A Entrevista

A Entrevista – António Barreira

A entrevista António Barreira

A entrevista António Barreira

A poucos dias de olharmos para um novo enredo assinado por António Barreira – o homem que ergueu o primeiro Emmy português, com Meu Amor, e que esteve quase a arrecadar o segundo, com Remédio Santo -, e no dia em que olhámos para a sua primeira promoção, A Televisão convidou o argumentista para uma conversa centrada em Destinos Cruzados (nome provisório para a novela protagonizada por Alexandra Lencastre) e que deverá estrear nos primeiros dias de 2013 (se o Mundo, entretanto, não acabar, como brincou António Barreira). O resultado não podia ter sido melhor e vai poder vê-lo em seguida.


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A TelevisãoRemédio Santo não ganhou o Emmy. Estava à espera ou tinha confiança de que fosse invocado o nome da sua produção?

António Barreira – Todos os nomeados estão à espera de que as suas produções saiam vencedoras. Seria hipócrita se dissesse o contrário. Mas confesso que, neste ano, estava muito mais tranquilo do que em 2010, aquando da vitória de Meu Amor, pela simples razão de que já sabia como as coisas se processavam, desde as conferências até à gala, o que me permitiu desfrutar muito mais de tudo, sem ansiedades. A maior parte das pessoas não faz ideia de como são escolhidas as produções nomeadas. Já li barbaridades como serem avaliadas apenas pelos trailers. Só para que conste, o trailer que é feito cá nem sequer vai para avaliação. É preciso enviar sinopse, perfil dos personagens, episódios legendados e um sem número de requisitos que a Academia pede. E ainda nos pede que vendamos a história em apenas 100 palavras em Inglês. É um processo complicado, moroso e rigoroso. Mas os que chegam ali já são vencedores. E atenção que cada produtora ou estação produtora pode concorrer com os produtos que quiser, nas categorias que quiser. Não é só um produto (outra das barbaridades que já li escritas por alguns jornalistas de «renome», provocada obviamente pelo desconhecimento, mas sobre os quais impede a obrigação de estarem informados). As produções nomeadas são todas vencedoras, porque são as melhores do mundo. E este ano, segundo a Academia, houve um número recorde de inscrições na categoria de Telenovela, porque estamos a falar especificamente dessa. Só para terem noção: na Coreia, produzem-se mais de 20 novelas em simultâneo. É uma indústria fortíssima, que ocidentais desconhecem. Então, estar entre os melhores do mundo já é uma honra, até porque, quem é nomeado pela Academia (e no meu caso já vencedor), ostenta para o resto da vida nos EUA o título de «Nomeado» e «Vencedor». Já me sentia um vencedor por estar ali, com uma história na qual acreditei do primeiro ao último minuto. Ganhar o Emmy é o bónus. Não trouxe o bónus para Portugal (nem os meus colegas da SIC), mas voltei feliz e realizado. Nunca me passou pela cabeça ser nomeado uma única vez. Mas já fui nomeado, venci e voltei a ser nomeado. O que prova que nada é impossível e que as novelas portuguesas estão entre as melhores do mundo, por mais que as critiquem. Os especialistas na matéria – os membros do júri da Academia que as avaliam – acham o contrário e a esse reconheço créditos que não reconheço a certos críticos de televisão, dos quais não vi um único trabalho televisivo.
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aTV – Para além de Remédio Santo, também Rosa Fogo não conseguiu a estatueta. Que opinião tinha quanto a esta concorrência?

A.B. – Obviamente que Rosa Fogo, da minha amiga Patrícia Müller, é uma grande novela ou não estaria também entre as melhores do mundo. Mais uma vez, repito: somos bons a fazer novelas. No entanto, o espírito português acha que o que vem de fora é sempre melhor. E seja em que área for. Não falo especificamente de televisão, mas de todas as áreas. E depois lemos notícias sobre portugueses que tiveram que emigrar e são sérios casos de sucesso no estrangeiro. A nomeação de Rosa Fogo conjuntamente com a de Remédio Santo provou que a ficção portuguesa está aí para dar cartas.

aTV – O Emmy foi bem entregue a’O Astro? Porquê?

A.B. – A versão original de O Astro é a primeira novela de que tenho memória. Tinha cinco anos quando passou cá e relembro cenas incríveis do Tony Ramos, do Francisco Cuoco, da já falecida mas brilhante Dina Sfat… É um original da mestra, Janete Clair, que, curiosamente, sempre foi muito criticada e somente reconhecida após a sua morte. Enfim, uma injustiça tremenda… Mas o Alcides Nogueira e o Geraldo Carneiro (que tive o privilégio de conhecer em Nova Iorque e com os quais tive longas conversas, com belíssimos chás coreanos) fizeram uma releitura fantástica da obra original, mudaram perfil de personagens e, curiosamente, entraram num mundo místico, que não existia na primeira versão. No original, o personagem Herculano Quintanilha era um charlatão e ponto final. Agora ficámos na dúvida. Curiosamente, ninguém em Portugal criticou certas sequências, como ele transformar-se num pássaro para escapar à polícia. Mas houve quem criticasse os milagres da Santinha da Luz [n.r.: personagem de Sara Barradas em Remédio Santo]. É caso para dizer que santos da casa não fazem milagres. Esta versão de O Astro, apenas com 64 capítulos, permitiu que a história fosse contada a um ritmo vertiginoso, quase de série, o que é diferente em novelas com mais de 200 capítulos. Além disso, a produção era um luxo. O Brasil está em expansão, a TV Globo tem uma estrutura que outras produtoras não têm e que lhes permite fazer coisas incríveis. Foi bem entregue, sim senhor. Ainda que preferisse que qualquer uma das produções portuguesas ganhasse a estatueta. Mas, pela simpatia que geraram entre todos os presentes, os coreanos mereciam o bombom de ganhar o Emmy. Era uma comitiva para lá de simpática e engraçada. Ficaram-nos no coração.

aTV – E está confiante que Destinos Cruzados seja nomeado (bem sei que ainda é muito cedo, mas já demonstrou a confiança que tem neste enredo)? E poderá ganhar?

A.B. – A novela ainda nem sequer estreou. É estar a fazer previsões a muitíssimo longo prazo. E temos que ter em conta que o mundo pode acabar dia 21 deste mês… Nem penso em tal coisa neste momento.

aTV – Regressado a Portugal, concentra-se em Destinos Cruzados. De que se trata esta nova história?

A.B. – A história desta novela trata de extremos opostos da sociedade, de ricos muito ricos e pobres muito pobres, com uma classe média a desaparecer, tendo o «eu e o nosso reflexo» como ponto de partida. A sinopse está entregue há cerca de um ano, ainda estava a fazer o Remédio Santo. E nasceu duma forma muito curiosa. Estava a ler nessa altura os russos, nomeadamente O Duplo e Os Irmãos Karamazov, que falam de sósias e afins, quando um amigo meu me ligou a dizer que me tinha visto numa festa no Alentejo. Como sou alentejano, achei que poderia ser normal, mas eu não estava lá nas datas em que ele me disse. Nem tenho nenhum irmão gémeo (pelo menos que eu saiba). Então, ele explicou-me o que tinha acontecido: tinha visto uma pessoa igual a mim e foi inclusive cumprimentá-la. Só aí é que percebeu que não era eu. Deu-me o «estalo». Está aqui um belíssimo tema para uma novela – duas pessoas, que são iguais, passam a viver a vida uma da outra… Depois foi ir à atualidade buscar matéria prima e inspiração para que isto fosse possível e, obviamente, para todas as outras tramas da novela, que são duas, complexas, mas também cómicas e muito nossas.

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aTV – Está contente com o elenco escolhido?

A.B. – Eu fico sempre contente com os elencos que me têm calhado. Aliás, digo mesmo que sou um sortudo e abençoado nesse aspeto. Não vou aqui fazer a lista do elenco, até porque já é conhecida de praticamente toda a gente.

aTV – A novela foi alvo da crise? Em que fatores?

A.B. – Esta novela foi concebida tendo em conta já o fator crise. Nenhum autor pode ser alienado da realidade e fazer de conta que não estamos a viver uma das maiores crises económicas de sempre. Por isso, ao criarmos uma história, temos que levar isso em linha de conta. Por isso, a novela em si não foi afetada pela crise, porque ela foi construída dentro dos parâmetros que existem na produtora [n.r.: Plural].

aTV – O que nos pode contar da personagem de Maria João Bastos, que se prepara para cantar música popular nesta história?

A.B. – Para quem viu a Gala de Natal da TVI, já percebeu o que pode esperar de Liliane Marise, a personagem da Maria João. Curiosamente, essa personagem permite-me exercitar outra veia – a de letrista, já que faço as letras de todas as canções dela. E serão algumas durante a novela. Além disso, existiu o feliz acaso de terem escolhido duas músicas para a banda sonora, cujas letras foram escritas por mim e que estão a ser editadas em disco.

aTV – Porque é que Mafalda Pinto não participa na novela e foi substituída pela Jessica Athayde? Gostava de a ter tido em Destinos Cruzados?

A.B. – Como é do conhecimento geral, a Mafalda está no Brasil, aonde já fez vários trabalhos e pretende permanecer por lá. Obviamente que gostaria de trabalhar com ela. Mas eu gosto de trabalhar com toda a gente e acarinho muito as pessoas com quem trabalho. Veio a Jessica, que é um doce de pessoa, belíssima atriz e que tem uma energia positiva muito boa. Está tudo a correr às mil maravilhas.

aTV – Quanto à participação de Alexandra Lencastre, está confiante na sua prestação? Há quem esteja preocupado… Que personagens lhe reserva?

A.B. – Do material que já vi, posso dizer que a Alexandra está simplesmente soberba nas duas personagens. É uma atriz completíssima. Faz qualquer coisa bem e aqui está sublime. A minha única preocupação é que ela vai ter trabalho a dobrar com as duas sósias. De resto, deposito toda a confiança na Alexandra, bem como no excelente elenco que tenho. É maravilhoso. O elenco de sonho de qualquer autor.

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aTV – Está preparado para a luta nas audiências? Espera vencer?

A.B. – A luta de audiências está ao rubro, mas aqui vou usar uma frase do Manoel Carlos, um autor que toda a gente sabe que admiro: «Quando escrevo tenho que acreditar que a minha história é a melhor do mundo ou ninguém acredita». Eu e as minhas co-autoras (Elisabete Moreira, Lígia Dias e Sara Simões) acreditamos nessa máxima ao limite. Para nós, a nossa história é a melhor do mundo. O resto cabe ao público e não estou na cabeça dos espectadores para saber a escolha que irão fazer. Nós vamos continuar a trabalhar para dar sempre o máximo e fazer o melhor. O resto pertence ao futuro e este é uma incógnita.

  • Pedro

    Excelente entrevista!

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