A Entrevista

A Entrevista – Lília Cabral

Por esta altura, está a caminho do Coliseu dos Recreios para a XVII Gala Globos de Ouro, onde vai entregar um prémio na categoria de teatro. Amanhã chega a casa dos portugueses como a Griselda de Fina Estampa.

Antes de todos estes acontecimentos, Lília Cabral esteve à conversa com A Televisão num encontro promovido pela TV Globo Portugal. Saiba as expectativas da atriz, alguns pormenores sobre a sua nova personagem e o que significou para alguém tão conhecida no Brasil, trabalhar ao lado do português Paulo Rocha.

 [quote]Há pessoas que dizem que não gostam muito das novelas brasileiras, mas dizem que gostam muito de mim e que vão ver Fina Estampa por minha causa.[/quote]

Quem é esta Griselda?

Quando ela veio para mim, ela já existia, pois o Aguinaldo conheceu-a na realidade. É uma mulher que faz tudo, mas o que significa fazer tudo? Ela faz tudo para sobreviver e essa sobrevivência faz com que abra mão do lado feminino dela, principalmente, para poder colocar comida na mesa para os filhos desde que o marido desapareceu no mar e nunca mais apareceu. Esse é o primeiro impacto que vemos. Como personagem, posso dizer que é mãe, uma mãe dura, que impõe limites, mas que ao mesmo tempo é carinhosa. Sobrevive a trabalhar com muita honestidade. Como mulher, tem tudo o que uma mulher tem. Só não vive as coisas que uma mulher vive, não sai com as amigas. A preocupação dela é a sobrevivência, inclusivamente no seu visual. É uma personagem simples, porque a vida, na forma de vivermos e sobrevivermos, é simples. Os nossos sentimentos, os sentimentos que a personagem tem são sentimentos que todos nós conhecemos. Esta é a mulher que o Aguinaldo me deu a honra de interpretar, de viver, porque não havia meio termo, ou vivia, e me enfiava de cabeça, ou eu não fazia.

[pullquote_right] A Griselda é a mulher que o Aguinaldo Silva me deu a honra de interpretar, de viver, porque não havia meio termo, ou vivia, e me enfiava de cabeça, ou eu não fazia.[/pullquote_right]

Como é que encarou a imagem da Griselda no ecrã, uma mulher pouco feminina?

Nem sei. Agora paramos para pensar como foi. Durou muito tempo. Ela é uma pessoa que não tem vaidade, então deixa crescer o buço e fica com ele. Toma banho, lava o rosto, mas não usa maquilhagem, batom, não se cuida. Uma das coisas que a filha lhe dizia sempre era que se devia melhorar, porque tem capacidade de ser outra pessoa, mas na cabeça dela não passava isso. A Griselda tinha alma, o Aguinaldo escreve com o coração. O coração está presente na personagem, nas cenas que eu tinha com os filhos, nas cenas que fazia na rua, o quotidiano dela, a andar e cumprimentar as pessoas. Se eu mexesse em qualquer coisa, ficaria frágil, parecia assim: a atriz a tentar melhorar uma situação que não sabe resolver. Foi difícil? Foi. Ficar no camarim ver todos a ficarem lindos e eu com um bigode… (risos). É difícil. Como atriz, o lado da vaidade é muito grande, nós não nos queremos apresentar assim, mas o nosso verdadeiro trabalho é este. E tenho que pensar ‘o que é que eu quero como atriz’? Sair na capa de uma revista, estar perfeita, ou contar uma história e ficar para a história? Se acertar, vou ficar e vou ser lembrada. O autor vai-me admirar. O que é que eu quero? Quero mostrar que tenho capacidades de dar vida àquilo que o autor me escreveu, ou eu quero só ficar linda? Tenho que abrir mão de tudo. Dizer que foi fácil? Não foi. Dizer que corri o risco? Corri. Tenho um diretor amigo meu que dizia nos sites escreviam que eu tava parecida com o (Hugo) Chavez. (risos) E disse-lhe que isto tinha que ser assim e que ia fazer com verdade, e acreditar que esta personagem existe, porque ela é escrita assim. Ela está no texto, eu acredito nela. Se acredito nela escrita, as pessoas têm que acreditar que ela existe ao verem-na. Então, cada vez que me diziam que eu parecia o Chavez, ficava com mais raiva e dizia que não ia tirar o boné (risos).

Mas, ainda assim, fazia furor entre os homens…

Tinha muito medo. Isto serve para ver como o Paulo (Rocha) foi fundamental e como o Dalton (Vigh) também foi, porque eles não olhavam para o lado vaidoso da mulher, o lado sensual. O Guaracy olhava com um olhar terno, o olhar de apaixonado dele era um olhar pela pessoa, a forma de esta mulher ser mãe, a dona de casa, a trabalhadora e isso é que fascinava o dono de uma padaria. E o Dalton, quando se apaixona, vê em que condições esta mulher foi crescendo na vida e que nada a abalou. Ela continuou com as verdades na defesa, com a mesma categoria que ela tinha quando pegava na mala de ferramentas dela. Então este crescer, este olhar dos homens foi muito significativo. Toda a gente dizia “como é que este homem lindo vai gostar desta mulher?” Depois de algum tempo, as pessoas começaram a acreditar, porque o ator fazia com tanta verdade, e o olhar dele era tão bom, que até eu acreditei (risos).

Tornou-se boa mecânica, na realidade?

Bem, aleijei-me várias vezes. Logo no ínicio, houve um episódio em que ia concertar uma bomba na praia e a chave de grifo e esqueci-me de que ela tinha que estar presa, então bati com a chave e o dedo foi fazer companhia (risos). Mas o tempo foi-me ensinando a mexer com muita habilidade e tudo, mas tinha dois assistentes que sabiam tudo e iam ajudando. E enquanto eu não sentia que estava pronta, não começava a gravar. Treinava sempre antes. Mas houve várias situações em que nos aleijamos, mas acabou por ficar sempre tudo bem.

Na novela tem como rival Christianne Torloni. A imprensa brasileira chegou a escrever que na realidade também havia uma rivalidade entre vocês as duas. É verdade?

A imprensa brasileira é uma beleza (risos). Nem dava tempo para ter qualquer tipo de rivalidade, porque o Aguinaldo caprichava bastante nas nossas cenas, e não eram poucas. Tanto eu, como ela, como o Marcelo Serrado e mais alguns atores. Os nossos núcleos eram núcleos recheados de cenas e de cenas do quotidiano, mas que dão trabalho a fazer. Não é só porque atravessamos a rua, não é assim. Não é só uma cena. Nós tínhamos uma quantidade muito grande, não dava tempo. E eu e a Chris demo-nos muito bem. As cenas que tínhamos juntas eram sempre muito boas de se fazer, porque o Aguinaldo, quando escreve, dentro da história, do universo dele, é sempre fundamentado também. A inteligência junta-se ao bom humor e à capacidade de prendermos a atenção. São ganchos que ele arma e que estavam nas nossas mãos, porque era uma rivalidade entre duas mulheres. Uma com todo o glamour e a outra de macacão. E a tendência é o público parar para ver o que vai acontecer. E montar a cena era uma delícia de se fazer. Se há uma coisa que nunca houve, foi sequer uma rivalidade. Pelo contrário, demo-nos muito bem. Existe sempre uma tendência a mostrar alguma coisa, acho que em todos os países, quando se trata de duas figuras públicas e que num trabalho existe um embate, há sempre uma necessidade de falar disto. Mas sempre trabalhei pela minha descrição e sempre procuro um trabalho de equipa, e quanto melhor estivermos com ela, melhor será o resultado. Então se há uma coisa que não quero, é provocar qualquer tipo de situação em que nos sentamos desconfortáveis, ainda para mais porque estamos a trabalhar juntos durante um ano. A Chris foi maravilhosa, fez um trabalho lindo e foi uma companheira ótima de se trabalhar. Diferente de mim, sou mais simples do que ela, mas em compensação, ela ensinou-me muita coisa. Houve uma verdadeira troca de aprendizagens.

[pullquote_left]A Griselda tinha alma, o Aguinaldo escreve com o coração. O coração está presente na personagem, nas cenas que eu tinha com os filhos, nas cenas que fazia na rua, o quotidiano dela, a andar e cumprimentar as pessoas. [/pullquote_left]

A Griselda é açoriana, a sua mãe também era. Já foi até lá?

Já, já, já fui aos Açores. É lindo. É encantador. O único problema é que é uma ilha vulcânica e quem vive lá não percebe que tem aquele cheiro do enxofre e as pessoas vivem com isso. Mas, em compensação, é um dos lugares mais bonitos que já conheci na minha vida. Em qualquer local da ilha de São Miguel, vemos o mar, e é de um azul que não existe em outro lugar do mundo. E se formos na Primavera, vemos a lagoa rodeada de hortenses. É a coisa mais deslumbrante que tem.

Como é que foi trabalhar com o Paulo Rocha?

Foi um prazer. Foi encantador. Logo de início, ele veio ao Brasil, foi ver o meu espectáculo, e, de caras, identificámo-nos um com o outro. É um excelente ator e, na primeira cena que gravou comigo, a minha intuição disse: ‘vai dar certo, vai dar certo mesmo’. E deu, tanto deu que ele no fim acaba com a Griselda. (risos). Ele é um encanto de pessoa, um ator maravilhoso, sensível, extremamente educado, foi um prazer tê-lo. Tanto, que a Rede Globo não o deixou regressar, de tão bem sucedido que ele foi. Fez um sucesso muito grande e nada abalou o comportamento dele. Da forma como chegou, terminou a novela, muito profissional, sempre muito aberto a receber todas as orientações. Foi muito bom. E hoje somos amigos.

Como é que os atores brasileiros vêem a ida dos atores portugueses para as novelas brasileiras?

No nosso caso, recebemos o Paulo com muito carinho, o Ricardo Pereira também é adorado, é uma pessoa muito querida e que tem uma atitude muito simpática. A Marina Mota é uma excelente atriz. Ela fez um trabalho lindo em Aquele Beijo. Vi pouquíssimo a novela, mas todas as vezes que via, a Marina estava excelente. As pessoas chegam a um país que não é o deles. Acho que a nossa obrigação é de receber bem, porque não significa que estão a tirar o lugar a atores brasileiros, a Rede Globo tem muitos atores contratados e muitas produções. Quem está contratado, está a trabalhar. Está sempre a fazer alguma coisa, ou vai fazer alguma coisa. Acho que não podemos pensar que estão a tirar o lugar, não. Nunca pensei assim, porque pode acontecer o contrário. Não vou receber mal uma pessoa, porque um dia não sei se vou trabalhar em outro país e se isso acontecer, quero ser bem recebida.

[pullquote_left]A Marina Mota é uma excelente atriz. Ela fez um trabalho lindo em Aquele Beijo. Vi pouquíssimo a novela, mas todas as vezes que via, a Marina estava excelente.[/pullquote_left]

A hipótese de vir trabalhar para Portugal coloca-se?

Mais ou menos (risos). Por enquanto não. Tenho a minha casa, a minha filha, a minha vida. É complicado, mas mais para a frente, nunca se sabe. Fazer o papel de uma senhorinha, quem sabe.

Sente-se acarinhada no nosso país?

Se sinto (risos). Dá vontade de gravar e mostrar para toda a gente como me tratam. É muito bom.

Costumam falar consigo, dizer que a vêem nas novelas?

Todos. Há pessoas que dizem que não gostam muito das novelas brasileiras (risos), mas dizem que gostam muito de mim e que vão ver Fina Estampa por minha causa. (risos) Mas as pessoas são muito carinhosas, afectuosas, sinto-me muito bem aqui. Aqui a proximidade é respeitosa e fazem questão de dizer que conhecem do trabalho em televisão e isso, para nós, é muito importante, porque não é uma coisa festiva. O Brasil tem muito o lado festivo, porque estão acostumados connosco. Aqui, se alguém chega ao lado para dizer o que dizem é porque nos respeitam mesmo e fazem questão de o dizer.

Se pudesse escolher três personagens que tenham marcado a sua carreira, quais seriam?

A Griselda, sem dúvida nenhuma. A Marta de Páginas da Vida e Amorzinho de Tieta. Amorzinho foi uma personagem que não queria fazer ao início e de que toda a gente se recorda, uma personagem com a qual criei um carinho especial.

E a Marta porquê?

Não é porque era uma vilã, mas sim porque foi um desafio muito grande. Dizer todos aqueles textos bárbaros, horríveis, pesados, dentro de um limite. Aquela personagem existe, aquela mulher existia daquela forma. As pessoas pensam assim. Só que a hipocrisia impede-nos de perceber quem realmente pensa assim. Então era difícil. Convivia com a menina, que tinha síndrome de Down. Lá dentro, eu era uma pessoa completamente diferente daquilo que penso. Não havia meio termo. As cenas eram muito difíceis. A filha morreu e ela não chorava. Era uma mulher amarga em todos os sentidos. Era vazia. E como é que mostramos isso? Foi um trabalho pesado. As pessoas odiavam-me.

Qual é o papel que gostaria de fazer a seguir?

Gostava de fazer uma vilã, velha. Queria fazer uma vilã do Aguinaldo. Era um sonho, porque todas as vilãs do Aguinaldo são um sucesso. São tão bem escritas, é uma delícia de ler. Se é uma delícia de ler, é claro que deve ser uma delícia de fazer. Papéis, nós gostamos de fazer o bom papel. Nunca pensei, por exemplo, que pudesse fazer uma heroína, mas pensei sempre que no dia em que eu fizesse uma heroína, não me iria colocar no papel de heroína, porque acho que muitas vezes papéis como estes não vão para a frente porque se colocam numa coisa meio piegas/sensacionalista, um lado e um olhar de coitado. Da mesma forma que sempre disse que quando fizer uma vilã, não ia olhar com cara feia para mostrar que sou uma vilã. E quando interpretei a Marta, na rua, ninguém sabia que eu sou do mal. Mas ela é do mau. O ambiente fica pesado.

  • João

    Muito boa a entrevista. Parabéns a todos, inclusive à Lilia.

  • Andre

    É a melhor actriz brasileira da actualidade, sem dúvida.

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