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Ivo Canelas é um dos protagonistas de “Liberdade 21”

Ivo Canelas, de 34 anos, é um actor multifacetado. Depois de se ter popularizado na série “Fura Vidas” (SIC), já passou por todos os géneros de representação. Regressou recentemente à televisão, à RTP1, na série que estreou na semana passada, “Liberdade 21”, na pele do advogado “Afonso Ferraz”, uma das personagens principais da história.

Leia, na íntegra, a entrevista feita pelo “Jornal de Notícias”:

As séries sobre advogados ainda estão na moda?

Têm uma componente dramática que ainda não explorámos. Mas acho que tem de ser o espectador a decidir isso. Espero que “Liberdade 21” venha preencher uma lacuna. Se não estou em erro, não tinha havido uma série de “adovogados à portuguesa”.

Qual é a sua perspectiva sobre o investimento da estação pública em séries?

Qualquer estação deve investir em ficção nacional. Se a RTP1, como canal do Estado que é, puder fazer um esforço nesse sentido é uma mais-valia. Espero que a competição entre os canais vá fazendo subir a fasquia. Temos de escrever muito para criar uma indústria nacional mais treinada.

“Liberdade 21” é uma série vanguardista?

Não sei se será vanguardista. Espero que tenhamos conseguido uma linha narrativa menos óbvia. A forma como os guiões estão escritos, de um modo não completamente linear, faz com que a representação esteja mais livre e se confie na inteligência do espectador – eu acredito que as pessoas são naturalmente inteligentes, pelo que não devemos subestimá-las. Do ponto de vista da realização, ressalvando que vi apenas dois episódios, espero que se tenha conseguido uma linguagem mais documental, onde a câmara segue o actor, sendo que este acaba por ter o corpo mais presente.

Inspirou-se em algum produto estrangeiro para construir a personagem?

Recorri às referências do que foi escrito pelas Produções Fictícias. A série é livremente inspirada em séries sobre advogados, sobretudo no “Boston legal”. Vi o “Boston legal” há uns anos atrás, quando estava a viver em Nova Iorque, e, apesar de tudo, acho que alguma da estrutura é semelhante mas o registo é completamente diferente. Até porque o nosso sistema judicial é radicalmente distinto do norte-americano, não tem a mesma flexibilidade, o que lhe limita alguma espectacularidade. Acabo por me inspirar mais na nossa realidade e de alguma forma nas nossas condições de trabalho social, às vezes absurdas e mesmo mal preparadas. Da realidade americana retiramos principalmente um estereótipo.

Pode descrever o Afonso Ferraz?

Sumariamente, é um advogado profundamente empenhado e envolvido, tecnicamente muito exigente. Tratam-se de pessoas da minha geração, que trabalharam muitíssimo para acabar os cursos, para ter os estágios feitos e para ingressar num escritório. Eles são muito competentes a nível profissional e são quase crianças no plano emocional. E essa será, sem dúvida, a sua característica mais forte: uma enorme incapacidade de equilibrar o profissional, onde é obsessivo e ganha sempre, com o emocional onde é tudo muito remendado. Neste conflito está inserido um divórcio mal resolvido.

Como é que se preparou para interpretar o papel?

A produção ajudou-nos imenso no sentido de termos contacto com profissionais da área e fomos assistir a uma série de julgamentos, aproximando-nos do lado técnico e profissional. Tivemos contacto com várias abordagens com registos variados, mas uma dessas pessoas mostrou-me o lado mais humano desta profissão. Às vezes imaginamos as coisas um bocadinho por alto e não vamos à essência. A responsabilidade de se ter um cliente ao nosso cuidado faz-nos pensar que as horas em que se dorme são aquelas em que não se salva ninguém. E foi essa a força que eu tentei imprimir. A verdade é sempre um objecto estranho que pode ser visto de ângulos muito diversos, mas o facto é que a vida das pessoas está em jogo e isso tem de se respeitar.

Ficou com uma ideia diferente da justiça portuguesa?

É uma justiça um bocadinho formal. Num dos julgamentos a que assisti, apercebi-me um pouco das fragilidades e das deficiências do sistema, dos problemas estruturais. São profissões de risco e realmente esgotantes quando levadas até às últimas consequências e encaradas com seriedade.

“Liberdade 21” tem uma preocupação com a verosimilhança. Há uma correspondência clara com a realidade?

Os caso são todos inspirados em casos reais e foram todos verificados por profissionais. Nós nas gravações, nas cenas de tribunal tínhamos sempre acompanhamento. Para mim, é uma mais-valia absoluta, gosto de trabalhar também num regime de improviso e de perceber qual é que é o limite e tentar forçá-lo um bocadinho. Mas realmente é preciso haver alguém com um selo de verdade a dizer o que é, ou não, possível. Houve um enorme esforço de ir encontro à realidade.

Qual foi o aspecto mais difícil ao vestir a pele de um jurista?

Acima de tudo acho que é uma determinada maneira de raciocinar. Entre o universo artístico e o jurídico, é engraçado porque ambas as profissões têm em comum o lado de não julgar, no sentido de que eu como actor não posso julgar um personagem, tenho de acreditar nele e defendê-lo, assim como o advogado faz em relação ao seu cliente. Agora, há um sistema mental que me colocou alguns problemas que foi abandonar um pensamento mais abstracto e torná-lo mais específico. A maior dificuldade foi essa: encontrar uma maneira de raciocinar substancialmente mais pragmática.

Um advogado também tem de ter um pouco de actor…

Sem dúvida. No nosso sistema judicial menos, porque raramente há a figura dos jurados. O lado da representação pode ser um bocadinho perigoso pois também nos pode rebentar nas mãos. Terá de ter, mas é uma das questões da personagem. Por exemplo, o Pedro, interpretado pelo Albano Jerónimo, tem uma faceta manipuladora, mais teatral. Apesar de tudo, o Afonso usa menos artíficios e acredita numa advocacia menos espectacular. Quando recorre ao lado de actor será sempre em última instância.

O que é que esta série vai dar de diferente aos espectadores?

Espero que tenhamos conseguido trazer momentos de realização, escrita e interpretação fora do convencional. As personagens estão a dizer uma coisa, a pensar outra e a fazer ainda outra coisa. Que traga uma maior complexidade à narrativa, que se confie na inteligência do espectador.

Não é arriscado investir na segunda temporada sem haver “feedback” da primeira?

Isso escapa-me completamente. Mas é porque a RTP acredita na qualidade da série que resolveu arriscar.

Porque é que decidiu abandonar “Liberdade 21” na segunda série, deixou de acreditar no projecto?

Não, já tinha coisas apalavradas em relação a outros trabalhos em que estou agora envolvido.

Vai elencar “Conexão”, de Leonel Vieira. O que nos pode contar?

É uma minissérie de dois episódios para a RTP, onde existem duas histórias paralelas relacionadas com o narcotráfico.

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