A Entrevista

A Entrevista – Mateus Solano

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Formado em Artes Cénicas, Mateus Solano tem mais de doze anos de carreira, principalmente no teatro. Em televisão, já fez várias novelas, como Viver a Vida, Morde & Assopra ou Gabriela. Atualmente, integra o elenco de Amor à Vida, uma trama de Walcyr Carrasco, que estreia esta segunda-feira (dia 2 de setembro) na SIC. Félix Khoury, a personagem que interpreta, pode ser altamente maquiavélico, mas já caiu nas boas graças dos telespectadores. Em entrevista ao aTV, Mateus explica detalhadamente como é dar vida a este «boneco» que, como o próprio disse, já foi escrito para fazer sucesso.

Mas, e como é que se gere tanto trabalho? Nem o ator sabe. No entanto, revela o seguinte: «É uma organização meio esquizofrénica, porque às vezes volto para casa por volta da meia-noite e ainda tenho de decorar os textos ou dar uma passagem por eles, assim como ver o que vou fazer no dia seguinte».

Como já reparou, a entrevista desta semana é exclusivamente especial. Diretamente de terras de Vera Cruz, apresentamos-lhe… Mateus Solano!

A Televisão – Boa tarde, Mateus! Sei que costuma andar dividido entre dois mundos, daí esta minha primeira questão. Teatro ou televisão: qual a área que mais o apaixona?

Mateus Solano – Alô Eduardo! Cada meio traz sensações diferentes. O que eu gosto mesmo é de atuar, fazer personagens e encontrar as humanidades de cada personagem, seja no teatro ou em televisão. São meios completamente distintos, sem dúvida. O teatro é a casa do ator, onde realmente temos a oportunidade de crescer enquanto artistas. Já no mundo da televisão, o ator tem a oportunidade de aplicar tudo o que aprende em teatro, a seu favor, e numa linguagem que é diferente. Uma linguagem que é mais minimalista e naturalista, digamos assim.

Então, é no teatro que tem mais oportunidade de aprender.

Não é uma questão de gostar mais do teatro, mas, sem dúvida que é no teatro onde eu mais tenho oportunidade de aprender. Em televisão você aprende muito sobre televisão, inclusive sobre como fazer televisão e não deixar a qualidade cair, porque quando entra num momento industrial, há uma altura que se torna muito repetitivo. E você tem que se lembrar que está a fazer aquele personagem e que está dizendo aquilo naquele momento. E o seu trabalho não pode jamais «estacionar».

A última vez que o vimos na televisão portuguesa foi em Gabriela, uma série de sucesso no Brasil e em Portugal também. Como foi o desafio de interpretar Mundinho Falcão?

Ah, foi um barato [prazer]. O Mundinho foi um barato. Foi um pouco pela oportunidade de fazer Gabriela, um clássico da literatura, do cinema e da televisão aqui no Brasil (e sei que em Portugal também). Teve uma grande importância e provocou muito impacto. E quando eu fui a Portugal, fazer o programa O Formigueiro na SIC (que foi muito bacana), percebi esse amor do povo português pelo trabalho de Gabriela. Toda a gente falava «O Mundinho isto e o Mundinho aquilo». Então, foi muito gratificante fazer esse personagem, assim como trabalhar com pessoas que eu sempre assisti e sempre admirei na televisão, como o António Fagundes, Hélio Fonteira, Lara Cardoso e todos os outros senhores e senhoras do teatro e da TV que me foram referentes enquanto eu estava lá a trabalhar com eles. Foi muito feliz, muito bacana.

Atualmente, dá vida ao terrível (mas carismático) Félix Khoury em Amor à Vida. Conte-nos como está a correr este projeto.

Muito legal! Está a ser uma experiência muito gratificante. O facto de eu ter voltado para o teatro, depois de três anos longe dos palcos, me ajudou muito também na qualidade do meu trabalho agora com o Félix em Amor à Vida. É um personagem difícil. Tive de trabalhar muito na sua construção, pois ele foi escrito para dar certo, para ser um sucesso. Então eu tinha uma grande responsabilidade, porém, no primeiro capítulo, estive bem aliviado porque sabia que havia um caminho claro a percorrer. E conquistar a atenção do público desde a estreia da novela foi muito bom mesmo. Tenho-me divertido bastante nas gravações.

Como disse, o Félix é um caso de sucesso. E até seguiu as pisadas de Carminha [Avenida Brasil] nas redes sociais, que estão repletas de imagens e frases da personagem. O que você acha que contribuiu para isso?

Bom, é uma série de coisas. Na verdade, o personagem, como eu já disse, foi escrito para ser um sucesso, porque ele tem vários bordões [expressões]. Ele tem frases, tem piadas, tem uma série de características com a finalidade de causar impacto no espectador. Logo, tinha de ser divertido, mas também humano. Aí, o Walcyr fez um personagem altamente complexo, porque ao mesmo tempo que há um gay dentro do armário (como se diz), ele é completamente extrovertido. Em termos de discussões, o Félix é muito (muito) bacana. É um sucesso graças à coragem do Walcyr em expor a homofobia, essa cegueira escolhida.

«Ai que vontade de ter uma apendicite», diz Félix

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Além da homossexualidade, uma das principais características da sua personagem é o amor pelo poder, certo?

Certo. A novela demonstra como a repressão da identidade pode transformar o carácter e o amor pelo poder. E, enfim, ele é apaixonado pelo poder. E quem gosta de poder, nunca está satisfeito. O Félix é uma porção de coisas, mas ele é complicado por isso. Eu tive que lhe dar humanidade, mas ao mesmo tempo ele também é um bufão, um palhaço. Mas é um palhaço altivo. E a toda a hora eu continuo estudando, para não perder a mão desse personagem. Isto para não ficar só um personagem caricato, nem só um personagem sombrio. Então, tenho que ter sempre essa justa medida, essas duas coisas e tantas mais.

Após gravar a novela, como é que você sai? E como gere tanto trabalho?

Olha, nem eu sei responder a essa pergunta, a verdade é essa. Eu realmente tinha muito trabalho quando estava em temporada sexta, sábado e domingo. E fazer o Félix de segunda a sábado era bem complicado. Agora, a temporada acabou, mas ainda tenho algumas viagens com a peça marcadas até ao fim do ano, e é muito trabalho. É mesmo muito trabalho. Mas quando eu entro numa novela, a minha mulher já sabe que vamos ter de viver a alguma distância. Mas todo o tempo que eu conseguir dar, eu dou. Dou para a minha família, para a minha filha, porque a gente se vê pouco mesmo. Enfim, é uma organização meio esquizofrénica, porque às vezes volto para casa por volta da meia-noite e ainda tenho de decorar os textos ou dar uma passagem por eles, assim como ver o que vou fazer no dia seguinte. Então, é esquizofrénico, sim.

E que comentários costuma receber na rua? As pessoas não ficam com vontade de lhe bater?

O Félix, ele é um cara muito mau, mas é muito divertido. Então, as pessoas já vêm com um sorriso no rosto, dizendo «Você é muito mau, não gosto de você!». Elas me agradecem às vezes por rirem em casa ou «Obrigado por me fazer rir depois de um dia stressante». Normalmente, vêm com uma frase, uma coisa engraçada que ele disse. É um personagem muito carismático por isso, porque traz no seu discurso de vilão muitas coisas que gostaríamos de dizer, mas não podemos (ou para não magoar alguém, ou para não perder o amigo). É, e o Félix não tem papas na língua. Ele diz tudo o que tiver na cabeça e é super sincero, digamos assim. É muito venenoso, sem dúvida. Então, esse humor, que a gente chama aqui de «bicha má», é do gay maldoso e invejoso. É um humor que combina muito bem com o Félix. E, portanto, as pessoas vêm falar comigo com alegria, apesar de ele ser um vilão, de ele ser um cara muito malvado.

Já ouvi por aí que gostava que o Félix terminasse na cadeia com um «negão». Mas conte agora ao aTV, que final deseja mesmo para a novela?

Eu já pensei em várias coisas. A verdade é que o Walcyr está com um esquema de escrita (um esquema de trabalho dele) que é de fazer as tramas se desenvolverem muito rápido. Em uma semana, muita coisa acontece. Muitas histórias, muitos desfechos e tal. Agora, a gente está gravando uma cena em que o Félix é afastado do hospital. E o grande objetivo dele é estar no hospital, logo, a sua saída é uma grande virada. Só que o Walcyr faz grandes viradas o tempo todo. O que eu quero dizer é que a história ainda pode mudar muito. E o final do Félix ainda vai depender de muitas coisas que vão acontecer até ao final. O Walcyr é um cara que escreve num momento presente, ele não tem uma história com início, meio e fim – como por exemplo João Manuel Carneiro fez com Avenida Brasil – que vocês estão assistindo. Ele tinha história com início, meio e fim e confiou nessa história.

Pois, e o Walcyr joga muito com o desejo do público.

O Walcyr joga muito com o que o público quer, com o que o público comenta sobre a novela e vai dando ao público o que o público quer durante a novela. Então não sei, e pelo andar da carruagem, eu acho que o Félix vai ser punido, mas também vai ter uma espécie de compensação. Eu acho que ele podia conhecer o grande amor da vida dele na cadeia, né? Para ser um final divertido e justo ao mesmo tempo. E que no final ele tivesse alguma felicidade e tal. Eu gostaria que nao só o Félix, mas todos os que contribuíram para o seu carácter tão sombrio, tivessem as devidas consequências. A novela está a entrar num momento em que a Paloma é mandada para um hospício. E isso se deve a essa cegueira da família que prefere ouvir a opinião do Félix e de outras pessoas sobre a filha em si. O que eu quero dizer é que não é só o Félix que tem de aprender uma lição para tomar, vários outros personagens também. Eu gostaria que ele aprendesse a lição, mas que ao mesmo tempo tivesse alguma compensação, porque acho que merece.

No início deste ano, foi convidado especial do programa O Formigueiro, apresentado por Márco Horácio. Gostou de estar em Portugal?

Eu amo Portugal. Eu já morei aí, conheço o país inteiro. É uma casa também, talvez por isso eu tenha ficado ainda mais feliz quando percebi que as pessoas gostavam do meu trabalho. É um lugar muito familiar para mim e que eu gosto muito. Tenho grandes amigos em Cascais e, sempre que puder, vou visitar Portugal.

Por cá, Amor à Vida estreia dia 2 de setembro na SIC. Acredita que vai ser um sucesso tal como no Brasil?

Ah, não sei. Realmente eu não sei e é muito interessante o fenónemo dos sucessos das novelas brasileiras em Portugal. É uma coisa que eu realmente não tenho como responder. Morde e Assopra, que não começou como um grande sucesso aqui no Brasil, foi um grande sucesso em Portugal. Portanto, as reações são uma mistura. Gabriela, em 1820 – interior da Baía – é um grande sucesso, numa realidade bem diferente daquela que o português vive. Então, é um mistério mesmo. Eu não sei, mas espero que seja um sucesso, sim, e que a história prenda o espectador e divirta também.

Futuramente, que tipo de personagem gostava de encarnar?

Eu gosto de fazer personagens diferentes, gosto de viver sempre algo diferente. Mesmo quando me dão personagens tão parecidas, o meu barato, a minha finalidade, é achar aquele ser humano que é diferente de qualquer outro. Diferente daquela pessoa que já deve existir. Para o ator, é importante fazer personagens diferentes, diferente no olho dos outros. Então, eu não tenho um objetivo. «Ai, eu quero fazer um vilão X numa novela Y»… Não, não tem isso. Eu não quero fazer aquele personagem do teatro, aquele texto, eu não tenho realmente isso. Sempre fui muito ao sabor do vento e gostaria de continuar assim. E espero que confiem em mim personagens diferentes.

Uma última questão: que projetos tem para o futuro?

Bom, tenho dois filmes para estrear aqui no Brasil. Eu não sei como é a realidade do cinema aí em Portugal, mas eu tenho dois filmes para estrear aqui no Brasil até ao final do ano. Foram filmados no ano passado e, fora isso, é a peça que, no próximo ano, vou para São Paulo e gostaria também (porque não?) de visitar Portugal com a peça. Mas isso aí ainda não está no papel, digamos. Ainda é um projeto não formalizado.

Muito obrigado pela entrevista, Mateus. Um forte abraço aqui de Portugal. Desejamos-lhe o maior sucesso.

Um grande abraço. Bom trabalho, Eduardo!

Este é o aTV. Deixe uma mensagem para os portugueses!

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