A Entrevista

A Entrevista – Aguinaldo Silva

A Entrevista Aguinaldo Silva

Depois de supervisionar Laços de Sangue, Aguinaldo Silva regressou ao Brasil e estreou uma nova telenovela. Uma história popular e que tinha vários traços portugueses. A começar por Paulo Rocha, o Guaracy da trama, e a acabar em Griselda, a protagonista que tinha influências lusas. Fina Estampa chegou hoje ao nosso país e, ainda antes da estreia na SIC, o argumentista esteve à conversa, em exclusivo, com A Televisão.

 

As perspectivas para a estreia no nosso país. Os principais enredos. Histórias de bastidores. Elogios para Lília Cabral e uma grande vontade de levar para o Brasil Joana Santos. No meio de tudo isto, tempo ainda para o desejo de escrever uma telenovela para uma televisão nacional.

 

Eis Aguinaldo Silva, na primeira pessoa:

 

[quote] Estava um pouco cansado das novelas tão sofisticadas que temos feito e decidi fazer uma novela sobre pessoas comuns, com personagens comuns, pessoas simples, e mostrar como essas pessoas são interessantes, porque gente é interessante, toda a gente é interessante.[/quote]

Como é que surgiu a história desta telenovela?

Na verdade, conheci esta personagem (Griselda), nos anos setenta, exactamente como a Lília Cabral se veste no começo da novela, era uma senhora portuguesa, que morava no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, viúva, tinha três filhos, e como tinha muito jeito para pequenos concertos, o marido morreu, não tinha como sustentar a família, e ela começou a fazer trabalhos na casa das amigas, das vizinhas, e assim tornou-se conhecida no bairro inteiro, inclusivamente na minha casa, onde foi várias vezes. E achava-a uma personagem fascinante, porque era uma mulher totalmente masculinizada, pelo trabalho que fazia. Vestia-se, exactamente, como se veste a Griselda. E esta personagem penso que é uma personagem dos anos setenta.Pensava sempre ‘eu vou usar esta personagem’, mas esqueci-me dela e, de repente, numa masterclass que dei no Rio de Janeiro, a personagem brotou e surgiu a sinopse de Fina Estampa, que foi depois adaptada por mim e a TV Globo decidiu fazer a novela. Foi aí que surgiu a personagem.

 

Esta senhora ainda é viva?

Acho que não, porque nos anos setenta já era uma mulher de quase cinquenta anos e não acredito que ainda seja viva.

Mas não conhece ninguém que tenha aparecido a dizer que a conhecia?

Não, não apareceu ninguém, embora tenha dito isto em várias entrevistas no Brasil, não apareceu ninguém a dizer ‘Eu sou o neto daquela fulana’. (risos)

Era importante criar uma história popular?

Sim, confesso que estava um pouco cansado das novelas tão sofisticadas que temos feito, começam com um tsunami no Japão, com um terramoto não sei onde, ou um desastre de avião, e pensei: ‘está a faltar gente nas nossas novelas”, pessoas comuns. E decidi fazer uma novela sobre pessoas comuns, com personagens comuns, pessoas simples, e mostrar como essas pessoas são interessantes, porque gente é interessante, todao a gente é interessante.

[pullquote_left] A Lília Cabral é uma grande atriz, uma das grandes atrizes brasileiras e queria uma personagem que ficasse na história das telenovela[/pullquote_left]

Como foi escrever uma personagem para a Lília Cabral, depois de tantos anos “afastados”?

A Lília era quase exclusiva do Manoel Carlos, então, quando pensávamos na Lília, dizíamos que ela já estava reservada para o Manoel Carlos, mas queria muito trabalhar com a Lília, mas não queria apenas trabalhar com a Lília. Queria dar-lhe uma protagonista, porque acho que ela é uma grande atriz, uma das grandes atrizes brasileiras e queria uma personagem que ficasse na história das telenovelas. Então eu me empenhei na Griselda para isso. Quando soube que teria a Lília, resolvi que ia dar tudo de mim para que esta personagem se tornasse inesquecível. Dei tudo de mim, mas a Lília deu muito mais. A Lília é a Griselda (risos).

Quando escreveu a Tereza Cristina (Christianne Torloni) tinha como objectivo fazê-la ainda mais má do que a Nazaré (Renata Sorrah) de Senhora do Destino?

Sim, tinha. Não acho que ela seja mais má do que a Nazaré, mas ela é como são sempre as minhas vilãs. Ela é terrível. Adoro escrever vilãs. Esse é um lado meu que solto nas vilãs. Mas ela fez um sucesso escandaloso como Tereza Cristina.

Quem também fez muito sucesso foi o Crô, vivido pelo Marcelo Serrado. Estava à espera da projeção toda que a personagem teve?

Não, não estava. O Crô tem uma história engraçada que é a seguinte: quando decidi escrevê-lo, resolvi que seria o Marcelo Serrado, que nem estava na Rede Globo, estava na Record. E as pessoas fizeram um delegado sanguinário, policial, corrupto e toda a gente me dizia: ‘mas porque é que queres o Serrado, a fazer um gay? Não tem nada a ver’ e eu disse ‘pois é, quero o Marcelo Serrado porque quero um ator hétero, porque um ator homossexual, não me vai surpreender e o ator hétero, se for um grande ator, vai dar uma personagem que me vai surpreender’. E aí disse isso ao Marcelo, ele achou estranho, mas ao mesmo tempo começou a interessar-se e aí fomos limando todas as dificuldades, porque ele era da Record, etc, e ele ficou com o Crô.

Sempre vai haver a tal série de que já se falou com esta personagem?

Não, não. O que se fala é de um especial de fim de ano. O problema é que o Marcelo já está a fazer a nova versão da Gabriela, na qual ele é um sedutor, que atrai todas as mulheres. E assim torna-se difícil ele voltar a vestir o Crô. (risos)

Como avalia o trabalho desenvolvido pelo Paulo Rocha?

Eu acho o Paulo Rocha um excelente ator. A primeira vez que o vi a trabalhar foi em Vingança, da SIC, e pensei que ele tem timing de televisão e passa uma sinceridade enorme quando olha para a câmara, é um ator em que valia a pena investir. Uma vez encontrei-me com ele e disse-lhe: ‘vou-te levar para o Brasil.’ E ele achou estranho. E esta história foi recorrente. Fomo-nos conhecendo, saíamos para jantar, eu, ele, o Rui (Vilhena), a Célia Caeiro (agente dele) e disse-lhe mais uma vez: ‘vou levar-te para o Brasil’ e criei esta personagem especialmente a pensar no Paulo.

Outro português não faria sentido nesta personagem?

Faria sentido, porque existem grandes atores portugueses, mas realmente pensei no Paulo, nas características físicas dele, em tudo isso para fazer o Guaracy.

 [pullquote_right]Sempre disse na TV Globo que eles tinham que levar o Rui Vilhena para lá, isso aconteceu e ele trabalhou na minha novela, porque precisava de ver como funciona a produção de uma novela no Brasil, mas não permiti que ele ficasse apenas a fazer isso. Meti-o a trabalhar.[/pullquote_right]

Estava à espera de que fizesse tanto sucesso?

Não sei. Na minha ideia de como terminaria a novela, eu sempre achei que ele terminaria com a Griselda, mas isso depende muito do trabalho dos atores. E, no primeiro beijo dos dois, não tive a menor dúvida. Mas houve uma grande torcida pelo Dalton (Vigh), até hoje, há gente que está insatisfeita, porque ficou muito dividido. Mas quem termina com a Grizelda é o Paulo Rocha.

Sente-se feliz com o sucesso que o Paulo está a ter no Brasil?

Sinto-me muito feliz, porque é uma vitória. Eu arrisquei tudo, assim como arrisquei com o Marcelo Serrado, e o Paulo foi contratado pela TV Globo. Querem que ele fique no Brasil, já vai fazer uma nova novela brasileira (o remake de Guerra dos Sexos).

A presença do Rui Vilhena na sua equipa, como correu?

Foi um sonho, porque eu e o Rui somos amigos há anos. Adoro o trabalho do Rui, acho-o um grande novelista. Sempre disse na TV Globo que eles tinham que levar o Rui para lá, isso aconteceu e ele trabalhou na minha novela, porque precisava de ver como funciona a produção de uma novela no Brasil, mas não permiti que ele ficasse apenas a fazer isso. Meti-o a trabalhar. (risos)

Acha que o facto de o ter na sua equipa, sendo ele um argumentista habituado à realidade que se vive em Portugal, ajudou a explorar essa parte mais portuguesa da novela?

Não, não, porque nem lhe dei estas personagens. O que ele escreveu muito foi para a Tereza Cristina e para o Crô. Por mais incrível que pareça, quem escreveu mais do Guaracy, era um colaborador meu chamado Rodrigo Ribeiro, que é filho de portugueses, mas nasceu no Brasil.

A novela chegou hoje a Portugal. Quais são as suas expectativas quanto à aceitação do público?

Espero que faça em Portugal o sucesso que fez no Brasil, porque é uma novela muito reconhecível pelo público, as pessoas vêem-se na novela. E isso é o que faz uma novela tornar-se um sucesso.

Sente a responsabilidade de uma telenovela sua suceder a Morde & Assopra, que tem feito números muito bons ao nível das audiências?

Sinto-me muito bem, porque quando a novela anterior fez sucesso, é mais fácil. O pior é quando é um fracasso e temos que levantar a audiência.

E se Fina Estampa não conseguir ter sucesso?

Recuso-me a pensar nisso (risos). Mas pode acontecer, é claro.

 [pullquote_left]Quando a novela anterior fez sucesso, é mais fácil. O pior é quando é um fracasso e temos que levantar a audiência.[/pullquote_left]

Está curioso para ver os resultados do primeiro episódio?

Estou, sim. Nós queremos que o público goste do nosso trabalho. Então, estou preocupado. Hoje estive a ver o episódio como se fosse a estreia de Fina Estampa de novo. Na maior ansiedade.

E amanhã à espera de ver os valores em audiência?

A grande vantagem aqui é que vemos no dia seguinte (risos).

Acha que o facto de ter Paulo Rocha no elenco vai ajudar a que os portugueses queiram ainda mais ver Fina Estampa?

O Paulo é um ator conhecido, mas acho que, principalmente pela Griselda, que é uma personagem que, desde o início, se torna evidente que é portuguesa. Ela desde o início que usa expressões portuguesas. Há um momento, no terceiro capítulo, em que ela sai de casa, olha para o céu e diz: ‘mas que sol do caraças!’. É uma personagem muito portuguesa, porque ouvia muito falar das receitas da mãe, há o bacalhau da Griselda que ela fazia. Acho que é mais pela Griselda que os portugueses se vão interessar.

Esta inserção de atores portugueses nas novelas brasileiras, a parceria da TV Globo com a SIC, o intercâmbio de histórias, ajuda a que Portugal e o Brasil se juntem para um melhor produto televisivo?

Acho que sim. Aliás, uma das coisas que não entendo é porque é que Portugal e o Brasil não são muito mais unidos, inclusivamente em termos de investimento. Acho que o Brasil devia investir mais em Portugal, assim como Portugal investiu, com a Portugal Telecom, etc. Os brasileiros têm que perceber que nós aqui estamos em casa, não só na comunicação, temos jornais portugueses no Brasil, editoras portuguesas, etc. Creio que podíamos fazer uma parceria maior e eu procuro fazer a minha parte.

 

Supervisionou Laços de Sangue, um sucesso na SIC. Para quando é que há uma novela portuguesa escrita por si?

Existe um mito urbano, que não sei se é verdade ou não, que diz que, depois de Laços de Sangue seria feita uma versão portuguesa de Roque Santeiro. Atenção que é um rumor. Se isso acontecer, aí, eu não abro mão de escrevê-la.

Quer ser o Aguinaldo a escrevê-la, portanto?

Sim, sim (sorri).

Está a chegar o remake português de Dancin’Days. Já viu algumas das imagens que já passam?

Não, ainda não vi.

Mas está expectante para ver o resultado deste trabalho?

Estou, claro. Dancin’ Days foi uma novela muito marcante no Brasil, então eu quero ver como é que os portugueses vão fazer o Dancin’ Days deles.

  [pullquote_right] Não entendo porque é que Portugal e o Brasil não são muito mais unidos, inclusivamente em termos de investimento. Acho que o Brasil devia investir mais em Portugal[/pullquote_right]

Nesta nova telenovela, Joana Santos volta a ser a protagonista. Tendo o Aguinaldo já trabalhado com ela em Laços de Sangue, está curioso por ver a mudança?

Já em Laços de Sangue a personagem dela era mais velha do que ela, e ela fê-la muito bem, e agora vai ser ainda mais velha, tem uma filha adolescente. Mas ela é uma atriz tão fantástica, que eu tenho a certeza de que ela vai passar por cima disso brilhantemente.

E quando é que a leva também para o Brasil?

Em breve. (risos)

Era a Joana de que falava quando disse que já sabe quem é o seu próximo “alvo”?

Era sim.

Gostava, portanto, de tê-la numa nova telenovela sua?

Gostava muito, sim.

Foi o Aguinaldo quem a escolheu para Laços de Sangue?

Não, não fui. Mas nós vimos os testes das candidatas e quando eu a vi, disse que ela era fantástica, mas não fui eu quem escolheu.

/* ]]> */

Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close