Geral

Como olham os portugueses para a televisão?

Ver televisão já não é uma experiência confinada à sala de estar, nem a um único aparelho. Terminais como telemóveis ou computadores estão a assumir um maior protagonismo na experiência televisiva afectando de forma distinta os vários grupos etários e económicos. É dessa nova realidade que nos dá conta o estudo Sociedade em Rede em Portugal 2008 – A Experiência Televisiva na Sociedade em Rede, um trabalho divulgado este mês pelo Obercom e que pretende detectar novas tendências de consumo deste suporte ao longo das diversas faixas etárias. “Para os adolescentes e para os jovens adultos, a televisão começa a perder o lugar central e agregador que ocupou nas passadas décadas, sendo que estes grupos etários tendem a ver menos tempo de televisão, a ser mais críticos em relação à qualidade dos seus conteúdos e a valorizar menos este media em relação a suportes alternativos”, pode-se ler no estudo.

Outro dado a merecer destaque é que a grande maioria dos inquiridos (67,3 por cento) afirmou não ter quaisquer gastos com televisão e apenas 10 por cento declara gastar 30 euros ou mais por mês. As pessoas de mais idade são aquelas que menos gastam em serviços pagos de televisão, sendo que mais de três quartos (76,2 por cento) afirmam não gastar nada. Esta já não é a realidade junto das camadas mais jovens. É nestas faixas etárias, que “se verifica uma maior disponibilidade para despender recursos em serviços pagos de televisão, o que permite destacar a possibilidade de estruturar cada vez mais o modelo de negócios do sector televisivo em torno de sistemas de subscrição e pay-per-view, assim como continuar e inovar em termos de serviços pagos que podem ser acedidos através da televisão”, conclui o estudo.

O consumo de televisão cresceu?

De acordo com os dados recolhidos na investigação efectuada pelo Obercom, em termos globais o número de inquiridos que admite ver mais de três horas de televisão por dia caiu de 30,7 por cento em 2006, para 20,7 por cento em 2008, tendo aumentado a proporção dos que vêem uma hora ou menos, que no mesmo período passou de 24,1 por cento para os 30 por cento registados no ano passado.

As mulheres consomem televisão de forma mais intensiva do que os homens, sendo que 22,7 por cento passam mais de três horas por dia a ver televisão, contra apenas 18,5 por cento dos homens. É também nas classes etárias mais idosas que o consumo deste tipo de suporte é mais elevado. De acordo com o estudo, 28,5 por cento dos inquiridos com 65 anos ou mais dedica acima de três horas por dia a ver televisão, enquanto que na faixa entre os 15 e os 24 anos esse valor desce para os 15,2 por cento, fixando-se nos 16,5 por cento no grupo entre os 24 e os 34 anos e nos 15,5 por cento junto dos inquiridos com idades compreendidas entre os 35 e os 44 anos.

O tipo de plataforma através da qual se acede aos conteúdos também afecta o tempo despendido a ver televisão. Dos inquiridos que dispõem de televisão por cabo (40,5 por cento do total de inquiridos), 37,1 por cento vêem menos de uma hora por dia, contra apenas 24,2 por cento dos que acedem através da rede analógica terrestre (antena). Um factor que, ressalva o estudo, deve ter em conta que se encontra uma maior proporção de população idosa e reformada na população com acesso por via hertzeniana, mas também “com a fase do ciclo da vida em que os indivíduos se encontram, nomeadamente a sua situação perante o trabalho”, com o estudo a encontrar paralelismos de consumo entre trabalhadores e estudantes e entre domésticas e reformados.

Quem vê mais televisão consome mais media tradicionais

O estudo também detectou uma outra tendência em termos de consumo de media. Ou seja, os grupos que registam um maior consumo de televisão, “também apresentam níveis de exposição mais elevados a outros media tradicionais, tais como a rádio”. Efectivamente, 22,6 por cento dos indivíduos que vêem mais de três horas de televisão, também ouvem mais de três horas de rádio por dia, contra cerca de 11,3 por cento da população. No que refere ao consumo de novas tecnologias, mais precisamente a internet, o estudo não encontra uma relação directa entre os dois. Ou seja, “um consumo mais activo de televisão não parece estar relacionado com uma maior exposição a esse meio: dos que vêem pelo menos três horas de televisão por dia, 4,7 por cento usam também a internet mais de três horas diariamente, assim como 4,1 por cento no caso da população em geral”.

Em termos de percepção do nível de consumo de televisão, 31,9 por cento dos inquiridos considera ver actualmente mais televisão do que há cinco anos, enquanto 49,5 por cento afirma que o mesmo se manteve. Já 18,6 por cento dos respondentes considera que este diminuiu. É entre os adolescentes e jovens adultos (15 a 34 anos) que esta percepção de diminuição do consumo é maior, contudo foi também neste grupo que se verificou a maior percepção de aumento do tempo despendido a ver televisão. Mais, realça o estudo, “cerca de um terço (33 por cento) dos inquiridos que afirmou aceder mais hoje em dia à internet do que há cinco anos atrás, declarou também ver menos televisão do que há cinco anos atrás, sugerindo que o tempo antes dedicado ao pequeno ecrã poderá ter sido transferido para plataformas alternativas”.

Apesar desta percepção da diminuição do consumo do meio, sobretudo junto aos jovens a televisão permanece o meio de comunicação mais valorizado pelos inquiridos. Quando questionados sobre qual a actividade de media que seria mais difícil deixar de fazer, mais de metade (55,3 por cento) referiu “ver televisão”, seguido de “usar o telemóvel” (25,6 por cento). Ouvir rádio (7,6 por cento), usar a internet (6,4 por cento) ou ler jornais e revistas (1,5 por cento) surgem com valores bastante abaixo dos registados pela televisão. Todavia, ressalva o estudo, junto das camadas mais jovens a importância da televisão diminui face à utilização de outros suportes. “A valorização dos vários media pelos mais novos revela novos padrões de consumo, sendo que na categoria etária 15-24 anos a preferência pela TV regista apenas 25 por cento das preferências, sendo destacadas outras plataformas tais como a internet ou o telemóvel”, pode-se ler no estudo.

Quais os conteúdos favoritos?

Notícias e programas de desporto são os géneros favoritos dos portugueses, recolhendo a concordância de 78,8 e 47,4 por cento dos inquiridos, respectivamente. Filmes de origem estrangeira (45,7 por cento), telenovelas portuguesas (42,3 por cento), documentários (40,3 por cento) e séries (32,9 por cento) são os conteúdos televisivos que se seguem. Mas, introduzindo as preferências dos telespectadores medidas pelos audímetros, verifica-se que os portugueses consomem efectivamente sobretudo programas desportivos, notícias e as telenovelas.

Analisando as preferências televisivas pelo tipo de acesso, denota-se também algumas diferenças. Se na população que acede através de antena o destaque vai para telenovelas (nacionais e estrangeiras) e informação, na amostra que acede via cabo as preferências vão para as séries, filmes, desporto e documentários. Distinções que o estudo do Obercom enquadra “no seio da diversidade da oferta de conteúdos de ambas as plataformas, oferecendo o cabo um maior número de canais especializados”.

“Boa” ou “muito boa” é como 78,5 por cento dos inquiridos classifica a qualidade dos programas emitidos, considerando 75,2 por cento como “boa” ou “muito boa” a diversidade da oferta de programas e 65,1 por cento o horário de transmissão dos mesmos. O segmento feminino é o que tem uma opinião mais favorável sobre a qualidade dos programas emitidos, com 80,7 por cento a classificar a oferta como “boa” ou “muito boa” contra 69 por cento dos homens. Em campos opostos estão também os jovens entre os 15 e os 24 anos e os idosos, com as camadas mais novas a “apresentarem-se de forma geral mais críticas em relação aos conteúdos da TV do que os grupos mais idosos”. Com valores elevados está também a avaliação da qualidade das telenovelas de origem portuguesa – quer em termos de actores, como realização e argumento, apresentando números acima dos 60 por cento por sexo e faixa etária – tal como a informação, com 63,9 por cento dos respondentes a afirmar confiar bastante ou totalmente na informação televisiva.

Novos padrões de consumo, com novos terminais a assumirem uma maior relevância, empurrados por novas formas de consumo protagonizados sobretudo pelos mais jovens, coexistem, por conseguinte, com o modelo tradicional de visionamento televisivo. Um padrão mediático que surge “numa altura de profunda reestruturação do sistema televisivo em Portugal com o início da Televisão Digital Terrestre”, o que, coloca na ordem do dia, o repensar da “própria identidade da televisão”

Meios & Publicidade

/* ]]> */

Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. mais informações

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close