A Entrevista

A Entrevista – Cláudio Ramos

Tem trinta e oito anos, mas há quem diga que parece um jovem de vinte. É direto, frontal e não tem papas na língua. Conhecido pelo seu estilo único, é actualmente uma das caras do Jornal Rosa, que às segundas e sextas-feiras enche de cor as manhãs do canal de Carnaxide. Numa altura em que se comemora o primeiro aniversário do Querida Júlia, A Televisão esteve à conversa com Cláudio Ramos. Os segredos de um homem lutador, a doença que o assustou recentemente, os desejos para o futuro e a vida de alguém que fala muito sobre a “vida dos outros”.

Eis o “único comentador de comportamentos mediáticos em Portugal”, como o próprio se intitula.

[quote]Sou um comentador de comportamentos mediáticos e em Portugal sou o único. Ninguém faz o que eu faço, como eu faço.”[/quote]

A Televisão – Começaste como ator, mas hoje és um dos mais conhecidos críticos do social no nosso país. Volvidos tantos anos, como olhas para o caminho que a tua carreira tomou?

Cláudio Ramos – Para começarmos bem isto, não me chames ‘critico social’, que é uma conjugação péssima e que eu detesto! Sou, olhando assim de repente, um comentador de comportamentos mediáticos e em Portugal sou o único. Ninguém faz o que eu faço, como eu faço. Quando representei, nunca foi com a vontade de ser ator, mas de conseguir encontrar um caminho e sustentar-me. Acho que se tivesse ido por esse caminho tinha sido mais fácil! O meu caminho, em Portugal não há carreiras, seguiu um rumo natural ao sabor dos projetos que foram aparecendo e das oportunidades que criei. Não estou insatisfeito, com ele… de vez em quando decepcionado (sorri).

Image and video hosting by TinyPicA Televisão – Alguma vez imaginaste chegar onde chegaste?

Sim. Sempre! Mas quando me imagino, imagino-me a fazer milhões de outras coisas, e não acho que tenha chegado a nenhum lugar especial. Mas sim, se recuar dez anos… conquistei muita coisa.

A Televisão – Qual o segredo do teu sucesso?

Trabalho. Trabalho. Trabalho. Eu trabalho muito, trabalho mais do que a maioria das pessoas da área porque tenho a dedicação absoluta pela minha profissão. Se faço, faço bem feito. E depois é importante não estagnar, criar objetivos e oportunidades.

[pullquote_left](Hoje em dia, um novo “Noite Marcianas” faria) todo o sentido comigo a apresentar.”[/pullquote_left]

A Televisão – Que recordações guardas dos tempos do Noites Marcianas?

Medo. Muito medo e desconfiança de tudo o que me era apresentado. O dinheiro, o reconhecimento… O Noites Marcianas foi um belo presente, mas talvez envenenado, porque naquele tempo eu era muito novo e não tive a noção de que iria marcar o meu caminho todo a partir daquela terça-feira. Guardo a recordação de ser novo e de ter muita responsabilidade, senti que a partir do segundo programa, esperavam mito de mim. Talvez demais!

A Televisão – Achas que hoje em dia faria sentido um programa como esse na televisão portuguesa?

Todo o sentido, comigo a apresentar. Agora é que fazia sentido, naquele tempo veio antes de época. Poucos o entenderam.

A Televisão – Tertúlia Cor-de-Rosa, Capa de Revista ou Jornal Rosa, qual destes espaços mais gozo te deu fazer?

O Capa de Revista foi uma coisa muito divertida e que gostei de fazer todos os dias que ele durou. 100 programas muito, muito bons. Em qualquer lado do mundo se teria transformado aquilo num programa autónomo. Não duvido nada do seu resultado! O Jornal dá-me muito prazer e muito trabalho, porque não é fácil fazer um projeto daqueles e trazer novidades e formas de as embrulhar duas vezes por semana.

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A Televisão – Entre estes três espaços deste ainda a cara pelo Cara Nova, no extinto Vida Nova. O que significou para ti fazer esta rubrica? Gostavas de voltar a fazer algo do género?

A certeza de que eu sou um comunicador por quem as pessoas sentem carinho. Entrar em casa das pessoas, mudar o registo de um momento para o outro em televisão e conseguir fazer 40% de share à tarde não é fácil. Eu consegui fazer isso com uma equipa muito pequena a trabalhar comigo. Foi um presente e tenho muita pena que tenha acabado sem se esgotar. Gostava muito de repetir o conceito, muito mesmo. Não mudar de visual, que isso é-me indiferente, mas mudar a vida das pessoas como mudei. Ainda hoje elas dizem isso![pullquote_right]Entrar em casa das pessoas, mudar o registo de um momento para o outro em televisão e conseguir fazer 40% de share à tarde não é fácil.”[/pullquote_right]

A Televisão – Durante o tempo em que fizeste o Cara Nova houve um momento que te deve ter custado particularmente, quando ficaste doente. Alguma vez chegaste a temer pela tua vida? Pela tua continuidade em televisão?

Odeio hospitais, odeio tudo o que tenha a ver com doenças e esse ano para mim foi muito complicado. Tive uma paralisia facial, logo depois uma peritonite aguda… foi um ano que não gosto de recordar. Não temi, mas fiz muitos exames e continuei a trabalhar até se descobrir o que tinha. Foi um momento complicado, mas tive todo o apoio da equipa e da direção da SIC no momento. O Daniel Cruzeiro, que era da direção, quem acompanhava mais os conteúdos nunca me deixou sentir inseguro. Estive afastado dois meses, e uma coisa aconteceu imediatamente a seguir à outra. Perdi muito peso e desmoralizei um bocado… Já passou!Image and video hosting by TinyPic

A Televisão – Ao longo de todos estes anos em televisão já te cruzaste com muitas caras conhecidas, mas sem dúvida que ninguém esquece a tua relação com a Fátima Lopes. Estiveste durante muitos anos ao lado dela, mas hoje estão em estações concorrentes. Como viste a saída dela para a TVI?

Vi com os olhos de quem deseja o melhor aos seus amigos. Não sou de dar palpites ou interferir nas decisões dos meus amigos quando eles apresentam o facto consumado e estão felizes com o resultado.

A Televisão – Esta alteração de rumos provocou alguma mudança na vossa relação?

Nada! Nós continuamos amigos, falamos muitas vezes e somos vizinhos… raramente falamos de televisão, a vida tem outras coisas.

A Televisão – E com a Ana Marques? Depois do sucesso do Capa de Revista estão novamente juntos com o Querida Júlia. Sentem que a vossa dupla teria sucesso em outro tipo de formato?

Sinto e tenho a certeza. Eu e a Ana teremos sucesso como dupla, porque nos conhecemos, nos respeitamos e gostamos um do outro. Isso é visível. Neste ou em outro tipo de formato popular.

A Televisão – Há ainda a Júlia Pinheiro com quem voltaste a trabalhar recentemente. Como é a vossa relação?

Muito boa, na base da confiança mutua. Foi a Júlia que me convidou para este projeto, logo só posso estar grato e dar-lhe a certeza do meu empenho e dedicação.[pullquote_right]A Júlia (Pinheiro) sabe muito bem o que eu quero fazer”.[/pullquote_right]

A Televisão – Já lhe pediste um programa independente sobre o social na SIC?

Já lhe pedi tantas coisas, mas não necessariamente um programa de social, que até nem é ao que acho mais graça! (risos) A Júlia sabe muito bem o que eu quero fazer. Ela tem muita gente para ‘orientar e dirigir’ não pode ser tudo ao mesmo tempo.Image and video hosting by TinyPic

A Televisão – Há pouco tempo surgiu a notícia de que tinham existido encontros entre ti e a direcção da TVI. Sentes que é uma prova de que a concorrência está atenta ao teu trabalho e sabe do teu talento?

Obviamente que sei que a concorrência está atenta ao meu trabalho, como eu estou atento ao deles. É normal!

A Televisão – Tens um estilo inconfundível e não tens papas na língua. Já tiveste muitos problemas por causa disso?

Nunca tive problemas com isso profissionalmente, mas sei que sendo assim crio alguns anticorpos, mas prefiro dormir de consciência tranquila. Sinto-me muito bem assim.

A Televisão – Achas que tens mais pessoas que gostam de ti, ou que não apreciam o teu trabalho?

Não tenho nenhuma dúvidas de que a maioria das pessoas gosta de mim, que apreciam o meu trabalho, mas sei também que no meio há gente que me detesta, e que me queria ver fora do circuito.

[pullquote_left]Não tenho nenhuma dúvidas de que a maioria das pessoas gosta de mim.”[/pullquote_left]

A Televisão – Estando tu sempre a falar sobre o que sai nas revistas, com certeza que também já estas preparado para ler o que estas escrevem sobre ti. Qual a maior mentira que já escreveram sobre a tua pessoa?

Tantas!!! Não as coleciono, escreveram-se até hoje mais mentiras sobre mim do que verdades. Acredita!

 A Televisão – Recentemente abraçaste um novo projecto, nomeadamente a crónica Fases da Lua, no novo suplemento do Jornal de Notícias, o Notícias In. Como surgiu essa possibilidade?

Já tinha trabalhado com o Nuno Azinheira (diretor) no 24 horas, e mantenho, desde aí, com ele uma excelente relação, agora neste novo projeto ele convidou-me, explicou o que pretendia e cá estamos. Prontos para vencer!

[quote]Chorei muito no dia em que soube que o 24 horas fechava. (…) é chocante perceber que o único jornal a sério de celebridades e show biz acabava assim de repente.”[/quote]

A Televisão – Ao nível da imprensa escreves também para a TV Mais e eras um dos cronistas do extinto 24 Horas. Como viste o fecho do jornal? O que significou para ti esta experiência?

Chorei muito no dia em que soube que o 24 horas fechava. Não por deixar de ter a crónica, ou deixar de receber dinheiro, porque graças a Deus trabalho nunca me faltou, mas é chocante perceber que o único jornal a sério de celebridades e show biz acabava assim de repente. Portugal não soube entender o jornal. Foi um plataforma para muita gente. Era um tablóide sem pudores, e eu gosto disso.

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A Televisão – É importante para ti conjugar esta parte do aparecer em televisão com a crítica na imprensa?

Eu sempre escrevi mesmo sem estar na televisão. Já escrevia antes em outras revistas. Tenho a noção de que a televisão criou o nome, que o faz ser mais caro mas também mais credível. Não há nada que eu escreva que não seja verdade e também não acho que uma coisa tenha que estar ligada à outra. O trabalho de televisão nem sempre se coaduna com a escrita. Veja-se o caso do Cara Nova, que nada o ligava ás minhas crónicas.

[pullquote_right]Não há nada que eu escreva que não seja verdade.”[/pullquote_right]

A Televisão – E livros? Para quando um novo do Cláudio Ramos?

Ui, isso dá um trabalho e exige tanto tempo e disponibilidade… e tenho a editora a puxar-me as orelhas’ todos os dias!!!

A Televisão – Ator, escritor, jornalista, crítico, apresentador, concorrente de reality-shows, radialista, comentador, celebridade, professor, homem, pai, irmão, tio, filho, amigo. Quem é, afinal, o Cláudio Ramos?

Isso tudo misturado. Mais umas coisas que outras. Mas sou isso tudo, tudo isso me completa.

[quote]É mais fácil ser o Cláudio longe disto tudo”[/quote]

A Televisão – Que diferenças há entre o Cláudio e o Cláudio Ramos? É mais fácil ser qual deles?

É mais fácil ser o Cláudio longe disto tudo, metido com os seus amigos no Alentejo a olhar par a filha a rir com a família, ou a viajar muito para lugares onde ninguém sequer sonhe quem sou eu, me aponte o dedo ou me olhe de lado… (por pouco tempo. Porque depois fico com saudades)Image and video hosting by TinyPic

A Televisão – O que é mais complicado neste complexo mundo da televisão e das celebridades?

Perceber que tudo acaba de repente. Ter a vida estabilizada e preparada para isso. A fama não é nada. O que importa é o trabalho, já vi muitos colegas meus, mais novos e mais velhos completamente desorientados, porque não administraram bem a sua cabeça. Eu soube desde muito cedo arrumar gavetas.

A Televisão – Que sonhos ainda te faltam concretizar?

Tantos… quase todos… assim de repente, ir ali a Amesterdão uma semana em março. (sorri)

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