A Entrevista

A Entrevista – Hans Donner

Hans Donner A Entrevista

Hans Donner é o designer de televisão mais famoso do Mundo. Austríaco e naturalizado brasileiro, criou há mais de 30 anos a imagem gráfica da TV Globo. E desde a década de 70 que Hans Donner é também responsável pela maioria dos genéricos dos programas da estação brasileira, como «Viva o Gordo», «TV Xuxa», «Zorra Total», «Fantástico», entre muitos outros, bem como de inúmeras novelas, tais como «Ti Ti Ti», «Tieta», «Rainha da Sucata», «Mulheres de Areia», «Roque Santeiro», «Vale Tudo», entre outras.

O designer foi também responsável, em 1986, pela marca e filme comemorativos dos 10 anos do Centro Georges Pompidou (Paris) e pelo projeto Design do Tempo, que consiste num novo conceito para medir a passagem do tempo e que lhe valeu um contrato com a Microsoft para lançar o Timension, um relógio com design futurista.

Numa altura em que se comemoraram os 20 anos da SIC, Hans Donner, o designer que fez a primeira imagem visual da estação de Carnaxide, trouxe até Portugal uma exposição dedicada ao seu trabalho (aberta ao público na sede da TV Globo Portugal, em Lisboa), intitulada «Design. Inovação. Tempo». E foi no cocktail de inauguração da exposição que A Televisão esteve à conversa com o designer.

[quote]Eu lutei pela Globo, há 36 anos atrás, e durante um ano passei fome.”[/quote]

Onde é que se inspirou para criar o logotipo da TV Globo?

O logotipo nasceu num guardanapo, no avião. Eu saí de um possível convite para fazer a marca da Globo e, espontaneamente, eu peguei num guardanapo dentro da Swiss Air, voltando do Brasil, da minha visita de aventura em achar um emprego, de volta para a Europa. E o primeiro desenho que saiu foi, literalmente, só segurando a caneta. Mas é fácil! A televisão, a Globo, já tem um nome maravilhoso, que é uma esfera. E como o meu trabalho era muito 3D, muito volume, muito claro e escuro, eu imediatamente passei a pensar como é que o Mundo vive dentro de um ecrã. Esse é o símbolo da Globo.

E foi logo o primeiro esboço?

Teve vários ainda, porque eu fiquei muitos meses esperando o convite definitivo para ir fazer o trabalho lá. Mas pode ter a certeza que aquele primeiro desenho saiu daquela viagem.

Depois daquele logotipo surgiram os genéricos dos programas da TV Globo.

Na verdade, o mundo da televisão eu não conhecia. Quando desenhei a marca da Globo, eu não podia imaginar o buraco maravilhoso que se iria abrir, pois havia tantos outros logos, animações, vinhetas e genéricos. Agora, com certeza, cada produto da televisão foi tratado como se fosse uma empresa, pois cada novela tem a sua cara, tem o seu estilo, a sua filosofia.

Depois de tantos trabalhos que já fez, há algum que consegue ter um principal carinho?

No genérico do «Planeta dos Homens» vejo uma mulher saindo da banana e eu tenho um carinho especial porque ele fez o Brasil acordar e dizer «Uau! Tem um louco aqui que faz uma coisa dessas!». Em 1978! Em 78, o Brasil não acreditou que estava em casa a ver isso na televisão. Nenhuma televisão do Mundo tinha feito. Esse é o principal, por esse eu tenho um carinho porque foi o sinal para os brasileiros que estavam outras coisas por vir. Mas se eu tivesse que escolher, obviamente que escolheria o genérico do «Fantástico», em 1983, pois esse virou, literalmente, a razão da Globo se tornar número um no Mundo. Mas tem vários. Cada um é feito com carinho, com muitos momentos mágicos.

Com o genérico de «Explode Coração», em 1995, dizem que o Hans inventou o iPAD.

Aquele foi o trabalho em que eu podia usar o meu universo de design, que vai além do tempo, que podia colocar dentro de uma novela. Porque a novela tinha uma história meio futurista, de um homem que clona uma mulher que está a ver pelo ecrã, e então isso era uma brincadeira. Teve, sim, coisas parecidas, de tocar num ecrã e ampliar… Por acaso, anos depois, apareceram os iPODs, os iPADs, etc., mas não fui eu, nem ninguém da minha equipa! Foi uma brincadeira que casou com uma coisa que já estava por vir. Mas foi um trabalho que eu gostei muito de fazer.

Foi também o criador do Timension, um novo conceito de relógio. Que importância este projeto tem para si?

O que marca algo envelhecer é o relógio. E aí veio na minha cabeça criar o Design do Tempo, que ultrapassa qualquer trabalho que tenha feito, que já está velho e cada dia vai ficar mais velho. O homem está acostumado a ver o tempo assim [formato digital], como bomba-relógio. Agora compara o Design do Tempo com o que os homens inventaram para marcar o tempo. Esta é a missão da minha vida que já tem 26 anos. Não se compara com nenhum logotipo que jamais o homem fez, nem da NASA, nem do Google, nem da Globo, nem da Microsoft! Quando você coloca o tempo com a beleza, você quebra o paradigma. Imagine um relógio assim, com luz, a 30 metros de altura, no Rio de Janeiro?

As pessoas ficam fascinadas?

Todo o Mundo! Isto [o relógio] é futuro, mas ele veio do início do Universo. Sabe porquê? Porque é luz. O nosso Universo começou com luz. Este é o maior trabalho da minha vida.

Agora que passaram 20 anos do nascimento do primeiro canal privado português, como foi criar o logotipo da SIC?

O Balsemão foi muito carinhoso quando me contratou e foi generoso em me deixar fazer e plantar o visual inicial. Então foi uma coisa muito especial. Eu saí da Europa e conquistei o melhor emprego do Mundo – à Globo não existe nada igual! – e voltei para a Europa através da SIC. E trazendo cores que nenhuma televisão da Europa sonhava há 20 anos atrás. Porque o meu design mudou em função do Brasil. Eu mudei imediatamente o meu design europeu e adicionei cor e alegria. Um dia eu falei: «Se eu voltar para a Europa, eu vou integrar também alegria numa televisão que não é do Brasil».

E o que lhe disseram, na altura, quando teve que criar o logotipo da SIC?

Já conheciam o meu estilo de design. Aí eu inseri uma cor e uma linguagem parecida, pois todo o meu design é parecido, numa filosofia só. Deram-me muita liberdade de criar.

A sua equipa foi responsável pelos genéricos de «Laços de Sangue» e do remake de «Dancin’ Days». Quando entrega um trabalho à sua equipa, depois passa tudo por si?

Durante 37 anos tudo passou por mim, menos nos últimos dois anos, quando assumi na Globo o papel de Supervisor de Designer. «Laços de Sangue» e «Dancin’ Days» foi um trabalho já feito pela minha equipa, que hoje não é mais completamente ligada a mim. Hoje cuido praticamente da identidade visual da marca da Globo. Os genéricos que eu fiz durante 37 anos, hoje a equipa que estava ligada a mim é que os faz. Esse trabalho eu não faço mais, até para ter tempo para cuidar dos meus filhos e dos filhos do design.

E quanto tempo é que se demora a fazer um genérico?

Antigamente era um trabalho muito mais braçal, muito mais inventivo,…

Mais saboroso?

Eu adorava fazer! Claro que as máquinas são maravilhosas, os computadores são maravilhosos. Mas você sente quando o trabalho é feito com a mão. O telespectador sente mais no coração.

Está habituado a fazer trabalhos vencedores?

Eu sou um pouco sortudo, pois sempre encontrei pessoas que me deixaram realizar o meu sonho e eu ajudei a realizar o sonho deles. Eu lutei pela Globo, há 36 anos atrás, e durante um ano passei fome. Um ano para ter o melhor emprego de designer de televisão do Mundo.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=1RjThed0kXQ]

/* ]]> */

Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close