A Entrevista

A Entrevista – Lurdes Guerreiro: «Há cada vez menos dinheiro mas temos de ser criativos»

O rápido crescimento da internet, a manipulação (ou não) nos reality shows, as críticas dos telespectadores, o declínio das audiências entre os canais generalistas e a aposta na Operação Triunfo são os temas principais que pode ler na segunda parte da entrevista a Lurdes Guerreiro, diretora-geral da Endemol Portugal. 

O rápido crescimento da internet veio baralhar a indústria audiovisual?

Veio! Quando estou num programa em direto tenho o Facebook, o Instagram e o Twitter abertos porque gosto de acompanhar o que as pessoas dizem. As redes sociais vieram trazer um imput completamente de outro mundo e comecei a sentir muito isso nos reality shows. Eu dizia à equipa que estava comigo o seguinte: “É como se tivesse 500 redatores grátis”. Eu sabia, às vezes, primeiro das coisas na internet. Percebi, por exemplo, através de um tweet que alguém entrou na Casa dos Segredos com um relógio. Ninguém [da produção] reparou mas houve alguém em casa que reparou. Isso é de aproveitar apesar de haver um lado negativo que diz muito mal.

O mundo online é um bom ou um mau aliado? 

Para mim, é um bom aliado e uma ferramenta de trabalho fundamental. Como digo, é para o bem e para o mal, temos é que tirar as coisas boas. Eu gosto de ouvir as opiniões diferentes, o que as pessoas tem para dizer. Gosto de absorver tudo e tirar depois as minhas ilações e conclusões.

O conhecido site Dioguinho, que acompanha todos os reality shows em Portugal, é uma boa ferramenta para a própria Endemol? 

É mais um! É mais uma informação extra. A conclusão que chego é que a internet é um imput valioso no sentido em que há mais gente a falar do programa. Se eu não tivesse acesso à informação, morria. Imagine o que é trabalhar em televisão sem o Google. Imagine o que é recuar 20 anos…

Mas a internet não prejudica o desempenho do programa televisivo nas audiências? 

Eu acho é que desperta interesse. Não sou nada apologista de esconder as coisas! Temos que mostrar! Na conferência de imprensa do Danças do Mundo, fiz questão de mostrar dois minutos do primeiro programa. Eu quero é que as pessoas vejam e comecem a comentar. Eu partilhei no meu Facebook, a Endemol pôs na página oficial e a RTP 1 partilhou nas redes sociais assim como as apresentadoras. Isso para mim é fantástico. É uma partilha da informação e um despertar da atenção.

No caso dos reality shows, tudo o que se passa de maior relevo acaba por circular na internet antes da sua emissão televisiva. Quem vê no online não precisa depois de ver na televisão e isso é retirar audiência ao próprio produto.

A mediação de audiências de hoje em dia não é a mesma de há uns anos, daí a importância das redes sociais. Você vê o programa quando lhe apetecer. Eu tenho uma criança pequena em casa e não vejo noticiário às oito da noite. Vejo quando ele vai para a cama. É isso que as pessoas hoje em dia fazem. Temos que estar conscientes que não existe só uma forma de ver conteúdo mas sim várias! Os canais têm tido essa percepção e têm utilizado as apps e as redes sociais. O conteúdo tem de ser suficientemente forte para ser apelativo em todas as plataformas daí hoje em dia os programas estejam a ser pensados de outra forma.

A televisão tem de ser cada vez mais dinâmica? 

Temos de estar atentos e perceber o que é que as pessoas querem ver em televisão. É um desafio muito grande porque há de tudo. Quem trabalha em conteúdos tem de ter um papel criativo. O grande desafio é saber como é que se surpreende e se cria sabendo que existe um pensamento generalizado de que tudo já foi criado.

Sabendo das dificuldades existentes no mercado português, é possível fazer omeletes sem ovos? 

Depende. Há cada vez menos dinheiro mas temos de ser criativos. Eu sou uma pessoa otimista por natureza e acho que há sempre solução para tudo. O meu lema é o seguinte: “Problemas existem sempre. O que nos distingue é a capacidade de encontrar as soluções para os problemas”. A situação é difícil, o orçamento é difícil, o programa é difícil mas vamos lá encontrar uma solução para tornar esses problemas mais fáceis.

O orçamento reduzido depois reflecte-se nas audiências. Temos o caso de A Tua Cara Não Me É Estranha que foi gravado devido a «contenções de custos» e esteve longe de ser o fenómeno de que era em 2012. 

Eu não analiso assim. O único formato de entretenimento que bate a novela da SIC chama-se A Tua Cara Não Me É Estranha e é uma novela fantástica. Portanto, isso é relativo. Vai comparar as audiências de 2012 com as de 2017? Já viu a penetração que o cabo tem em 2017 comparado com 2012? A TVI decidiu recuperar e bem A Tua Cara Não Me É Estranha, que está agora em Espanha também. Se está a correr bem? Acho que está a correr muito bem. O programa é líder do primeiro ao último minuto. O que é que o canal pode querer mais do que um produto que seja líder do primeiro ao último minuto? Para mais na noite mais difícil da semana que é o domingo?

O facto das galas terem sido gravadas não prejudicou o próprio sucesso do programa?

Eu gosto muito da adrenalina do direito e normalmente o tipo de apresentadores com quem trabalho também prefere porque vibram de outra forma. Aqui, mais uma vez, tivemos de ter a criatividade de pensarmos “Não, vamos lá fazer isto como se tivéssemos em direto”. Raramente parámos e era tudo feito seguido exactamente para dar essa sensação aos apresentadores e jurados. Depois, isso passaria lá para casa. Estava com algum receio no início mas conseguimos fazer 13 bons programas mais cinco especiais.

É mais importante ter audiências ou um programa de qualidade?  

É tudo, não vou negar! Mas graças a Deus que em Portugal só temos as audiências no dia seguinte. Se tivéssemos em direto como no Brasil ou na Argentina, dávamos todos em doidos na noite do programa [risos]. Eu vou feliz para casa porque estive a trabalhar num programa que acho que correu bem. Na manhã seguinte, se as audiências não forem as esperadas, temos que corrigir e mudar. Se os resultados não forem os esperados pelo meu cliente, então é porque não dei o suficiente de mim e vou ter de dar mais.

Mesmo para a RTP 1 que tem uma outra política em relação às audiências?

Até mesmo para a RTP. Vamos lá ver, os números são o quê? Para mim, os números são as pessoas que vêem os programas. Eu preocupo-me com o número de pessoas que assistem ao programa. Com certeza que prefiro um milhão do que só 500 mil telespectadores e isso é para todos os canais. Estaria aqui a mentir se dissesse o contrário.

Falemos agora da Casa dos Segredos 6, que ficou marcada por muitos incidentes…

Incidentes há sempre.

Nesta edição, Teresa Guilherme veio a público esclarecer que não tinha voto na matéria, isto a propósito das decisões que foram tomadas ao longo do programa. Afinal, quem é que tem o poder de decidir o destino dos concorrentes e não só? 

Quem tem a decisão final, finalíssima, é com certeza o canal. A Endemol tem uma palavra a dizer enquanto produtora. Se eu não concordo com alguma coisa, a Endemol não vai fazer nada contrariada.

Mas, por exemplo, o casting dos concorrentes é feito pela Endemol. 

É uma partilha. Não existe um casting de televisão sem a aprovação final do canal. Nós fazemos uma pré-selecção de 40/50 pessoas e existe depois, por assim dizer, uma partilha de responsabilidade.

Em comparação com as anteriores edições, a Casa dos Segredos 6 reduziu a quota de mercado da TVI aos domingos à noite. Esta situação aconteceu por mérito da concorrência ou acredita que o género reality show está gasto em Portugal? 

O The Voice é um dos melhores formatos que existem a nível mundial. Não é fácil bater um The Voice mas, se for analisar bem as audiências, acho que conseguimos. A Endemol, a TVI e a própria Teresa [Guilherme] não baixaram os braços e é como eu digo, cada semana é uma semana. Quando chegamos à segunda-feira, comentamos os resultados de domingo durante 10 minutos e o resto do tempo é passado a discutir o que vai ser o programa seguinte. Temos que aprender com o que aconteceu e trabalhar para o futuro. Acho que houve aqui [Casa dos Segredos 6] uma evolução muito grande no sentido de resultados.

Na sua opinião, o género reality show morreu em Portugal? 

Não. Nós parámos de fazer o Big Brother em 2003. O Secret Story estreou em França em 2007 e eu demorei três anos a vender os direitos à TVI. No entanto, em 2003 diziam que o formato Big Brother estava morto. As pessoas estão cansadas de ver o mesmo em televisão. É preciso ter a capacidade de surpreender e de encontrar um twist. Às vezes basta uma pequena nuance.

Faz sentido uma Casa dos Segredos 7

Para mim, faz! Para quando é que não sei.

O sucesso de um reality show passa muito pelo grupo de concorrentes. A produtora conta a história à medida que ela vai surgindo. É esta a verdade ou existe um guião por detrás como muita gente pensa? 

Não! Não existe mesmo! Quando eu parto para um casting, eu parto do zero. Eu não tenho expectativas quando conheço uma pessoa. A minha expectativa é encontrar sempre os melhores concorrentes possíveis. Não tenho perguntas feitas. Tenho é o questionário que a pessoa preencheu. Se as perguntas surgem, eu tenho interesse. Se não tiver mais nada a perguntar, então…

Mas não há os chamados “favoritos” da produção? 

Enquanto produtora posso dizer que é-me completamente indiferente quem é que ganha os reality shows. O público é que tem os favoritos quando vota e cria preferências. As redes sociais é que têm os seus favoritos.

“Favorito” no sentido de que a produção tenta impedir a saída do concorrente que «mais canal» dá mesmo que seja o mais odiado pelo público. 

Existem concorrentes que dão conteúdo e existem outros que não dão tanto conteúdo. Mas isso é em qualquer tipo de conteúdo que existe em televisão. Há os que dançam melhor, os que cantam melhor, os que conversam melhor, os que cozinham melhor. É como numa empresa. Você tem uma empresa. Há aquela pessoa que faz um relatório extraordinário em meia hora e você vai valorizar essa pessoa ou não?

O diferente sistema de votações, que difere de semana para semana, é uma forma eficaz de valorizar os concorrentes que melhor conteúdo dão? 

Nós temos de surpreender e isso passa por aí. O telespectador tem de ser surpreendido. Há votações pela negativa todas as semanas e um dia dizemos “agora não é pela negativa, é pela positiva”…

A pessoa X, que é odiada pelo público, está em risco de ser nomeada pelos colegas. A votação na positiva faz com que o telespectador, que quer ver essa pessoa expulsa, vá votar apenas no seu concorrente favorito. Isso não é “mascarar” os resultados?

Não é uma forma de mascarar! Porque é que só é justo votarem em mim para eu sair? Não é justo votarem em si para você ficar? Onde é que aqui está a questão da justiça? Não é tão válido você gostar de uma coisa como não gostar?

Também já aconteceu a produção fechar as votações na gala de domingo e abrir outras no próprio dia. Isto para expulsar um concorrente.

Isso acontece para surpreender os telespectadores. As pessoas deviam ver isso assim e não no sentido de estarmos a enganar ou a mascarar. Há aqui um complô contra as pessoas que trabalham nos programas. Pensam que somos maquiavélicos e que estamos de manhã à noite a pensar na forma de mascarar os resultados. Isso não existe! Porque é que só é justo que votem em mim para me eliminar? Porque é que o oposto não há de ser justo?

Como é que reage quando lê comentários desse género? 

Dá-me vontade de rir  [risos]. Vamos lá ver. É tudo uma questão de prespectiva. O copo está meio vazio ou meio cheio? Como eu estava a dizer, porque é que não será justo você ficar se 70% das pessoas estão a votar para que fique?

Mas é importante que os concorrentes que dão mais audiência se mantenham no reality show, mesmo contra a vontade dos portugueses. 

Mas eu vou querer pessoas que são indiferentes ao telespectador ou pessoas que deixam uma marca? Nós estamos a trabalhar para quem? Para o vazio? Nós não estamos a trabalhar para nós próprios. O que nós queremos, mais uma vez, é que exista um número maior possível de pessoas.

Desmente, portanto, qualquer guião que possa existir? 

A minha equipa tem lá tempo para fazer um guião! Eu vou explicar o que acontece. Nós temos uma régie com redatoras que acompanham toda a ação. “Vamos espreitar o que é que o Pedro está a dizer à Maria na sala”, “Vamos seguir o que é que o Pedro está a dizer à Maria porque ontem ela discutiu com ele e não tinha razão”. Elas fazem o relatório e dizem “Olha agora a conversa já não tem muito interesse porque estão a falar do tempo. Vamos passar para o quarto onde estão a Madalena e o Miguel a conversar sobre ex-namorados”. A determinada altura o assunto muda e passam a falar de manicura. “Vamos para a piscina onde estão agora a Rita e o Pedro que até gostam um do outro. A Rita tem ciúmes do Pedro e ele ontem à noite olhou para a Margarida. A Rita não gostou. Vamos manter a ação na piscina”. É este o trabalho feito. Ao final do dia chega a guionista que é quem pega nestes relatórios todos feitos durante o dia, faz um apanhado e escreve um guião com base no que aconteceu. Nós emitimos 35 minutos, não emitidos 24 horas. Tem de haver uma escolha do material. Essa guionista faz um resumo das ações que acha que têm de ser contempladas no Diário.

Mas são também os próprios concorrentes que acusam a produção de “mascarar” as imagens…

Mas qual mascarar? Ainda por cima, hoje até existe um canal 24 horas por dia que mostra as imagens. Eles [concorrentes] quando estão naqueles programas semanais dizem “ah não me lembro”. Eu até acredito que não se lembrem porque, entretanto, já aconteceu tanta coisa. Isso faz com que eles tenham uma perspectiva diferente da nossa e achem que mascaramos as imagens.

Na Casa dos Segredos 6, os concorrentes diziam que a produção só mostrava imagens da Helena. 

Eles só falavam da Helena [risos]. O tempo todo era usado para falar da Helena. Eles estavam na piscina, o assunto era Helena. Estavam na cozinha, o assunto era Helena [risos].

Qual foi o programa que mais gostou de produzir?

Danças do Mundo, da RTP 1, vai ficar como um dos programas da minha vida porque isto de viajar não é fácil. É muito difícil fazer a produção toda aqui [escritórios] e filmar depois no estrangeiro. O programa tem uma equipa pequena mas muito versátil que se desdobra.

O orçamento também não ajudou.

O facto de sermos poucos tem duas razões. A primeira, claro, é por uma questão económica e financeira. A segunda tem a ver com a mobilidade. Mover 10 pessoas não é  a mesma coisa que mover 20 pessoas. Aqui em Portugal já é difícil, então ir para o Brasil…

A TVI estreia em setembro uma nova edição portuguesa de Operação Triunfo, que será produzida pela Endemol. Sabendo que a televisão vive do presente e não do passado, faz sentido o regresso de um programa que tem já 14 anos? 

A Operação Triunfo teve quatro séries em Portugal, duas delas não foram feitas por nós mas por uma produtora do grupo. Nós produzimos as edições de 2008 e 2010. É um formato que pessoalmente gosto muito. Acho que acontece naturalmente. Aconteceu o mesmo com o Ídolos que esteve uns tempos fora de antena. Fizemos a Quinta das Celebridades em 2004 e voltamos agora a fazê-lo.

É o programa ideal para destronar a liderança do The Voice Portugal

O The Voice é grande formato, muito bem pensado e tem ali uma série de ingredientes que são fantásticos. Não é à toa que é o mesmo criador do Big Brother [risos]. O senhor é absolutamente genial.

Vai ser música contra música! A Endemol vai ter de se destacar para ganhar a guerra das audiências. 

Claro! Em todos os programas temos de sobressair. Quando sou produtora de um programa para a FOX, eu não trabalho com menos eficácia e empenho do que quando trabalho para um programa de maior visibilidade. Os 5, 10, 100, 1000 ou 30 mil espectadores de um canal [por cabo] não são menos importantes que o milhão da TVI. Mal de mim. Eu gosto muito de trabalhar para a FOX porque me permite fazer outro tipo de conteúdos.

Espera manter-se na Endemol por muitos mais anos? 

Não vou falar do futuro. Um dia de cada vez [risos] Já estou aqui há muitos anos. Sinto-me bem e tenho um lema: “Enquanto me sentir bem e tratarem-me bem, está tudo bem”.

A Endemol é a melhor produtora em Portugal para se trabalhar? 

É a melhor para mim porque se não fosse já tinha mudado e ido à procura de melhor. Tenho muito respeito pelas outras produtoras concorrentes. Os profissionais são, na maioria, freelancers e tenho, também, o maior respeito por estes. Dá uma grande instabilidade mas percebo e respeito quando me dizem “Consegui melhor no outro lado”. Eu digo sempre: “Vai, um dia que seja possível para ambas as partes voltas”. Eu não sou nada de guardar rancores quando as pessoas são honestas comigo.