente. Gosto de trabalhar em televisão.

Como foi trabalhar na televisão de Cabo Verde?

É tudo diferente. Eu costumo dizer que quem trabalha na TCV, trabalha em qualquer parte do Mundo. Eu senti tantas dificuldades… Na altura falhavam microfones durante as entrevistas, as baterias esgotavam e não tínhamos outras para substituir. Não havia um monitor para ver as imagens, e isso obrigava-me a estar com muita atenção ao que o câmara estava a filmar. Foi uma lição de vida. E quando fui directora de informação, conseguir pôr um jornal no ar, emitir um jornal todos os dias, era quase um milagre.

Foi em Cabo Verde que ficou conhecida como “Conceição bô é fastenta.”.

Sim, na Televisão de Cabo Verde diziam-me isso. Quer dizer, “És chata”, no sentido de seres muito exigente. Imagina: faltam dez minutos para o jornal e tens um jornalista a jogar às cartas e não podia ser. Ou ainda a escrever o texto da peça que ia abrir o jornal! Mas foi muito bom. Porque depois chegámos todos à conclusão que aquilo não podia continuar assim. As coisas tinham que mudar. E eles perceberam, trabalhámos em equipa e foi óptimo.

Uma jornalista africana tem que provar o dobro de um jornalista português?

Eu não conheço nada que se consiga sem trabalho. Eu trabalho imenso, mas é porque sou exigente. Obviamente que podem existir alguns preconceitos pelo facto de ser africana. É uma questão de oportunidades. Se te dão uma oportunidade, tens que aproveitar essa oportunidade que te é dada. Quando a Manuela Moura Guedes me deu uma oportunidade e acreditou em mim, eu não a podia desperdiçar. Nem podia decepcioná-la. Agarrei essa oportunidade.

A Manuela Moura Guedes é uma referência a nível jornalístico?

Eu gosto imenso da Manuela. Eu acho que ela é única, que tem um jeito muito próprio.

Fazia falta à televisão?

A Manuela faz falta à televisão portuguesa. A Manuela fará sempre falta à televisão portuguesa. No fundo, sou fã dela. Irreverente, independente e verdadeira, acima de tudo. A Manuela nunca deixa de dizer a verdade doa a quem doer. É um grande ser humano.

Acha que há falta de liberdade de expressão em Portugal?

Não. Aqui nunca senti. Nunca.

Mesmo em reportagens polémicas como as da saúde?

Nunca. Sinceramente, nunca.

Como sente esta nova aposta da TVI na informação?

Na informação, está melhor do que nunca. Acho que está muito bem.

Está menos sensacionalista?

A informação da TVI não é sensacionalista. As pessoas criaram um mito, têm uma ideia pré-concebida em relação à informação da TVI. As pessoas estão completamente enganadas. E as audiências, agora vou ter que falar nisto, mostram isso. Eu acho que temos uma boa informação e óptimos programas de informação. Há o programa da Constança Cunha e Sá, a Manuela Moura Guedes no “Jornal de Sexta-feira”, o próprio “Jornal Nacional”, o programa da “Grande Reportagem”. Tens os bons comentadores, o Miguel Sousa Tavares, o Vasco Pulido Valente, o António Perez Metelo de economia e a Constança em política.

Também porque a informação passou a ser uma grande aposta em todos os canais?

Sim. A informação, o entretenimento, a produção nacional em que o José Eduardo Moniz apostou. E depois tens bons resultados. No entretenimento, acho que estamos muito bem: o Talk Show da Júlia, quanto a mim, o mais interessante da televisão Portuguesa. Está muito bem conseguido, bons conteúdos e em termos estéticos aquele estúdio é fantástico. E claro, a própria apresentadora, a Júlia Pinheiro, é uma senhora televisão.

E quanto ao futuro, o que espera?

Eu não faço planos a longo prazo, desde que perdi a minha mãe em 2000. Não sou pessoa de fazer grandes planos. Eu vivo, gosto de viver, mas não sou de projectar. Sinto-me bem na grande reportagem e os livros são uma extensão do meu trabalho, porque continuo a escrever em tom de reportagem.

Qual a reportagem que gostava de fazer?

Tanta coisa que gostava de fazer… Gostava de ir ao Burkina-Faso, onde estão os meninos a trabalhar nas minas de ouro. Gostava de fazer essa reportagem. Quem sabe um dia. Mas nem sequer foi falado! É uma ideia.

Como se sente quando recebe elogios como os do António Perez Metelo: “A Conceição é a recusa do sensacionalismo, gosto pela imagem, empatia com o telespectador. Em suma, talento.”?

É tão bom ouvir. Eu não tenho muito jeito para lidar com isso. É sentir que o teu trabalho é reconhecido, acima de tudo. Tu não trabalhas a pensar nisso. Eu trabalho porque sou exigente, porque gosto do que faço, gosto de ser rigorosa com o meu trabalho. E depois ouvir isso, ainda por cima de uma pessoa como o António, é muito bom.

A Conceição é uma referência para muitos jovens que querem ser jornalistas. Qual a mensagem que deixa?

Eu continuo a acreditar que devemos lutar pelos nossos sonhos. Que não devemos desistir. A partir do momento em que sabem o que querem, é lutar, tentar até ao limite. Aproveitar todas as oportunidades.

Já visitou o site TVUniverso?

Já! Parabéns, está muito bem. Os vossos textos são ligeiros, lêem-se muitíssimo bem. Continuem. Gostei muito. Parabéns.

  

“A Conceição é muito competente no trabalho que faz.”

(Pedro Pinto, Jornalista da TVI)

 

Entrevista de Diogo Filipe e Nuno Pereira

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